“Então, João, afinal gostas de mulheres com fartura.” disse Bruno, rindo-se e humilhando Ana à frente do marido

Histórias
A humilhação constante era intolerável e revoltante.

— Vá lá, não sejas assim. Está toda a gente dentro de água. Ou tens medo de entrares e a piscina deixar de ter espaço?

Alguém soltou uma risadinha. Duas ou três pessoas acompanharam. Os restantes fizeram aquele teatro cobarde de quem, de repente, não ouviu nada.

Não lhe dei resposta. Virei-me de novo para Inês e tentei retomar a conversa. Pensei que passasse. Era sempre assim: Bruno dizia uma porcaria, eu engolia em seco, a noite acabava e íamos embora.

Só que, desta vez, ele não se afastou. Ficou atrás da minha espreguiçadeira. Eu sentia-lhe a presença, a sombra, a espera.

Então, levantou a voz. O suficiente para ninguém fingir que não tinha escutado:

— Sua gorda estúpida! Vai mas é para a água!

E empurrou-me.

Com as duas mãos, nas costas. Com força.

Eu estava junto à borda, porque tinha acabado de me levantar para me afastar dele.

Depois foi só água. O impacto atravessou-me o corpo inteiro. O cloro entrou-me pelo nariz. A túnica ensopou-se num segundo e começou a pesar, a puxar-me para baixo. Vim à superfície, agarrei-me à beira da piscina. Tinha um zumbido nos ouvidos. Lá em cima, vi Bruno de pé, a rir-se, de braços abertos, como se aquilo fosse a coisa mais inocente do mundo.

— Eu estava só a brincar!

Dezoito pessoas olharam para mim. Algumas riam. Outras ficaram caladas. João vinha a correr desde a zona do grelhador. Sofia estava imóvel, branca como cal.

Saí da piscina sozinha. Sem aceitar mão nenhuma. A túnica molhada colava-se-me ao corpo. O cabelo escorria-me pela cara. No bolso, o telemóvel tinha morrido. Oitocentos euros reduzidos a um trapo encharcado.

Peguei numa toalha que estava na espreguiçadeira mais próxima. Enrolei-a à volta dos ombros e limpei o rosto. As minhas mãos não tremiam. Isso, confesso, surpreendeu-me.

— Bruno — disse eu, com uma calma que nem parecia minha. — Acabaste de me empurrar para dentro da piscina sem o meu consentimento. Estragaste-me o telemóvel. Custou oitocentos euros. Espero a transferência até amanhã.

Ele deixou de rir durante meio segundo. Depois, recompôs a máscara e abriu novamente aquele sorriso.

— Ana, por amor de Deus. Foi uma brincadeira. Compra outro.

— A transferência até amanhã — repeti. — Caso contrário, apresento queixa na polícia. Isto não foi uma piada, Bruno. Foi agressão física.

Fez-se silêncio. Até a música, ao fundo, pareceu baixar de volume.

João estava ao meu lado. Também molhado, porque tinha saltado para me ajudar, embora eu já tivesse conseguido sair.

— Vamos embora — disse ele.

E, pela primeira vez em sete anos, não acrescentou que Bruno não tinha feito por mal.

No carro, sentei-me sobre uma toalha. A água pingava para o banco. Eu estava encharcada, furiosa e, ao mesmo tempo, estranhamente serena. Uma combinação absurda. A raiva existia, sim, mas não era quente. Era fria, limpa, nítida, como o ar de uma manhã de inverno.

Bruno não transferiu dinheiro nenhum. Nem no dia seguinte, nem três dias depois, nem uma semana mais tarde. Em compensação, escreveu a João: “Diz à tua mulher para não fazer fita. Uma brincadeira é uma brincadeira. E ela ainda devia agradecer por eu a aturar nos nossos encontros.”

João mostrou-me a mensagem sem dizer palavra. Li-a uma vez. Depois outra. E senti qualquer coisa dentro de mim deslocar-se de vez. Não se partiu. Foi antes como uma alavanca que, finalmente, encaixava na posição certa.

Uma semana depois, organizámos um jantar em casa. Meio social, meio profissional. Eu convidei dois possíveis parceiros para a expansão da minha franquia. João chamou alguns colegas. Bruno meteu-se ao barulho por iniciativa própria. Telefonou a João e disse:

— Ouvi dizer que vão ter aí uma reunião. Apareço com a Sofia.

João perguntou-me se eu me importava.

Eu respondi que não. Que viesse.

Éramos doze à volta da mesa comprida. Na nossa sala, aquela mesma sala. Passei dois dias a cozinhar. Não para impressionar Bruno, claro. Entre os convidados estavam Silva e Pereira, donos de uma cadeia de cafés em Évora, interessados no meu modelo de franquia. Aquele jantar importava. Importava mesmo.

Bruno chegou com uma das suas camisas de marca, uma garrafa de vinho de vinte euros e Sofia pela mão. Abraçou João, fez-me um aceno com a cabeça e sentou-se. Durante a primeira hora, comportou-se como uma pessoa normal. Contou histórias das férias na Turquia, fez piadas inofensivas, elogiou a comida. Por momentos, cheguei a pensar que o episódio da piscina lhe tivesse ensinado alguma coisa.

Não tinha.

À sobremesa, quando servi as tarteletes com creme de frutos vermelhos — também feitas por mim, desde a massa ao recheio — Bruno recostou-se na cadeira. Segurava o copo de tinto. Os olhos brilhavam-lhe daquela maneira oleosa que eu já conhecia.

— A Ana, por acaso, não cozinha só bem. Também come lindamente — disse ele, virando-se para Silva. — João, diz lá, quanto é que ela consegue enfardar de uma vez?

Silva ergueu uma sobrancelha. Pereira pousou o garfo no prato.

Eu estava na outra ponta da mesa. À minha frente, uma tartelete perfeita, com o creme de frutos vermelhos que eu própria tinha preparado nessa manhã. Quatro horas na cozinha. Dois dias de trabalho. Potenciais parceiros de negócio. A minha casa. A minha mesa. A minha comida.

E aquele homem. Outra vez.

Dentro de mim, tudo ficou muito quieto. Não era raiva. Era silêncio. Aquele silêncio exato que antecede uma decisão.

Levantei-me devagar. Peguei no telemóvel novo, comprado para substituir o que ele tinha afogado. Oitocentos euros pagos do meu bolso, porque Bruno nunca transferiu nada.

Desbloqueei o ecrã, procurei o contacto de Catarina e carreguei em chamar.

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