“Faça o favor de engolir essa conversa e sair da minha casa!” — Ana bradou, abrindo a porta com um gesto brusco e deixando a sogra petrificada

Histórias
Recusar foi cruelmente libertador e moralmente correto.

Precisava de dinheiro para qualquer coisa.

E, durante todo aquele tempo, vivera à custa dela, repetindo que não tinha um tostão, quando afinal andava a juntar dinheiro. Alimentara-se, vestira-se e fizera planos com o dinheiro dela.

E quem era, afinal, a mulher mais importante da vida dele?

A revolta subiu-lhe à garganta e Ana começou a chorar, primeiro em silêncio, depois com soluços curtos, nervosos, que lhe sacudiam o corpo inteiro. Um tremor desagradável apoderou-se dela, como se tivesse frio por dentro. Passou a noite quase sem respirar direito, entre a raiva e a humilhação, acordada desde a meia-noite até perto das quatro da manhã. Quando por fim adormeceu, foi um sono pesado e sem descanso; só despertou já perto da hora de almoço.

— O divórcio é certo, isso nem se discute. Mas antes preciso de descobrir o que é que aquele idiota me anda a esconder. O João disse que amanhã fazia o pagamento. Então amanhã vou saber para onde vai esse dinheiro — pensou, levantando-se com esforço e seguindo para o duche.

Durante o resto do dia, Ana ocupou-se da casa, arrumou, limpou, dobrou roupa, fez tudo aquilo que fazia habitualmente para não dar nas vistas. À noite, quando o marido regressou da casa dos pais, ela decidiu comportar-se como se nada tivesse acontecido. Por dentro, já tinha tomado a decisão. Por fora, manteve o rosto calmo, a voz normal e os gestos de sempre.

Na segunda-feira, depois de cancelar todos os seus compromissos e de João sair para o trabalho, Ana pôs o plano em marcha. No dia anterior, comprara um pequeno localizador em forma de porta-chaves e, sem que ele percebesse, enfiara-o na mala do marido.

Chamou um táxi e seguiu-o à distância. Primeiro, João parou no banco. Depois, dirigiu-se para um edifício de escritórios. Ana pediu ao motorista que aguardasse ali perto e ficou dentro do carro, observando tudo com atenção. Mas a surpresa foi ainda maior quando, poucos minutos depois, viu a sogra, Maria, entrar no mesmo prédio.

— Então a mãe também está metida nisto… Cobre-lhe as mentiras, claro. Família de víboras… Pois esperem, que isto ainda vai dar espetáculo. Mas que raio vieram eles fazer aqui? — murmurou Ana, sem tirar os olhos da entrada.

Quando João e Maria saíram do edifício, Ana deixou passar alguns minutos. Só então saiu do táxi e caminhou até à receção.

No átrio, começou a ler as placas com os nomes das empresas.

— Gráfica… escola de dança… não.

Continuou a percorrer a lista com o olhar.

— Venda de janelas, não. Organização de casamentos, também não. Gabinete de traduções… improvável.

Passou para a placa seguinte.

— Agência de modelos, nada. Estúdio fotográfico, também não faz sentido…

— A senhora precisa de ajuda? — perguntou um segurança, aproximando-se dela.

Ana recompôs-se num segundo.

— O meu marido esteve aqui há pouco com a mãe. Esqueceram-se de um documento e pediram-me para vir buscá-lo — disse, deixando a mentira sair com uma naturalidade que até a surpreendeu.

— Estiveram na promotora imobiliária. É no departamento de vendas. Mostre-me só o cartão de cidadão e eu emito a autorização de entrada — respondeu o segurança, educado.

O apelido de Ana era o mesmo de João. O homem não desconfiou de nada. Entregou-lhe o passe de visitante e explicou-lhe o caminho.

Ao chegar ao gabinete indicado, Ana entrou com segurança.

— Boa tarde. O meu marido e a minha sogra estiveram aqui há pouco. Ele pediu-me para levar uma cópia dos documentos. Podiam imprimir-me, por favor?

— Sim, claro — respondeu uma funcionária simpática, sem fazer perguntas. Em poucos minutos, imprimiu os papéis e colocou-os numa pasta.

Ana só conseguiu abrir a pasta quando já estava novamente na rua, à espera de outro táxi. Folheou os documentos com as mãos tensas e sentiu o sangue gelar-lhe.

Um apartamento T3 num novo condomínio em Lisboa. Oitenta metros quadrados. Sinal já pago. O prédio ficaria pronto dentro de seis meses. O imóvel estava registado em nome de Maria.

— Então era aqui que eles estavam a enfiar o dinheiro, enquanto eu ajudava… Para o João nunca havia dinheiro, mas para a mãezinha havia de sobra! — sussurrou, apertando a pasta com tanta força que os cantos se dobraram.

Quando o carro chegou, Ana deu a morada da casa do irmão de João, fora da cidade.

— Aposto que lá não há obra nenhuma — pensou, sentada no banco de trás, enquanto olhava para as imagens bonitas do condomínio nos documentos. — Só queriam juntar uma boa entrada para esta casa nova.

Voltou a verificar os papéis.

Tinham dado quarenta mil euros de sinal.

Ana soltou uma risada seca, sem humor.

— Pobrezinhos… Eu a dar-lhes dinheiro para viverem melhor, para melhorarem as condições da família, e eles a comprar casa às minhas costas…

As palavras morreram-lhe na boca.

Quando chegou ao destino, pagou ao motorista e aproximou-se do portão. Pedro, o irmão de João, apareceu pouco depois. Ao vê-la, abriu um sorriso atrapalhado.

— Oh, Ana… Tu por aqui? Aconteceu alguma coisa?

— Olá. Nada de especial. Ia a passar aqui perto e o meu telemóvel ficou sem bateria. O motorista não tinha carregador, e lembrei-me de que a tua casa ficava no caminho — improvisou ela, sem pestanejar. — Posso carregá-lo aí dentro um bocadinho?

— Claro, entra — respondeu Pedro, abrindo o portão.

Assim que passou para o interior, Ana percebeu tudo. A casa estava arranjada, acolhedora, com cheiro a tinta seca e madeira nova. Nada de obras, nada de sacos de cimento, nada de pó.

— Está visto… — pensou, olhando em volta.

Depois virou-se para Pedro, com um ar aparentemente inocente.

— Pedro, a Maria falou-me das obras. Eu fiquei com a ideia de que ainda estavam por acabar. Afinal já está tudo pronto?

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