Preparou um chá, sentou-se junto à janela e ficou a olhar para o pátio. A luz dos candeeiros espalhava manchas pálidas sobre os passeios desertos, enquanto o vento sacudia os ramos nus das árvores.
Cerca de uma hora depois, o telemóvel começou a tocar. Era Maria. Ana deixou-o vibrar até a chamada cair. Pouco depois, apareceu o nome de João no ecrã. Também recusou. As mensagens começaram então a chegar, uma atrás da outra:
“Perdeste o juízo?”
“A minha mãe está em choque!”
“Abre a porta imediatamente!”
“Amanhã vou aí e falamos como deve ser!”
Ana pôs o telemóvel em silêncio, abriu a gaveta da secretária e guardou-o lá dentro.
Na manhã seguinte, ligou para uma empresa de fechaduras. O técnico apareceu menos de duas horas depois: um rapaz novo, de caixa de ferramentas na mão e ar despachado. Não fez perguntas, não tentou meter conversa, limitou-se a trabalhar. Em quarenta minutos, a porta tinha uma fechadura nova. Brilhante, sólida, segura. O rapaz entregou-lhe duas chaves, recebeu o pagamento e foi-se embora.
Ana fechou a porta com a nova chave e regressou à sala. Depois abriu o armário e retirou de lá uma caixa cheia de enfeites de Natal. Os pais costumavam montar a árvore todos os anos, sempre juntos, e ela nunca tivera coragem de se desfazer de nada. Havia bolas de vidro, grinaldas antigas, pequenas figuras de renas e estrelas já um pouco gastas pelo tempo.
Ao cair da noite, uma árvore pequena erguia-se no canto da sala. Era natural, e o perfume fresco do pinheiro espalhava-se pela casa. Ana pendurou os enfeites com calma, um por um, e por fim ligou as luzes. No meio da penumbra, os pontos coloridos começaram a cintilar, devolvendo à divisão uma ternura que há muito parecia adormecida.
No dia seguinte, foi a vizinha quem telefonou. Teresa, uma senhora de cerca de sessenta anos que vivia no andar de baixo.
— Ana, está tudo bem consigo?
— Está, sim. Obrigada. Porquê?
— Ontem à noite vi o seu marido cá em frente, acompanhado por uma mulher. Ficaram ali a falar durante algum tempo. Depois tentaram entrar, mas o intercomunicador não abriu.
— Era a minha sogra — respondeu Ana, sem se alterar. — Não se preocupe. Está tudo perfeitamente bem.
Do outro lado fez-se uma pequena pausa.
— Se precisar de alguma coisa… — acrescentou Teresa, com delicadeza. — Estou mesmo aqui por perto.
— Obrigada, Teresa.
Ana desligou e retomou a limpeza da casa. Aos poucos, o apartamento começava a recuperar a forma antiga, aquela atmosfera íntima que os pais lhe tinham deixado. Sem objetos estranhos, sem regras impostas, sem a presença pesada de vontades alheias. Apenas as suas coisas de sempre, o silêncio e uma paz discreta.
No dia trinta e um de dezembro, Ana acordou tarde. Lá fora, a neve caía em flocos largos, pousando devagar no chão. A cidade parecia suspensa na agitação das festas: luzes nas fachadas, árvores enfeitadas por trás das janelas, lojas cheias de gente a fazer as últimas compras.
Preparou o pequeno-almoço e sentou-se à mesa com uma chávena de café. O telemóvel permanecia mudo havia dois dias. Nenhuma chamada, nenhuma mensagem. Talvez João tivesse finalmente compreendido que não havia regresso possível.
À noite, pôs a mesa para si. Nada de extraordinário: uma salada, frango assado, alguma fruta. Ligou a televisão e deixou passar os programas festivos, mais como companhia do que por interesse. Quando o relógio marcou meia-noite, levantou-se e foi até à janela com um copo de vinho na mão.
Do lado de fora, as luzes brilhavam. Ao longe ouviam-se foguetes, gargalhadas, música. Ana ergueu o copo e brindou com a própria imagem refletida no vidro.
— Feliz Ano Novo — murmurou.
A casa permanecia silenciosa. Não havia vozes exaltadas, ruído de gente estranha, exigências nem ultimatos. Só sossego. Um sossego verdadeiro, esquecido há demasiado tempo. Ana sentou-se no cadeirão, puxou uma manta sobre as pernas e fechou os olhos.
Pela primeira vez em muito tempo, tudo estava exatamente como precisava de estar.
Janeiro chegou com frio e rajadas de neve. Ana voltou ao trabalho e, em poucos dias, reencontrou o ritmo habitual. Os colegas perguntaram-lhe como tinham corrido as festas, e ela respondeu apenas que tinham sido boas. Tranquilas.
João só voltou a ligar a meio do mês. A voz dele soava cansada.
— Ana… precisamos de conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre nós. Podíamos encontrar-nos?
— Para quê?
Seguiu-se um silêncio breve.
— Percebi que errei. A minha mãe… exagerou. Podemos tentar outra vez?
Ana olhou pela janela. A neve cobria o chão numa camada espessa, e os ramos das árvores dobravam-se sob o peso branco.
— João, nós não vamos tentar coisa nenhuma. Fizeste a tua escolha. Agora vive com ela.
— Ana…
— Na próxima semana vou dar entrada no pedido de divórcio. Não temos bens em comum, não há nada para dividir. Na conservatória resolvem isso depressa.
— Estás a falar a sério?
— Completamente.
Ele ainda pareceu querer dizer mais alguma coisa, mas Ana terminou a chamada. A conversa estava encerrada.
Um mês depois, o divórcio ficou oficialmente concluído. João apareceu na conservatória de rosto fechado, assinou os documentos sem uma palavra e saiu sem se despedir. Ana recebeu a certidão, guardou-a numa pasta e voltou para casa.
O apartamento acolheu-a com o seu silêncio sereno, familiar, quase afetuoso. Ana tirou o casaco, foi até à cozinha e pôs água ao lume. Fez chá, tirou um pequeno bolo do armário e sentou-se junto à janela. No pátio onde, no outono, se tinham acumulado folhas amarelas, estendia-se agora uma brancura limpa. Algumas crianças escorregavam por uma pequena inclinação, caindo na neve entre risos.
A vida continuava. Calma, firme, sem expectativas impostas, sem pressões vindas de fora. Ana bebeu um gole de chá e sorriu.
Pela primeira vez, em muito tempo.
