— Como é que isto há de ser só teu? Vivemos todos debaixo deste teto, e não és tu que decides quem pode ficar aqui e quem não pode! — explodiu a sogra.
— Eu disse que não — repetiu Ana, fazendo um esforço enorme para não perder o controlo. — Este apartamento é meu. E eu não vou…
— Teu? — interrompeu-a Maria, semicerrando os olhos, incrédula. — E a família, não conta? João, estás a ouvir o que a tua mulher está a dizer?
Ana abriu a porta devagar, quase sem vontade de entrar. Já passava pouco das nove. Tinha chegado tarde do trabalho, presa a um projeto que lhe sugara o dia inteiro. E, como quase sempre ultimamente, mal entrou em casa, encontrou o ar carregado de vozes altas.
— Outra vez a estas horas! — atirou Maria, assim que a viu aparecer. — O João está sentado à espera, cheio de fome!

Ana inspirou fundo enquanto tirava o casaco. Aquela casa, que devia ser o seu refúgio, parecia-lhe cada vez menos sua. Era como se estivesse a atravessar território alheio, onde a toleravam apenas por educação.
Mês e meio antes, quando João lhe pedira que acolhessem os pais enquanto durassem as obras na casa deles, Ana aceitara sem pensar muito. Seriam duas ou três semanas, no máximo. Um incómodo passageiro. Só que as semanas foram passando, os pais dele continuaram instalados e a situação começou a transformar-se numa espécie de pesadelo prolongado.
— Boa noite — disse ela, ao entrar na cozinha.
João e José estavam sentados à mesa, de olhos presos à televisão. Maria, junto ao fogão, manuseava tachos e pratos com uma energia ruidosa, como se cada objeto tivesse culpa de alguma coisa.
— Eu pedi-te para chegares, no máximo, às sete! — continuou a sogra, com aquele tom de repreensão que já se tornara habitual. — Cá em casa há horários. Nós estamos habituados a jantar a horas decentes.
Ana abriu o frigorífico com calma estudada, tentando não deixar transparecer a irritação.
— Tinha trabalho — respondeu, controlando a voz. — Precisava de terminar uma parte importante do projeto.
— Trabalho, trabalho… — troçou Maria. — E quem é que olha pelo marido? João, diz-lhe alguma coisa!
João encolheu-se na cadeira, visivelmente dividido, ou talvez apenas com medo de escolher um lado.
— Ana… se calhar era melhor tentares vir um bocadinho mais cedo — murmurou, sem conseguir encará-la.
Ana apertou os lábios. Antes, ele nunca lhe cobrara os atrasos. Nunca fizera daquilo uma questão. Mas desde que os pais tinham chegado, parecia outro. Ou talvez ela só estivesse agora a vê-lo com mais nitidez.
— Pois, pois — concordou José, desviando por fim os olhos do ecrã. — Uma mulher deve pensar primeiro na família. Hoje em dia…
Ana ficou rígida. Quantas vezes já ouvira aquele “hoje em dia”, sempre dito como se fosse uma sentença?
— Vou preparar qualquer coisa para o jantar — murmurou, pegando nos sacos das compras.
— Não te incomodes — atalhou Maria, fazendo um gesto de dispensa com a mão. — Já tratei de tudo. E também arrumei outra vez os teus armários. Tinhas aquilo tudo sem jeito nenhum.
Ana parou de repente.
— Como assim, arrumaste outra vez? Esta cozinha é minha, Maria…
— Exatamente, tua — confirmou a sogra, com uma serenidade irritante. — Mas as coisas têm de estar organizadas como deve ser. Eu tenho muitos anos de casa, sei do que falo.
Ana sentiu a raiva subir-lhe por dentro, quente e pesada. Olhou para a mesa. João mantinha a cabeça baixa, como se pudesse desaparecer dentro do prato.
— Já agora — acrescentou Maria, de súbito, lançando às paredes um olhar avaliador — vocês também precisavam de umas obras. Isto está tudo tão antiquado.
Ana cerrou os dentes.
— Maria — começou, esforçando-se por manter um tom firme — combinámos que vocês ficavam connosco enquanto durassem as obras na vossa casa. Mas, pelo que vejo, ainda nem começaram. Talvez esteja na altura de pensarem em…
— Ah, essas obras… — suspirou a sogra, preparando-se para explicar.
