— …complicaram-se — rematou Maria, com um suspiro teatral. — Os homens atrasaram-se, depois trouxeram materiais que não prestavam… Enfim, vamos ter de ficar aqui mais um bocadinho.
— Quanto tempo? — perguntou Ana, quase sem voz.
— Ora, dois ou três meses. Não mais do que isso — respondeu a sogra, agitando a mão como se falasse de uma ninharia. — Qual é o problema? Nem damos por nós!
Ana sentiu os dedos fecharem-se devagar, até as unhas lhe marcarem a palma. Dois ou três meses? Mais dois ou três meses daquela invasão dentro da própria casa?
— João — cantarolou Maria, de repente, abrindo um sorriso meloso — se calhar nem vale a pena termos tanta pressa com as obras.
Fez uma pausa, satisfeita com a ideia que acabara de lhe ocorrer.
— Vendemos o nosso apartamento e passamos a viver todos juntos aqui. Espaço não falta!
Ana ficou imóvel.
— Que excelente ideia, mãe! — exclamou João, animado. — Não achas, Ana? Tu sozinha tens imenso trabalho. Nós ajudamos.
Devagar, Ana ergueu os olhos para ele.
— O quê? — perguntou, como se não tivesse ouvido bem.
— Claro — concordou José, com a maior naturalidade. — Os jovens precisam de apoio. E, quando vierem os netos, também damos uma mão.
Ana sentou-se, sentindo o corpo afundar-se sob um peso invisível. Em que momento é que a vida dela se tinha transformado naquele absurdo? Quando deixara de mandar na própria casa?
— Não — disse, seca.
— Como assim? — Maria virou-se para ela de imediato.
— Eu disse que não — repetiu Ana, lutando para não perder o controlo. — Este apartamento é meu. E eu não vou…
— Teu? — interrompeu a sogra, estreitando os olhos. — E a família fica onde? João, estás a ouvir a tua mulher?
João franziu o sobrolho.
— Ana, para quê esta conversa? A minha mãe tem razão. Viver em conjunto é mais simples…
— Mais simples? — Ana levantou-se. — Mais simples viver vigiada a toda a hora? Aceitar que pessoas que não mandam aqui deem ordens dentro da minha casa?
— Pessoas que não mandam aqui?! — indignou-se Maria.
— Serem família dá-vos o direito de decidir sobre aquilo que é meu? — a voz escapou-lhe, mais alta do que pretendia.
João pôs-se de pé de rompante.
— Para de gritar com a minha mãe! — atirou. — Tu antes não eras assim…
Ana inspirou fundo, tentando desfazer o nó que lhe apertava a garganta.
— Pois não. Antes eu era diferente. Até perceber que vocês passaram todos os limites.
Maria levou as mãos ao peito, ofendida.
— João, ouviste isto?
O olhar dele saltava da mãe para a mulher, perdido, mas Ana já tinha chegado ao ponto de não retorno.
— Ana, vamos conversar com calma…
— Não, João — disse ela, endireitando as costas enquanto engolia as lágrimas. — Chega. Durante mês e meio calei-me. Aguentei que mexessem na minha cozinha, que mudassem as minhas coisas de sítio, que me dessem ordens na minha própria casa, na minha própria vida!
— Nós só queríamos ajudar — murmurou José, numa tentativa de se justificar, embora a voz dele soasse já a rendição. — Pôr isto em ordem…
— Em ordem?! — Ana virou-se para ele com brusquidão, como se tivesse ouvido uma obscenidade. — Quem vos pediu isso? Esta é a minha casa, e aqui valem as minhas regras.
— Que falta de educação! — Maria apertou os lábios, pálida de raiva. — João, vais mesmo permitir que ela fale connosco desta maneira?
Ana sentiu as forças abandonarem-na de repente. Por dentro, restou-lhe apenas um vazio frio. Até quando teria de suportar aquilo? Quanto mais duraria aquela encenação?
— Vão-se embora — disse, baixo, mas com uma firmeza que fez todos na cozinha ficarem em silêncio.
— O quê? — Maria ficou petrificada, a colher suspensa a meio caminho, como se se recusasse a acreditar no que acabara de escutar.
