— Para as obras no apartamento dele, claro. E tu puseste-a na rua. Ainda por cima disseste-lhe coisas horríveis. — João lançou à mulher um olhar carregado de censura e entrou na sala. — Mas tu estás bem da cabeça?
Ana fechou o livro com estrondo.
— Espera lá… Tu estás a tomar o partido dela? Achas mesmo normal eu pagar a remodelação da casa do teu irmão?
— Estamos todos a contribuir. É assim que uma família funciona. Somos família, temos de nos apoiar uns aos outros. — João deixou-se cair no sofá e entrelaçou os dedos, como se estivesse a fazer um discurso muito sensato. — Os meus pais deram dinheiro, os pais da mulher dele também, eu também dei… Agora faltas tu.
— Que curioso. — Ana soltou um sorriso frio. — Para a máquina de lavar, para os pneus de inverno e para umas férias, os teus pais nunca têm um cêntimo. Mas, quando o teu irmão precisa de obras, aparece dinheiro debaixo das pedras.
Fez uma pausa, olhando-o de alto a baixo.
— E ainda mais curioso é saber de onde tiraste tu esse dinheiro. Porque, sempre que te peço ajuda ou há alguma conta para pagar, tirando as compras do supermercado, desapareces sempre.
— Ana, tu sabes perfeitamente que eu trabalho no imobiliário… Há meses bons e meses maus. Ontem fechei o arrendamento de um apartamento e a primeira coisa que fiz foi transferir dinheiro para a minha mãe. — João tirou o relógio do pulso, pousou-o na mesa e esticou o braço, como se estivesse exausto.
— João, contigo a caixa está sempre vazia. Em um ano, não me lembro de te ver trazer para casa mais de quatrocentos euros num mês. Eu, por outro lado, ganho cinco mil todos os meses. — Ana cruzou as pernas e encostou-se na poltrona. — Entre nós há um abismo financeiro do tamanho de Lisboa.
A voz dela endureceu.
— Há um ano que te sustento. A tua roupa sou eu que compro. O crédito que tinhas antes do casamento fui eu que liquidei. Até a viagem à praia saiu do meu bolso. Diz-me lá: quem é o homem desta casa? És tu algum macho alfa?
— Eu não sou macho alfa nenhum. Simplesmente, neste momento, estou sem dinheiro. Mas ainda vou ganhar milhões. E isto de hoje, de não me teres apoiado… eu não me vou esquecer. Quando o meu projeto arrancar, falamos. — João levantou-se e dirigiu-se ao quarto.
Como não tinha argumentos, preferiu abandonar a discussão, deixando atrás de si aquela espécie de última palavra.
— Primeiro descobre como é que esse teu projeto vai arrancar! — gritou Ana, já fora de si. — Nem sequer és capaz de me engravidar!
As palavras saíram-lhe atravessadas, cheias de raiva e dor. Ana tinha trinta e cinco anos e sonhava com filhos. João, cinco anos mais novo, há um ano que não conseguia dar-lhe aquilo que ela tanto desejava.
Nessa noite, Ana tomou uma decisão firme: iria deixar muito claro ao marido que a família dele não continuaria a viver à custa do dinheiro dela. Tirou do armário um conjunto de roupa de cama extra, abriu o sofá da sala e resolveu deitar-se cedo. Foi então que veio o choque completo.
Perto da meia-noite, acordou com vontade de ir à casa de banho. No caminho, reparou numa faixa de luz a sair da cozinha. Pela fresta, viu João sentado à mesa, a falar ao telefone em voz baixa.
— Não, ela não desconfia de nada. Já estamos quase lá. Depois de amanhã já consigo depositar o dinheiro. Juntei praticamente a quantia necessária.
Ana ficou imóvel no corredor. Prendeu a respiração e escutou cada palavra. Quanto mais ouvia, mais arregalados ficavam os seus olhos.
— Não te preocupes, tu és a pessoa mais importante da minha vida. Eu disse que ia resolver o problema, não disse? Vai ficar tudo bem — murmurou ele.
Ana levou a mão à boca, horrorizada.
— O que é isto? Então não sou eu a mulher mais importante da vida dele? Há outra pessoa? — pensou, sentindo o chão fugir-lhe debaixo dos pés, enquanto João continuava a conversa.
— Sim, este ano consegui juntar uma quantia decente. Tinhas razão… Mudar-me para o apartamento da Ana para poupar mais dinheiro foi uma ideia excelente. Obrigado outra vez pelo conselho. A sério, foi brilhante.
João levantou-se da cadeira e serviu-se de um copo de vinho.
Ana percebeu que a chamada estava a terminar. Esquecendo por completo a ida à casa de banho, recuou em silêncio e voltou rapidamente para a sala, com o coração aos saltos.
— Ele combinou isto com alguém…
— E casou comigo já com isto planeado…
— Usou-me…
Deitou-se no sofá, rígida como uma tábua. O coração batia-lhe com tanta força que parecia uma locomotiva a passar-lhe dentro do peito. Na cabeça, um turbilhão de pensamentos girava sem lhe dar descanso.
