— Catarina — disse, assim que ela atendeu. À volta da mesa, as conversas morreram de imediato. — É a Ana. Sim, eu sei que já é tarde. Ouve: prepara amanhã de manhã a notificação para rescindir todos os contratos em vigor com a Brisa Media. Todos. Design, gestão das redes sociais, campanhas sazonais. Tudo. Motivo: qualidade de comunicação insatisfatória. Sim, nas cinco lojas. Sim, tenho a certeza. Encontramos outra agência ainda esta semana. Obrigada.
Pousei o telemóvel ao lado do prato e olhei para Bruno.
Ele ainda não tinha percebido. Via-se-lhe na cara. Fitava-me como se, de repente, eu tivesse começado a falar numa língua que ele não dominava.
— Ana… — murmurou. — O que é que estás a fazer?
— Bruno — respondi, com calma. — A Confeitaria Plus é minha. A rede Doce Negócio também. Cinco confeitarias. Trinta e dois funcionários. Há seis anos que a tua agência vive, em grande parte, dos meus pedidos. Quarenta e oito mil euros por ano. Quase metade da tua faturação. Eu confirmei.
O rosto dele foi-se desmontando diante de mim, camada por camada. Primeiro veio a confusão. Depois, o cálculo. A seguir, a compreensão. E, por fim, o medo.
— Espera lá — disse ele, pousando o copo com demasiada força. O vinho saltou e manchou a toalha. — A Confeitaria Plus és tu? A Catarina é a tua gestora?
— Há seis anos — continuei. — Durante seis anos fizeste publicidade para a minha rede. E durante sete insultaste-me sempre que tiveste oportunidade. Empurraste-me para uma piscina. Humilhaste-me diante dos meus parceiros de negócio. Dentro da minha própria casa.
Silva permanecia imóvel, como se qualquer gesto pudesse ser inoportuno. Pereira olhava para Bruno com uma expressão que reconheci de imediato: a mesma que se faz quando se encontra um inseto dentro do prato.
— Ana, espera, vá lá — Bruno levantou-se. As mãos tremiam-lhe. Pela primeira vez em todos aqueles anos, vi-lhe as mãos a tremer. — Isto é trabalho. Não vamos misturar as coisas. Eu e o João somos amigos. Eu não sabia. Eu não fazia ideia!
— Não sabias que a Confeitaria Plus era minha — admiti, inclinando ligeiramente a cabeça. — Mas sabias perfeitamente que eu era uma pessoa. E isso nunca te importou.
Sofia estava sentada sem se mexer. Tinha os olhos baixos, como de costume.
João olhava para mim. Não me interrompeu. Pela primeira vez em oito anos, não tentou travar-me.
— Ana — Bruno deu um passo na minha direção —, vamos conversar. Não aqui. Só nós os dois. Eu…
— Não — cortei. — Durante sete anos humilhaste-me em público. Agora, a minha resposta também é pública. Os contratos estão cancelados. A decisão está tomada.
Voltei a sentar-me. Peguei numa tartelete e dei uma dentada. O creme de frutos vermelhos estava perfeito: um toque de baunilha, a acidez certa da framboesa. E, pela primeira vez naquela noite, senti-me satisfeita comigo mesma.
Bruno ficou parado no meio da minha sala, com uma mancha de vinho na toalha e uma expressão que eu nunca lhe tinha visto. Depois virou-se e saiu. Sofia levantou-se logo a seguir e foi atrás dele. A porta de entrada bateu com força.
À mesa, ninguém disse nada durante alguns segundos. Eu acabei de beber a água.
Silva pigarreou.
— Dona Ana — disse, com cuidado —, a sua proposta de franchising é, de facto, muito interessante.
Sorri. Foi o primeiro sorriso verdadeiro da noite.
Mais tarde, quando os convidados se foram embora, João e eu ficámos a levantar a mesa. Ele esteve calado durante algum tempo. Depois, sem olhar para mim, perguntou:
— Tens noção de que ele agora me vai telefonar todos os dias?
— Tenho.
— E o que é que eu lhe digo?
— A verdade. Que ele entrou na minha casa e foi mal-educado com a dona da casa.
João colocou um prato no lava-loiça. Só então se virou para mim.
— Eu devia tê-lo parado há muito tempo.
Não respondi. Porque sim, devia. E não o fez. Isso também fazia parte da história.
Passaram-se dois meses. Bruno perdeu os meus contratos. Quarenta e oito mil euros por ano não são uma falha pequena nas contas de uma agência. Teve de despedir três pessoas. Mudou-se para um escritório menor. Soube de tudo pelo João, que continuava a ir ter com ele de quinze em quinze dias.
Pelo que dizem, Bruno conta a toda a gente que eu sou “vingativa” e que “aproveitei a situação”. Diz que “misturei o pessoal com o profissional” e que “um verdadeiro empresário não age assim”.
Talvez tenha razão. Ou talvez um verdadeiro empresário não empurre uma cliente para dentro de uma piscina.
Encontrei outra agência. Trabalham tão bem como a anterior. E são educados. Curioso, não é? Afinal, é possível fazer campanhas publicitárias sem insultar quem paga por elas.
João continua a encontrar-se com Bruno sozinho. Não o proíbo. É amigo dele. Mas Bruno nunca mais se sentou à minha mesa. E eu estou tranquila. Pela primeira vez em sete anos, verdadeiramente tranquila.
Só há uma pergunta que ainda me persegue.
Terei ido longe demais ao cancelar os contratos diante dos parceiros dele? Ou foi ele que procurou isto, durante todos aqueles anos, em sessenta encontros, com cada humilhação, com aquele “gorda estúpida” e com a piscina? E vocês, no meu lugar, o que teriam feito?
