— É precisamente essa a atitude certa — aprovou Helena. — Vemo-nos amanhã.
A sala de audiências era bem mais pequena do que Ana imaginara. Não tinha nada de solene nem de grandioso; parecia antes um gabinete comum, com bancos de madeira, a mesa da juíza e o brasão na parede. Sentada ao lado da advogada, Ana torcia nervosamente a alça da mala entre os dedos, esforçando-se por não olhar para João, que ocupava o lugar em frente com uma segurança quase provocadora.
— Tente acalmar-se — murmurou Helena, inclinando-se ligeiramente para ela. — Temos tudo preparado.
— E se ele inventar alguma coisa? A doutora não o conhece como eu…
Helena esboçou um sorriso breve.
— Homens assim aparecem-me no caminho todos os dias. Repare: veio acompanhado de Pedro Pereira, o advogado preferido de clientes endinheirados. Mas nem ele consegue discutir contra factos.
Nesse momento, entrou a juíza, uma mulher de meia-idade, rosto cansado e expressão severa. Sentou-se, abriu o processo e passou os olhos pelos papéis.
— Dá-se início à audiência relativa à partilha de bens do casal Silva. Parte autora?
O advogado de João levantou-se de imediato.
— João Silva — anunciou, num tom seguro. — O meu cliente requer que as pretensões da ré sejam consideradas improcedentes, uma vez que todos os bens foram adquiridos com dinheiro exclusivamente seu e registados em seu nome.
Ana sentiu as mãos fecharem-se em punhos. Que descaramento. Vieram-lhe à memória os anos em que contara cada cêntimo para a construção da casa avançar. Recordou as horas suplementares na faculdade, as explicações dadas até tarde, tudo com a promessa de que estavam a investir num futuro comum.
A juíza voltou-se para o outro lado.
— Qual é a posição da ré?
Helena levantou-se com firmeza.
— Ana não reconhece a versão apresentada pelo autor. Os bens foram constituídos durante o casamento, e a minha cliente contribuiu tanto com recursos financeiros próprios como com trabalho e esforço pessoal. Dispomos de provas documentais e testemunhais.
João soltou uma espécie de riso abafado e inclinou-se para dizer algo ao advogado. Pedro Pereira anuiu, folheando rapidamente o processo.
— Que provas são essas? — perguntou a juíza.
Helena abriu a pasta que trouxera e retirou vários documentos organizados.
— Recibos assinados por João Silva, nos quais confirma ter recebido quantias entregues pela esposa para a construção da casa. Faturas de materiais pagos com o cartão bancário de Ana. Extratos da conta dela, onde constam levantamentos significativos feitos durante o período das obras. E ainda depoimentos de testemunhas.
— Isso é um absurdo! — João ergueu-se de repente. — Que recibos? Isso foi há anos, nem sequer me lembro de nada disso!
A juíza bateu com a voz, sem levantar o tom.
— Silêncio na sala. Falará quando lhe for dada a palavra.
Helena entregou a documentação. A juíza recebeu-a e examinou cada folha com atenção, demorando-se nas assinaturas e nas datas.
— Chamemos a testemunha Miguel Silva.
Miguel entrou na sala com passos contidos. Via-se-lhe o nervosismo nos ombros tensos e no modo como evitava encarar o pai.
— Miguel, pode confirmar se a sua mãe aplicou dinheiro na construção da casa?
— Posso — respondeu ele, depois de engolir em seco. — Eu era pequeno, mas lembro-me bem. A minha mãe ia muitas vezes à obra com dinheiro. Dizia: “É o meu ordenado, vai para os materiais.”
— Mentira! — João saltou novamente da cadeira. — Ele só está a defender a mãe!
— Senhor Silva — cortou a juíza, agora mais dura —, se interromper outra vez, mandarei que seja retirado da sala.
Depois de Miguel, foram ouvidas outras pessoas. A vizinha Maria contou que Ana pedira um empréstimo para pagar a primeira tranche da casa. Uma antiga colega da faculdade recordou que Ana aceitava explicações ao fim do dia e ao fim de semana, dizendo que aquele dinheiro era “para os azulejos da casa de banho”.
A cada depoimento, o rosto de João escurecia mais. A confiança inicial desfazia-se, substituída por uma irritação mal disfarçada. O seu advogado, por sua vez, folheava os papéis com crescente impaciência, como se procurasse uma saída que não aparecia.
Então Helena voltou a erguer-se.
— Gostaria ainda de juntar um documento adicional — declarou, retirando uma folha amarelecida de dentro da pasta. — Trata-se de uma procuração passada por Ana a favor do marido, autorizando-o a tratar dos assuntos da empresa. E, juntamente com ela, um extrato bancário que demonstra que o capital inicial do negócio saiu da conta-poupança da minha cliente.
Fez-se um silêncio pesado na sala. João perdeu a cor.
— Onde arranjou isso? — sibilou, com os dentes cerrados.
— No arquivo do banco — respondeu Helena, imperturbável. — Certos registos ficam guardados durante muito tempo.
A juíza suspendeu a sessão para deliberar. Ana permaneceu sentada, quase sem se mexer, incapaz de acreditar que tudo estivesse a correr daquela forma. O medo continuava lá, mas já não ocupava o espaço inteiro dentro dela.
— Acha que vamos ganhar? — perguntou num fio de voz.
Helena inclinou-se e piscou-lhe o olho.
— Nós já ganhámos. A juíza não tem por onde escolher. A lei está do nosso lado.
