— Não recues — acrescentou Beatriz, com firmeza. — É a tua casa. São os teus limites.
Aquelas palavras, simples e diretas, devolveram a Ana algum equilíbrio. Despediu-se da amiga, pousou o telemóvel e voltou às tarefas que tinha interrompido. Ao cair da noite, o apartamento estava impecável: o chão brilhava, a loiça estava arrumada, a roupa dobrada. Preparou o jantar, pôs a mesa com cuidado e ficou à espera de João.
Ele chegou tarde. Passou pela cozinha sem dizer uma palavra, nem sequer desviou os olhos para os pratos que ela tinha disposto sobre a mesa. Seguiu em frente e fechou-se no quarto. Ana permaneceu alguns instantes no corredor, imóvel, como se ainda esperasse que ele voltasse atrás. Depois regressou à cozinha, sentou-se sozinha e jantou em silêncio.
No dia seguinte, a cena repetiu-se quase ao pormenor. Silêncios pesados, portas fechadas, olhares desviados. João fazia questão de a ignorar, como se a ausência de palavras fosse uma forma de castigo. Ana, porém, não tomou a iniciativa de quebrar aquele gelo. Se ele queria usar o silêncio para a pressionar, que o fizesse. Ela não estava disposta a ceder.
Na terceira noite, o telemóvel voltou a tocar. Era Maria. Desta vez, a voz da sogra vinha mais baixa, mais macia, quase afetuosa.
— Ana, querida, vamos conversar com calma. Sem nervosismos.
— Eu estou calma — respondeu Ana, cautelosa.
— Tu sabes que nós, de facto, não temos para onde ir. A minha irmã está a vender o apartamento, já tiveram de sair. O meu sobrinho e a família arranjaram um quarto, mas os senhorios mandaram-nos embora. Nós só queríamos passar a passagem de ano todos juntos.
Ana fechou os olhos por um segundo.
— Compreendo que estejam numa situação difícil, Maria. Mas seis pessoas dentro de um T2 é gente a mais.
Do outro lado, houve uma pausa calculada.
— E se não fôssemos todos? Imagina que a minha irmã fica num hotel com as crianças e vou apenas eu. Assim já seria possível?
Ana ficou a pensar. Uma sogra em casa, durante poucos dias, talvez ainda fosse suportável. Pelo menos não seria uma invasão completa.
— Por quanto tempo?
— Três, quatro dias, no máximo. Do dia trinta e um até ao dia três.
Ana respirou fundo.
— Está bem. Mas só a senhora.
— Obrigada, minha querida! — exclamou Maria, agora com uma alegria que parecia florescer de repente. — Eu sabia que tinhas bom coração.
Quando desligou, Ana ficou encostada à parede, com o telemóvel ainda na mão. Alguma coisa dentro dela lhe dizia que acabara de cometer um erro. Ainda assim, a decisão já tinha sido tomada.
João regressou perto da meia-noite. Entrou na cozinha, abriu o frigorífico e tirou uma garrafa de água. Ana estava sentada à mesa, com um livro aberto diante de si.
— A tua mãe ligou — disse ela, sem levantar os olhos.
— Eu sei — resmungou ele. — Obrigado por aceitares.
— Aceitei receber a tua mãe. Só ela. Durante três dias.
— Pois — limitou-se João a dizer, antes de desaparecer novamente no quarto.
A conversa terminou ali. Mas, no dia seguinte, quando Ana voltou do trabalho, encontrou João à espera dela no corredor. Estava encostado à parede, de braços cruzados, com o rosto duro.
— A minha mãe disse-me que vêm todos — atirou ele, sem rodeios. — Não vem só ela.
Ana despiu o casaco devagar e pendurou-o no cabide.
— Eu dei autorização apenas para a tua mãe.
— E então? Vamos deixar a minha tia na rua? E as crianças também?
— A tua família pode ficar num hotel. Eu já sugeri essa solução.
João avançou um passo e colocou-se à frente dela, bloqueando-lhe a passagem.
— Basta, Ana. Faz as malas. A minha mãe vem para cá com os parentes até ao Ano Novo, e tu aqui não fazes falta a ninguém.
Ana não gritou. Não entrou em disputa. Limitou-se a fitá-lo com uma serenidade fria, quase estranha.
— Se querem tanto ficar nesta casa, muito bem — respondeu, num tom uniforme. — Mas tu vais com eles.
João piscou os olhos, sem perceber de imediato.
— Como?
Ana passou por ele e dirigiu-se ao quarto. Abriu o roupeiro, puxou a mala de viagem para fora e colocou-a sobre a cama. Depois começou a dobrar a roupa dele com precisão: camisas, calças, meias, camisolas. Cada peça era colocada com um cuidado metódico, sem pressa.
— Que estás tu a fazer? — perguntou João, parado à entrada do quarto.
— A arrumar as tuas coisas.
— Isto é alguma piada?
— Não.
Ana fechou o fecho da mala, levou-a até ao corredor e deixou-a junto à porta de entrada. João olhou para a bagagem e soltou uma gargalhada nervosa.
— Estás a falar a sério? Por causa de dois ou três dias?
— Por decidires por mim. Na minha casa.
— Na minha casa! — explodiu ele. — Eu vivo aqui!
Ana retirou o casaco dele do cabide e estendeu-lho.
— Podem passar as festas todos juntos. Afinal, agora são uma equipa.
João não pegou no casaco. Recuou ligeiramente, endireitando os ombros.
— Tu não tens o direito de me pôr fora.
— Tenho. O apartamento é meu. Está em meu nome.
— Somos marido e mulher!
— Éramos — corrigiu Ana, sem alterar a voz.
Ele ficou imóvel por um instante. Depois começou a falar cada vez mais alto e mais depressa. Falou das tradições da família, do respeito pelos mais velhos, da mãe que trabalhara a vida inteira e merecia descanso, dos sacrifícios que todos faziam uns pelos outros. As palavras caíam em torrente, mas Ana escutava-o sem interromper. No olhar dela não havia raiva, nem medo, nem hesitação. Havia apenas uma decisão silenciosa.
— Podes ir ter com eles agora mesmo — disse ela, quando João parou para respirar. — Só preciso que deixes a chave.
Estendeu a mão, com a palma aberta. João olhou para aquela mão e depois para o rosto da mulher, como se procurasse um sinal de que aquilo era uma ameaça vazia, um teatro, uma provocação passageira. Não encontrou nada.
— Vais arrepender-te — rosnou ele.
— Talvez. A chave, João.
Ele arrancou o molho de chaves do gancho e atirou-o ao chão com força. O metal bateu no mosaico e espalhou-se com um tilintar agudo. Em seguida, agarrou na mala, abriu a porta de rompante e saiu furioso. O estrondo da porta a fechar ecoou pela escada.
Ana apanhou as chaves do chão, colocou-as sobre a cómoda da entrada e ficou um momento parada, a escutar o silêncio que se instalara. Depois seguiu para a cozinha.
