— João, até quando é que eu tenho de aguentar isto?
— Ana, acalma-te. Ela também é da família.
— Da família? — A voz de Ana falhou, presa na garganta. — E eu sou o quê? Trabalho em dois sítios, conto cada euro, ponho tudo o que posso de lado, e a tua irmã pode dar-se ao luxo de não trabalhar a sério e viver à nossa custa?
— A Maria trabalha! — tentou João defendê-la.
— Trabalha onde? A fazer o quê? Meio turno numa loja? João, a Maria tem saúde, tem braços e pernas. Que vá ganhar dinheiro como toda a gente.
O rosto dele fechou-se.
— Tu não percebes. A Maria tem filhos…
— Metade do país tem filhos! E é por isso que toda a gente deve passar a viver com o dinheiro dos outros?
Naquele instante, Ana lembrou-se do mês anterior. Também nessa altura João tinha “emprestado” cento e cinquenta euros à irmã. Antes disso, tinham sido cem euros para a mãe dele. Ana começou a fazer contas de cabeça e sentiu o estômago apertar: só no último ano, a família de João tinha levado mais de dois mil euros em “empréstimos”. Nem um cêntimo regressara.
No dia seguinte, tal como João anunciara, Helena apareceu lá em casa. Para alguém que andava, segundo ele, com “problemas de tensão”, a sogra vinha com um ar surpreendentemente viçoso: faces rosadas, vestido novo, cabelo arranjado por mãos profissionais.
— Aninha, estás tão magra! — foi a primeira coisa que disse. — Não te poupas nada, minha filha.
Ana não respondeu. Limitou-se a pôr a mesa, em silêncio. Helena instalou-se confortavelmente e, como de costume, começou o seu rosário de queixas.
— Ai, a vida está cada vez mais difícil. Tudo aumenta, a reforma não chega para nada. Às vezes penso que devia arranjar qualquer trabalhito…
João reagiu de imediato:
— Mãe, nem penses nisso. Trabalhar na tua idade? Nós ajudamos-te.
Ana pousou o bule na mesa com tanta força que os dois se viraram para ela, espantados.
— Ajudamos com quê, João? — perguntou, gelada. — Nós próprios mal chegamos ao fim do mês.
— Ana! — protestou ele.
— “Ana” o quê? Dona Helena, desculpe, mas a verdade é que também andamos a contar tostões. Eu tenho dois empregos para conseguirmos juntar alguma coisa.
A sogra apertou os lábios.
— No meu tempo, as mulheres respeitavam os maridos. A família vinha em primeiro lugar.
— No seu tempo, os homens sustentavam a casa — respondeu Ana, sem baixar os olhos. — Não ficavam encostados às costas da mulher.
João ficou vermelho.
— Mas quem é que tu pensas que és para falar assim?
— Alguém que está a dizer a verdade. No último ano, mudaste três vezes de emprego, João. E sempre porque quiseste.
— Isso não é verdade! — defendeu-se ele.
— Tens razão, peço desculpa. Da última vez foste despedido porque nem aparecias no trabalho.
Helena levou as mãos ao peito, escandalizada.
— Joãozinho, que histórias são estas que ela está a contar?
— Mãe, a Ana está a exagerar…
— Estou? — Ana foi ao armário e tirou uma pasta cheia de faturas e extratos. — Aqui estão os recibos dos últimos seis meses. Tudo pago com o meu cartão. E aqui está o extrato da nossa conta conjunta: num ano inteiro, o João pôs lá quatrocentos euros. Quatrocentos, num ano.
Helena ficou a olhar para os papéis, sem conseguir responder. Depois voltou-se para a nora.
— Mas o João ajuda em casa…
Ana soltou uma gargalhada curta, amarga.
— Ajuda? Dona Helena, diga-me: quando foi a última vez que o seu filho fez o jantar? Quando lavou roupa? Quando limpou a casa?
Ao fim da tarde, depois de Helena se ir embora, um silêncio pesado instalou-se no apartamento.
