Foi para casa a imaginar o futuro, já com planos a nascerem-lhe uns atrás dos outros na cabeça.
João, por sua vez, sentia-se quase um salvador. Tinha ajudado a mãe, tinha dado uma mão à irmã e, acima de tudo, convencera-se de que protegera o património de qualquer pretensão futura da mulher. Maria não se cansava de o elogiar. Dizia-lhe que, finalmente, ele agira como um homem prudente, com cabeça e visão.
— Agora está tudo seguro — afirmou a sogra, cheia de satisfação. — Fizeste muito bem, meu filho. Assim é que se procede. És um homem a sério.
Faltava apenas afastar Ana de vez. João sabia que não podia continuar a adiar o inevitável. Mais tarde ou mais cedo, a mulher acabaria por reparar que o dinheiro tinha desaparecido da conta. Era melhor avançar antes que ela tivesse tempo de reagir.
Em meados de outubro, João deu entrada no pedido de divórcio no tribunal. Fez tudo às escondidas de Ana. Reuniu os documentos necessários, preencheu o requerimento, assinou o que havia a assinar e entregou o processo sem lhe dizer uma única palavra.
Como fundamento, escreveu de forma fria e burocrática que havia incompatibilidade de feitios e impossibilidade de manter a vida em comum. O juiz marcou uma primeira diligência para dali a cerca de um mês.
João achou que esse prazo lhe dava tempo suficiente para preparar Ana para aquilo que, na sua cabeça, já estava decidido.
Na noite de 20 de outubro, entrou em casa bem-disposto. Enquanto tirava o casaco no corredor, chegou até a trautear uma melodia qualquer, como se viesse de uma celebração.
Ana estava na cozinha, a acabar de preparar o jantar. Pedro encontrava-se sentado à mesa, concentrado numa folha de papel e numa caixa de lápis de cor.
— Mãe, olha! Desenhei um dragão! — anunciou o menino, orgulhoso.
— Está muito bonito — respondeu Ana, sorrindo enquanto punha os pratos na mesa. — João, vais jantar?
— Já vou — disse ele, entrando primeiro no quarto.
Ana supôs que o marido tinha ido mudar de roupa. Contudo, menos de um minuto depois, João reapareceu. Ficou parado à entrada da cozinha, encostando o ombro à parede.
Trazia no rosto um sorriso estranho, desses que as pessoas usam quando querem provocar efeito, como se estivessem prestes a revelar uma grande surpresa.
— Pedro, vai brincar para o teu quarto — ordenou João ao filho.
— Mas eu ainda nem jantei! — protestou o rapaz.
— Eu disse para ires.
A voz do pai saiu seca, sem espaço para discussão. Pedro fez uma careta, bufou contrariado, mas obedeceu. Pegou no desenho do dragão e saiu da cozinha arrastando os pés.
Ana ficou alerta. João só assumia aquele tom quando queria dizer alguma coisa importante. E, quase sempre, desagradável.
— O que se passa? — perguntou ela, limpando as mãos a um pano de cozinha.
João demorou-se numa pausa quase teatral. Depois, falou devagar, como se saboreasse cada palavra:
— Meti os papéis para o divórcio. E há mais uma coisa.
Ana ficou imóvel. As palavras chegaram-lhe aos ouvidos, mas demoraram a fazer sentido. Divórcio? Como assim? Porquê?
— Não estou a perceber — disse ela, muito devagar. — De que estás a falar?
— Estou a dizer-te que o nosso casamento acabou — respondeu João, ainda com aquele sorriso. — E sabes qual é a melhor parte? Já não tens nada.
Ele riu-se alto. Riu-se com gosto, como se tivesse acabado de contar uma piada brilhante.
— Passei o apartamento para o nome da minha mãe. Levantei todo o dinheiro da conta conjunta e entreguei-o à minha irmã para ela abrir o negócio. Portanto, não alimentes esperanças. Ficaste sem nada.
Ana permaneceu de pé, olhando para aquele homem que um dia fora o seu marido. Observou-o com atenção, quase como se estivesse a estudá-lo. Tentava perceber se ele falava a sério ou se aquilo era uma crueldade ensaiada sem consequências reais.
Mas bastou-lhe olhar para os olhos dele para perceber: não era brincadeira.
— Repete — pediu ela em voz baixa. — Quero ter a certeza de que ouvi bem.
— Com todo o gosto! — exclamou João, animado. — O apartamento já não é teu. O dinheiro também não. Tratei de tudo. Agora podes começar a arrumar as tuas coisas e procurar um sítio para morar. E, como já pedi o divórcio, em breve nem sequer serás problema meu.
