— Estás a fazer troça de mim?! Ando a matar-me em dois empregos e ainda sou eu que tenho de sustentar os teus parasitas! — gritei.
Ana deixou-se cair no sofá, exausta, apertando as têmporas com os dedos depois de mais um dia interminável. Primeiro tinham sido oito horas no escritório; depois, mais quatro, a fazer contabilidade por fora para um empresário conhecido. Já vivia assim havia três anos. No apartamento reinava um silêncio pesado, quebrado apenas pelo zumbido constante do frigorífico vindo da cozinha.
A porta de entrada bateu: João tinha chegado. Ana nem levantou a cabeça. Continuou a massajar as têmporas, como se esse gesto pudesse aliviar-lhe o cansaço acumulado. O marido seguiu para a cozinha e, pouco depois, ouviu-se o barulho de pratos e talheres.
— Ana, vais jantar? — perguntou João, da cozinha.
— Não me apetece comer — respondeu ela, sem sequer abrir os olhos.

Estavam casados havia sete anos. Sete anos que tinham começado cheios de promessas, planos e esperança, mas que aos poucos se tinham transformado numa sucessão de discussões, silêncios e ressentimentos engolidos. Ana lembrou-se do dia do casamento: como tinham sido felizes, como João lhe jurara que estaria sempre ao lado dela, que seria o seu apoio e a sua proteção. Onde tinham ido parar aquelas palavras?
O apartamento pertencia a Ana. Herdara-o da avó antes do casamento: duas divisões, numa zona agradável, com vista para um jardim. Para ela, aquela casa era quase sagrada. Era a única coisa verdadeiramente segura que possuía.
Na seguradora, o salário caía todos os meses, mas estava longe de ser generoso. Por isso aceitava trabalho extra à noite, mesmo quando o corpo já lhe pedia descanso.
João apareceu na sala com um prato de massa na mão.
— Outra vez a trabalhar até tarde? — perguntou, sentando-se no cadeirão em frente dela.
— E que alternativa tenho? Sabes perfeitamente que estamos a juntar dinheiro para as obras. E também não era mau, uma vez na vida, fazermos umas férias decentes, em vez de irmos sempre para casa da tua mãe.
Ao ouvir a referência à mãe, o rosto de João contraiu-se. Helena era um assunto à parte. A sogra aparecia com frequência, sempre a queixar-se da saúde, da falta de dinheiro e da vida difícil. E todas aquelas visitas acabavam exatamente da mesma maneira: João metia a mão ao bolso e dava-lhe dinheiro.
— Já agora, a minha mãe vem cá amanhã — disse ele, como se fosse um detalhe sem importância.
Ana abriu os olhos de repente.
— Outra vez? Ela esteve cá há duas semanas!
— Que queres que eu faça? Anda com a tensão descontrolada e quer ir ao médico.
— Também há médicos na cidade dela — murmurou Ana, sem esconder a irritação.
João pousou o prato com brusquidão.
— Ana, é a minha mãe! Custa assim tanto teres um pouco de compreensão?
Compreensão… Ana soltou um sorriso amargo. Em sete anos, João já tinha mudado de emprego cinco vezes. Ora o chefe era insuportável, ora os colegas não prestavam, ora o ordenado era demasiado baixo. Agora trabalhava como vendedor num stand de automóveis, mas até ali as queixas já tinham começado.
O telemóvel dele tocou. João olhou para o ecrã e saiu para o corredor. Ana ficou atenta. Era Maria, a irmã dele. Outra história sem fim. Trinta e dois anos, dois filhos de pais diferentes, dívidas atrás de dívidas, créditos por pagar. E a solução era sempre a mesma: ligar ao irmão.
Quando João voltou à sala, trazia no rosto aquela expressão culpada que Ana conhecia demasiado bem. Ela percebeu tudo antes mesmo de ele abrir a boca.
— Quanto é desta vez? — perguntou, sem emoção.
— Ana, não encares logo as coisas assim… A Maria está numa situação complicada. Os miúdos vão começar a escola e o ex dela ainda não pagou a pensão.
— Quanto, João?
— Duzentos euros. Mas ela prometeu que devolve dentro de um mês!
Ana levantou-se do sofá de um salto. As mãos tremiam-lhe de raiva.
— Dentro de um mês? Como da última vez? E da vez anterior?
