Meia hora depois, a juíza regressou à sala e leu a decisão, num tom firme e sem hesitações:
— Reconhece-se a Ana Silva o direito a metade dos bens adquiridos durante o casamento, incluindo a moradia, as contas bancárias e a participação na empresa…
João levantou-se de um salto, vermelho de indignação.
— Isto é um absurdo! Vou recorrer!
— Está no seu direito — respondeu a juíza, serena. — Contudo, a decisão mantém-se em vigor.
Passaram seis meses.
Ana estava sentada na cozinha da metade da casa que agora lhe pertencia, a amassar massa para um bolo. Depois da partilha, a moradia fora registada oficialmente como duas habitações independentes, cada uma com a sua entrada. No início, aquela divisão parecera-lhe estranha, quase irreal. Com o tempo, habituou-se. Além disso, João raramente aparecia por ali; vivia com Sofia.
O telemóvel apitou. Era mais uma encomenda do café da rua ao lado: outro bolo para o dia seguinte. Ana sorriu. Quem imaginaria que aquelas fornadas feitas por necessidade acabariam por se transformar num pequeno negócio?
A campainha tocou. Quando abriu a porta, encontrou Miguel do outro lado, com um ramo enorme nos braços.
— Parabéns, mãe!
— Ai, Miguel! — Ana abraçou-o com força. — Obrigada, meu querido.
— Como estás? — perguntou ele, olhando para as mãos dela, cobertas de farinha. — Já vi que continuas sem parar.
— Tenho encomendas até dizer chega! Nem acreditas: as próximas duas semanas já estão cheias.
— Estás uma verdadeira profissional — disse Miguel, sentando-se à mesa. Depois, baixou um pouco a voz. — E o pai? Tem-te deixado em paz?
Ana pegou na taça e mexeu o creme devagar.
— Veio cá na semana passada. Disse que se tinha zangado com a Sofia.
— E depois?
— Quis voltar para mim, consegues acreditar? — soltou um riso curto, sem alegria. — Disse: “Ana, por que é que nos separámos como dois parvos? Vamos recomeçar.”
— E tu, o que respondeste?
— Disse-lhe: “João, agora é tarde. Só agora é que me encontrei.”
Miguel riu, satisfeito, e roubou um pedacinho de massa da bancada.
— Mãe, tenho orgulho em ti. A sério. Nunca pensei que fosses levantar-te assim.
— Nem eu — confessou Ana, olhando por instantes para a janela. — Sabes, às vezes acontece-nos uma coisa terrível e só mais tarde percebemos que, afinal, foi isso que abriu a porta para algo melhor.
Ao fim da tarde, a casa encheu-se de convidados: colegas da escola onde trabalhara, novas amigas do clube de pastelaria e Maria, a vizinha. Ana pôs a mesa na sala renovada. Depois do divórcio, mudara tudo: tirara o papel de parede escuro, escolhera tons claros e comprara móveis mais leves. João sempre preferira cortinados pesados e armários enormes. Ela, pelo contrário, queria luz, ar e espaço.
— À aniversariante! — brindou Maria, erguendo o copo. — À nossa heroína!
— Heroína? Não exagerem… — Ana corou.
— Exagerar? Nem pensar! — atalhou Carolina, uma das colegas. — Há tantas mulheres que aguentam caladas, com medo de mudar. Tu tiveste coragem.
Quando todos se foram embora, Ana deixou-se cair no sofá com uma chávena de chá entre as mãos. A casa estava silenciosa, mas já não era um silêncio de abandono. Era paz.
A campainha voltou a tocar.
À porta estava João, segurando uma caixa de bombons.
— Parabéns — murmurou.
— Obrigada — disse Ana, sem se afastar para o deixar entrar.
— Podemos falar?
— Sobre quê?
— Tenho saudades tuas, Ana.
Ela observou-o com atenção. Parecia mais velho, mais magro, como se a arrogância tivesse perdido parte da força. Mas os olhos continuavam iguais: astutos, calculistas, sempre à procura de vantagem.
— E a Sofia?
— Acabou. Ela… não era a pessoa certa.
— E eu sou? — Ana sorriu, mas sem ternura. — João, passou o momento. Eu tenho a minha vida.
— Que vida? Fazer bolos? — perguntou ele, com uma careta.
— Também faço bolos. Tenho amigas novas. Entrei num coro. E, acima de tudo… estou bem.
— Sem mim?
— Imagina só — respondeu ela, tranquila. — Durante trinta e dois anos vivi para ti. Agora quero viver para mim.
João não encontrou resposta. Estendeu-lhe a caixa de bombons, virou costas e foi-se embora.
Ana fechou a porta devagar e ficou encostada a ela, de olhos fechados.
— Consegui — sussurrou. — Consegui mesmo.
Na manhã seguinte, acordou com o telefone a tocar. Era uma nova encomenda: um bolo de casamento para trinta pessoas.
— Acha que consegue tê-lo pronto para sábado? — perguntou uma voz jovem.
— Consigo — respondeu Ana, com uma segurança que antes não reconheceria em si própria. — A partir de agora, consigo tudo.
Abriu a janela. A luz da primavera entrou pela divisão e espalhou-se pelo chão, pelas paredes claras, pela mesa onde ainda restavam vestígios de farinha. Havia tantos planos à sua espera: um curso de pastelaria, uma viagem à beira-mar com as amigas e, em breve, o neto que Miguel esperava e que ela finalmente conheceria.
Ana ergueu o rosto para o céu e sorriu.
— Quem diria — murmurou — que a vida, aos cinquenta e cinco anos, estava apenas a começar.
