“Somos a família da Ana” — declarou o mais novo, avançando um passo

Histórias
Esse encontro inesperado é doloroso e perturbador.

— Tudo — insistiu ele, com firmeza contida. — Tenho o direito de saber.

A manhã nasceu pesada, como se a casa inteira tivesse acordado com o peso da noite anterior. Na cozinha, Inês preparava o pequeno-almoço sem fazer barulho. Miguel percorria as notícias no telemóvel, fingindo uma concentração que não tinha. Manuel falava ao telefone no corredor, em voz baixa. Ana bebia café em silêncio, de olhar preso na chávena, enquanto João observava discretamente cada gesto, cada pausa, cada troca de olhares.

Depois da conversa com a mulher, sentia-se como alguém que, de repente, tivesse entrado numa vida que não lhe pertencia. O que Ana lhe contara parecia verdadeiro, sim, mas incompleto. A zanga com a madrasta, os relógios desaparecidos, a acusação… tudo aquilo soava mais a pretexto do que a motivo suficiente para cortar laços de forma tão definitiva.

— João, podes vir comigo um instante? — pediu Inês, apontando com um movimento de cabeça para a varanda.

Quando ficaram a sós, ela tirou do bolso um pequeno álbum antigo, gasto nas pontas, não maior do que a palma da mão.

— São fotografias da Ana em criança. Andei sempre com isto comigo. Não sei… talvez porque, no fundo, nunca deixei de acreditar que um dia a voltaria a ver e lhas poderia entregar.

João recebeu o álbum com cuidado. Na primeira página havia uma menina de uns cinco anos, sorridente, com duas tranças. Era impossível não reconhecer nela os traços de Ana.

— A Ana era a mais velha de nós — disse Inês, baixinho. — Quando a nossa mãe morreu, ela tinha dezoito anos. Eu tinha treze e o Miguel, dezasseis. Foi ela quem tomou conta da casa, quem cuidou de nós, enquanto o Manuel passava o dia no trabalho. Depois apareceu a Cláudia…

— A nova mulher dele — murmurou João, lembrando-se do relato de Ana.

— Sim. E não gostou da Ana desde o primeiro dia. Dizia que ela mandava demais, que queria controlar tudo. Mas a Ana só estava habituada a ser responsável por nós. Com o tempo, a relação entre as duas tornou-se insuportável. Até que aconteceu aquilo dos relógios.

— Os da avó?

Inês assentiu.

— Eram antigos, de família. Desapareceram, e a Cláudia acusou a Ana. Disse que a tinha visto a mexer neles pouco antes.

João virou outra página. Numa fotografia, Ana surgia adolescente, com uma guitarra ao colo. Ao lado dela estavam Inês e Miguel, ainda miúdos.

— E depois? — perguntou ele.

Inês demorou alguns segundos antes de responder.

— Depois, o Miguel ficou do lado da Cláudia. Disse que também tinha visto a Ana com os relógios na mão naquele dia. E eu… eu calei-me. Tive medo.

Mais tarde, já depois do pequeno-almoço, Ana encontrou Miguel no corredor.

— É verdade que passaste estes anos todos à minha procura? — perguntou ela, sem rodeios.

João tinha saído para o trabalho. Manuel e Inês tinham ido tratar de assuntos jurídicos relacionados com a herança. Pela primeira vez desde a chegada deles, irmão e irmã estavam sozinhos.

— É — respondeu Miguel, sem levantar os olhos.

— Porquê? Por causa da herança?

— Não só. — Finalmente encarou-a. — Eu queria pedir-te perdão. Devia tê-lo feito há dez anos, mas fui cobarde. E orgulhoso.

Ana cruzou os braços, defensiva.

— Perdão exatamente pelo quê?

Miguel passou a mão pelo rosto, como se aquilo lhe custasse fisicamente.

— Por ter mentido naquela reunião de família. Eu não te vi tirar os relógios. Não vi coisa nenhuma. A Cláudia… sabia convencer as pessoas.

— E preferiste acreditar nela em vez de acreditares em mim?

Ele soltou um suspiro pesado.

— Eu tinha vinte e cinco anos e estava fascinado por ela. Sim, era mulher do nosso pai, mas era só cinco anos mais velha do que eu. Ela percebeu isso e usou-me.

Ana ficou imóvel, de olhos arregalados.

— Tu e a Cláudia?…

— Não aconteceu nada — disse Miguel, com um sorriso amargo. — Mas eu queria que acontecesse. Fui um idiota. Ela prometeu-me que, se eu a apoiasse contra ti, convenceria o pai a deixar-me ir estudar para a Maia. E eu caí que nem um parvo.

— E ela convenceu-o?

— Claro que não. Assim que tu foste embora, ela conseguiu o que queria: ficou a mandar na casa. Depois começou a virar o pai contra mim e contra a Inês. Um ano depois, ele divorciou-se dela, mas já era tarde. Tu já tinhas desaparecido da nossa vida.

Ao fim da tarde, João voltou do trabalho mais cedo do que era habitual. A notícia inesperada sobre a família de Ana não lhe saía da cabeça, e concentrar-se fosse no que fosse tinha-se tornado impossível. Precisava de compreender melhor aquela história cheia de sombras.

O apartamento estava silencioso. Na sala, Manuel dormitava numa poltrona. Na cozinha, Inês preparava qualquer coisa, cantarolando muito baixinho. Nem Ana nem Miguel estavam à vista.

— Estão na varanda — disse Inês, como se lhe tivesse lido o pensamento. — Já falam há mais de uma hora.

João assentiu e entrou na cozinha.

— Posso ajudar com o jantar?

— Podes, claro. — Ela sorriu. — Corta os legumes para a salada.

Durante alguns minutos trabalharam sem dizer nada. O som da faca contra a tábua e o borbulhar da panela enchiam o silêncio. Mas João acabou por não aguentar.

— Inês, o que aconteceu realmente à vossa família? A Ana conta uma coisa, o Miguel outra… Onde está a verdade?

Ela afastou a panela do lume, limpou as mãos a um pano e virou-se para ele.

— A verdade é que todos tivemos culpa. Cada um à sua maneira. Eu era adolescente, mas já percebia que a Cláudia estava a mentir sobre os relógios. Vi-a mexer na caixa de joias da avó. Só que não disse nada. Ela ameaçou mandar-me para um internato se eu não me mantivesse “bem caladinha”.

— E o Manuel? Ele não percebeu nada?

— Estava cego por ela — respondeu Inês, com tristeza. — Uma mulher bonita e mais nova deu-lhe atenção, e ele perdeu completamente o juízo. Acreditou nela, não nos próprios filhos. Mas sabes uma coisa? Depois da Ana ir embora, foi ele quem mais sofreu. Procurou-a durante anos.

João ficou com a faca suspensa sobre os legumes, atónito.

— E tudo por causa de uns relógios?

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