— Carlos — chamei, sem levantar a voz, mas os quatro ficaram imediatamente quietos. — Já que gostas tanto de fazer contas à frente de toda a gente, então façamos as contas completas. Quanto gastaste em material de pesca só no último ano?
Ele deixou de mastigar. O pedaço de carne ficou suspenso no garfo, parado a meio caminho da boca.
— Mas isso agora vem a propósito de quê?…
— Mil quatrocentos e vinte euros. A cana: trezentos e oitenta. O carreto: duzentos e setenta. Linhas, amostras, colheres, iscos e essas miudezas todas: mais duzentos e trinta ao longo do ano. Sem contar com a gasolina. Nove saídas numa época. Só em combustível e deslocações foram mais seiscentos e quarenta euros.
A minha voz não tremia. Saía-me lisa, seca, quase profissional. Como quando, numa reunião de manhã, leio as despesas separadas por rubricas.
— No total, dois mil e sessenta euros num passatempo. Num ano. A mim, nesse mesmo período, deste mil e duzentos. Para comida, remédios, produtos de limpeza, tudo o que é preciso em casa. Tudo. Nas tuas canas e nas tuas pescarias gastaste quase o dobro do que deste à tua mulher. E ainda sou eu a gastadora?
O silêncio caiu sobre a mesa como uma tampa.
Manuel pousou o copo com lentidão. Rui pigarreou e passou a mão pela nuca. Pedro pôs-se a estudar a vedação com uma atenção absurda, como se aquela fosse a primeira vez que a via.
— Tinhas mesmo de fazer isto à frente dos outros? — perguntou Carlos, com as palavras espremidas entre os dentes. Os maxilares mexiam-se-lhe debaixo da pele, duros como pedras. — Perdeste o juízo?
— Tu também falaste à frente dos outros. Chamaste-me gastadora. Isso já te pareceu normal?
Ele levantou-se. Sem pressa. A cadeira raspou no chão de mosaico quando a afastou. Depois entrou em casa. Fechou a porta devagar, com firmeza, sem bater. E, justamente por isso, foi pior. Quando Carlos fechava uma porta em silêncio, vinha aí o castigo: dias sem falar. Três, sete, quantos lhe apetecesse. A punição pela ausência de palavras.
Os homens começaram a despedir-se uns quinze minutos depois. Rui resmungou um “até à próxima” e foi o primeiro a sair. Pedro fez-me um aceno curto e seguiu-o. Manuel, porém, ficou mais um pouco junto ao portão. Parou ali, mudou o peso de um pé para o outro, sem saber bem o que fazer. Por fim, estendeu-me a mão, calado.
Apertei-lha. Tinha a palma quente, áspera, forte.
Não disse nada. E não era preciso.
Voltei para o alpendre. Recolhi os pratos, empilhei-os numa bacia, apanhei o lixo. A noite estava morna, com cheiro a carvão apagado e a aneto vindo da horta. Na casa dos vizinhos tocava um rádio baixinho, uma música sem palavras. Um serão de verão igual a tantos outros.
Mas dentro de mim instalara-se uma quietude estranha, como se alguém tivesse desligado um zumbido que, durante oito anos, nunca se calara.
Sentei-me no banco do alpendre. Sozinha. Pousei as mãos sobre os joelhos e esperei que começassem a tremer. Não tremeram. Ficaram ali, imóveis, tranquilas. Mãos cansadas, secas, mãos de contabilista. Habituadas a segurar uma caneta e a somar. Pois tinham somado, finalmente.
O silêncio prolongou-se por duas semanas.
Carlos passou a circular pela casa como um inquilino num apartamento partilhado. Tomava o pequeno-almoço quando eu já estava quase a sair para o trabalho. Jantava na garagem; levou para lá a chaleira elétrica e o micro-ondas. A nossa comunicação ficou reduzida a bilhetes presos no frigorífico por um íman onde se lia “Ao melhor pescador”: “Liga para a administração por causa do contador.” “O detergente está a acabar.”
Eu respondia no mesmo papel.
“Liguei. Vêm na quarta-feira.”
“O detergente custa 3,40 €. Tiro de que parte dos cem euros?”
Esse último bilhete ele amarrotou e atirou para o caixote. O detergente, porém, comprou-o ele. Pela primeira vez em oito anos.
E eu, todas as noites, abria o meu caderno. As colunas iam crescendo. À esquerda, as despesas dele: números grandes, uma coluna larga, pesada. À direita, as minhas: quantias pequenas, uma linha estreita, quase um fio de água. Dois mundos no mesmo papel. Próximos, mas sem se tocarem.
Na última página, escrevi o resultado final. Depois contornei-o duas vezes com caneta vermelha.
Ao longo de oito anos, eu tinha transferido para pagar os créditos dele dezassete mil e seiscentos euros. O equivalente a quatro anos do meu salário. Dinheiro entregue pela lancha, pelo motor e por aquela banheira de exterior onde ele se enfiava com os amigos como se fosse um rei.
No mesmo espaço de tempo, ele tinha-me dado nove mil e seiscentos euros. Cem euros multiplicados por noventa e seis meses. Para viver, para comer, para comprar tudo o que a casa exigia.
Eu pagara por ele quase o dobro do que ele me dera para eu existir.
Foi então que fiz aquilo para que, sem o admitir, vinha caminhando há três meses. Ou talvez há oito anos inteiros.
Deixei de pagar os créditos dele. Os dois. Por completo.
Abri a aplicação do banco. O valor habitual apareceu no ecrã: duzentos e trinta euros. O meu dedo ficou suspenso por cima da opção, como se ainda esperasse alguma ordem antiga. Depois carreguei em “Cancelar”. Apaguei o pagamento automático. Fechei a aplicação.
Na primeira semana, nada aconteceu. Na segunda, ele recebeu uma mensagem; apagou-a sem sequer abrir. Na terceira, ligaram-lhe. Rejeitou a chamada, convencido de que era publicidade. Na quarta, voltaram a telefonar. E depois outra vez. E mais outra.
A chamada que mudou tudo apanhou-o no corredor.
Eu estava na cozinha, a descascar batatas. A lâmina deslizava pela casca em tiras finas, regulares. Havia uma parede entre nós, mas cada palavra chegou-me com nitidez.
— Sim, estou? Que dívida? Quinhentos e quarenta euros? Isso deve ser engano. A minha mulher paga… Quer dizer… Não, espere lá…
Seguiu-se uma pausa comprida.
Ouvi-o baixar lentamente a mão que segurava o telemóvel.
Depois entrou na cozinha, com o rosto completamente branco.