— Há quanto tempo andavas a planear isto?
— Há bastante — respondeu ele, fazendo um gesto vago com a mão. — A minha mãe é que me abriu os olhos. Sempre disse que os bens têm de ficar em mãos seguras. Mulher é uma coisa passageira. Hoje está, amanhã desaparece.
— Compreendo — murmurou Ana, assentindo lentamente.
Virou-se sem dizer mais nada e saiu da cozinha em direção ao quarto. João ficou ali, satisfeito consigo próprio. Esperava lágrimas, gritos, histeria, acusações. Mas a calma da mulher apanhou-o desprevenido.
No quarto, Ana abriu o armário. Tirou de uma prateleira uma pasta onde guardava documentos importantes. Folheou os papéis com cuidado. Encontrou a certidão do registo do apartamento, o contrato de compra e venda, os extratos bancários.
Estava tudo no sítio.
Com a pasta nas mãos, voltou à cozinha. João já se sentara à mesa e comia a sopa, como se a conversa lhe tivesse aberto o apetite.
— João — disse Ana, pousando os documentos diante dele. — Tu acreditas mesmo que isto é assim tão simples?
— Porquê? Tens dúvidas? — perguntou ele, soltando uma risadinha.
— Tenho. O apartamento está em nome dos dois. Para o transferires para a tua mãe, precisavas do meu consentimento. E eu nunca dei consentimento nenhum.
— Deste, sim. Só não te lembras — respondeu João, encolhendo os ombros.
— Então falsificaste a minha assinatura?
— E depois? Já está tudo registado. Agora é tarde para mudares alguma coisa.
Ana mordeu o lábio. Inspirou devagar, tentando manter a respiração firme. Tinha de conservar a cabeça fria. Não podia permitir que a raiva tomasse conta dela.
— Muito bem. E o dinheiro? Levantaste-o da conta sem me avisar?
— Era uma conta conjunta. Eu tinha direito.
— Tinhas direito a movimentá-la — corrigiu Ana. — Mas usaste esse dinheiro sem o meu conhecimento, não para despesas da família, e sim para financiar a tua irmã. Isso já não é uma decisão normal de gestão familiar. É apropriação do património comum.
— Prova isso! — atirou João, irritado.
— Vou provar — respondeu ela.
Ana juntou os papéis e pegou no telemóvel.
— João, sabes que falsificação de assinatura é crime, não sabes? Uma perícia grafotécnica consegue confirmar isso com facilidade.
— Quem é que vai querer saber? — desdenhou ele, abanando a mão. — Ninguém se vai dar ao trabalho.
— Eu vou — disse Ana, sem elevar a voz. — Encontramo-nos em tribunal. Lá se verá quem fica sem nada.
João deixou a colher pousada no prato. Pela primeira vez naquela noite, uma sombra de incerteza atravessou-lhe o rosto.
— Estás a ameaçar-me?
— Não. Estou apenas a explicar-te o que vai acontecer. Tu pediste o divórcio, muito bem. Eu vou participar no processo. E, ao mesmo tempo, vou apresentar as ações necessárias: impugnação da transferência do apartamento, partilha dos bens e pedido de compensação pelo dinheiro retirado da conta sem o meu acordo.
— Vai-te lixar! — rosnou João. — Já está feito. Não vais conseguir provar nada.
— Veremos — respondeu Ana, com um leve encolher de ombros.
Virou-lhe as costas e saiu da cozinha. João ficou sozinho à mesa. De repente, a sopa já não lhe pareceu tão saborosa.
As duas semanas seguintes passaram num silêncio carregado. João continuava a viver no apartamento, mas sentia-se como se estivesse sentado em cima de um vulcão. Ana não fazia cenas, não gritava, não chorava. Limitava-se a cumprir a rotina. De manhã ia trabalhar; à noite regressava, preparava o jantar de Pedro, ajudava-o com as coisas da escola e deitava o filho.
Com o marido, falava apenas o indispensável. Frases curtas. Assuntos práticos. Quase sempre relacionados com Pedro.
João não conseguia compreender aquele comportamento. Tinha esperado súplicas, ameaças, desespero, talvez até pedidos de reconciliação. Mas Ana agia como se nada tivesse acontecido. E essa tranquilidade perturbava-o mais do que qualquer ataque de choro.
Por várias vezes tentou abrir conversa.
— Ana, não achas melhor falarmos disto com calma?
— Falaremos em tribunal — respondeu ela, sem levantar os olhos do livro que estava a ler.
— Se calhar estás a exagerar. Isto não é assim tão grave.
— Logo se verá.
