— Eu disse que saíssem da minha casa — repetiu Ana, agora num tom mais alto, com a voz dura como pedra. — Agora. Juntem as vossas coisas e vão-se embora.
O silêncio que caiu sobre a cozinha pareceu quase ensurdecedor. Maria perdeu a cor, José piscou os olhos sem perceber, e João ficou imóvel, de boca entreaberta, como se a cena diante dele fosse impossível de assimilar.
— Tu não podes fazer isto… — começou Maria, incrédula.
— Posso — cortou Ana, encarando-a sem desviar os olhos. — Esta casa é minha. Está em meu nome. E nunca mais vou permitir que alguém entre aqui para mandar em mim.
Sem esperar resposta, Ana dirigiu-se para a sala, onde os sogros tinham dormido, e começou a recolher os pertences deles. Cada segundo parecia arrastar-se, pesado, interminável, mas ela não parou. Se parasse, sabia que talvez lhe faltasse a coragem.
— Ana, para com isso! — João agarrou-lhe o braço, desorientado, com a expressão de um rapaz que não compreendia o que se passava à sua volta. — Não podes tratar os meus pais assim!
— Posso, sim — respondeu ela, libertando-se com um puxão, apertando os dentes para conter a tempestade que lhe subia ao peito. — E, se não concordas, podes ir com eles.
— O quê?! — João recuou um passo, aturdido. — Estás a pôr-me fora também?
— Não — Ana abanou a cabeça. — Estou a dar-te uma escolha. Ou ficas aqui comigo e respeitas as minhas regras, ou sais com os teus pais.
— Ingrata! — gritou Maria, ofendida, comprimindo os lábios até ficarem brancos. — Depois de tudo o que fizemos por ti, sempre com boa intenção, e tu pagas-nos desta maneira…
— As vossas coisas já estão prontas — interrompeu Ana, sem lhe conceder espaço para continuar. — Têm cinco minutos para sair de minha casa.
— E se não sairmos? — Maria estreitou os olhos, com um sorriso torto e venenoso.
— Chamo a polícia — respondeu Ana, calma, sem um tremor na voz. — E acredite que tenho determinação suficiente para apresentar queixa por permanência indevida numa propriedade privada.
— João! — guinchou Maria, agarrando a mão do filho como se ele fosse a última salvação. — Faz alguma coisa, homem!
Mas João permaneceu no mesmo lugar, enraizado no chão, olhando ora para a mulher, ora para os pais. Havia pânico nos seus olhos. Nunca antes tinha sido colocado entre duas lealdades de forma tão brutal.
— O tempo já começou a contar — disse Ana, consultando o relógio. A voz dela já não trazia o cansaço resignado de antes; agora havia nela uma firmeza fria.
Maria abriu a boca, pronta a disparar mais uma acusação, mas José tocou-lhe no braço. A voz dele saiu baixa, embora inesperadamente decidida:
— Vamos, Maria. Aqui já não somos bem-vindos.
— Como assim, não somos?! — revoltou-se ela, com o rosto deformado pela indignação. — Não se faz uma coisa destas à família! João, diz alguma coisa!
João mudou o peso de um pé para o outro, como alguém sem saber para onde fugir. Evitava o olhar de Ana, e esse gesto doeu-lhe mais do que qualquer insulto. Ainda assim, ela não recuou.
— Ana… talvez não fosse preciso ir tão longe — murmurou ele, inseguro. — Podíamos conversar, resolver isto com calma…
— Não há nada para conversar — respondeu Ana, com uma segurança tão firme que até as paredes pareciam ter-se colocado do lado dela. — A minha decisão está tomada.
Maria e José, como duas sombras gastas e ofendidas, recolheram o que restava das suas coisas em silêncio e avançaram para a porta. Já no limiar, Maria voltou-se uma última vez, ainda com esperança, os olhos brilhantes de lágrimas e raiva.
— João, não vais deixar-nos ir assim, pois não?
Ele ficou parado, esmagado entre a culpa e a vergonha. Depois abriu os braços num gesto impotente, incapaz de oferecer mais do que uma promessa fraca:
— Mãe, eu… vou tentar falar com a Ana. Talvez ela se acalme.
