Mandou-me ir comprar roupa ao mercado, porque, segundo ela, ali eu só estava a desperdiçar-lhe o tempo. Perguntou se tencionava pagar a prestações com a reforma ou se tinham sido as minhas netas a juntar dinheiro para mim. Ainda insinuou que eu devia ter um “velhote rico” a sustentar-me. E, para rematar, informou-me de que rugas no pescoço não combinavam com decotes.
Helena ficou sem cor. Apertou a pasta contra o peito com tanta força que os nós dos dedos se lhe tornaram brancos.
— Cristina — disse, num tom baixo, mas cortante. — Isto é verdade?
— Ela está a exagerar tudo! — guinchou a vendedora. — Eu só brinquei um bocadinho! Aqui o ambiente é descontraído, não é? Eu falo sempre assim com as clientes e ninguém leva a mal!
— Uma piada sobre reformas e velhos ricos? — Helena comprimiu os lábios até ficarem numa linha fina. — Cristina, já conversámos sobre a sua forma de tratar as pessoas. Nos últimos seis meses recebeu três advertências por escrito. Isto é absolutamente inadmissível.
— Oh, por amor de Deus! — Cristina abanou a mão, como se o assunto não tivesse importância. — A senhora comprou o vestido, não comprou? Pagou seiscentos e oitenta euros! Portanto, ficou tudo bem.
— Ficou? — Tirei da mala o Cartão de Cidadão e a certidão de propriedade. Abri os documentos com calma e coloquei-os sobre o balcão, diante de Helena. — Veja com atenção, por favor.
A gerente pegou nos papéis. Leu a certidão, depois voltou ao início, como se as palavras lhe tivessem fugido ao entendimento. A palidez acentuou-se-lhe no rosto. Olhou para mim, baixou novamente os olhos para os documentos e tornou a encarar-me.
— Meu Deus… — murmurou. — Ana… Peço imensa desculpa. Não a reconheci de imediato. A senhora… está diferente. Quero dizer, parece mais nova… mais simples… de outra maneira.
Cristina arregalou os olhos.
— O quê? Quem é ela?
Helena demorou um segundo antes de responder, como se cada sílaba lhe pesasse.
— É Ana Silva. A proprietária desta boutique e de todo o edifício. Comprou tudo há um mês por cento e oitenta mil euros. O prédio, o negócio, o stock, tudo. E tu acabaste de a chamar avozinha. E de dizer que ela tinha um velho rico a pagar-lhe as compras.
Fez-se um silêncio espesso.
Cristina ficou imóvel, de boca entreaberta. Primeiro empalideceu, depois ficou vermelha, e logo a seguir voltou a perder a cor. Recuou até à parede e apoiou a mão no balcão, como se as pernas estivessem prestes a falhar-lhe.
— Eu… eu não sabia — balbuciou. — Eu não vi… Desculpe, eu pensei…
— Pensou que podia ser mal-educada com uma mulher mais velha — concluí por ela. — Porque, na sua cabeça, uma pessoa com idade não merece respeito. Porque presumiu que eu não tinha dinheiro. Porque sou velha. Porque, para si, o meu lugar era no mercado, não numa boutique.
— Não! Não foi isso que eu quis dizer! — Cristina levou as mãos à cabeça. — Eu apenas… não pensei! Foi uma brincadeira!
— Uma brincadeira — repeti. — Então humilhar alguém é, para si, uma forma de humor. Está esclarecido. Helena, quanto ganha Cristina por mês?
A gerente respondeu quase num sopro:
— Seiscentos e cinquenta euros.
— E por que trabalho, exatamente?
— Atendimento ao cliente. Aconselhamento, vendas, registo das compras.
— E desempenha bem essas funções?
Helena calou-se por instantes. Depois desviou o olhar para o chão.
— Não — admitiu. — Sinceramente, não. Tivemos queixas. Várias, ao longo do último ano. Clientes disseram que Cristina era rude, arrogante, que os tratava com desprezo. Houve pessoas que saíram sem comprar nada precisamente por causa da atitude dela.
— Então por que motivo ainda não a despediu?
A gerente suspirou.
— Quis fazê-lo. Mas tive receio de ficar sem vendedora. Encontrar alguém experiente e competente neste segmento não é simples. Pensei que talvez Cristina mudasse. Chamei-a à atenção, fiz reuniões, dei-lhe oportunidades.
— E ela não mudou — constatei. — Portanto, chegou a altura de agir. Cristina, está despedida. A partir de hoje. Receberá o que lhe é devido e pode ir embora.
A vendedora agarrou-se à extremidade do balcão, como se só aquilo a impedisse de cair.
