Ainda sem saber se devia irritar-se ou manter-se calado.
— Podias ao menos ter um pouco de… — começou ele.
— João — cortou Ana, sem levantar a voz. — Quero dizer-te uma coisa. Sem gritos, sem discussão. Eu não sou contra o casamento. Também não me recuso a ajudar. Mas aquilo que tu e a Maria inventaram não foi um pedido de ajuda. Foi outra coisa.
Ele não lhe respondeu. Limitou-se a ir para a cozinha, onde começou a mexer no fervedor com ruído desnecessário.
Ana voltou para a sala e abriu o portátil. O contrato de arrendamento continuava ali, à espera. O apartamento na Rua do Rio. Quarto andar. Janelas viradas para o parque.
Ficou a olhar para o ecrã, mas a sua cabeça regressou ao olhar de Pedro, àquele último olhar junto à porta. Havia ali qualquer coisa que não encaixava. Não era raiva. Não era ressentimento. Era mais frio do que isso.
Aquele homem sabe alguma coisa, pensou. Ou está a preparar alguma coisa.
O dedo pairou sobre o painel tátil.
E, mais uma vez, ela não clicou.
Porque, naquele momento, outra pergunta lhe surgiu com força: por que motivo Pedro se mantivera calado durante todo aquele tempo? Era inteligente, observador, claramente nada tímido. No entanto, não dissera uma palavra. Apenas vira, ouvira e guardara tudo.
Para quê?
A resposta chegou de forma inesperada, e não veio de onde Ana a teria aguardado.
Três dias depois da visita de Maria, recebeu uma mensagem de uma mulher desconhecida. Era curta, direta, sem rodeios: “A senhora é a mulher de João Silva? Preciso de falar consigo. É importante.”
Ana ficou bastante tempo a olhar para aquelas linhas. Depois escreveu apenas: “Diga.”
Combinaram encontrar-se numa cafetaria na Rua Garrett, um espaço pequeno, com mesas de madeira e cheiro a cardamomo no ar. A mulher chamava-se Catarina. Tinha trinta e dois anos, falava baixo e mantinha as mãos pousadas sobre a mesa com uma correção quase escolar, como se estivesse perante um exame. Trabalhava como contabilista na mesma empresa onde Pedro figurava como diretor comercial. E sabia algo que merecia ser ouvido.
Pedro não andava simplesmente à procura de um local para o casamento. Procurava pessoas por intermédio das quais pudesse fazer passar algumas operações fictícias. Nos papéis, tudo surgiria como pagamento de serviços de catering e aluguer de equipamento. O dinheiro entraria na empresa do irmão e, depois, seguiria caminho. Um esquema simples, discreto, quase invisível. Só precisava de familiares confiantes, com dinheiro disponível e um apartamento que servisse de garantia.
Catarina falava com calma, sem teatralidade, consultando de vez em quando o telemóvel. Ana escutava-a enquanto bebia café. Dentro dela não havia pânico nem espanto. Apenas aquela sensação estranha de quem, durante muito tempo, pressentiu que algo estava errado e, por fim, recebeu a confirmação.
— Porque me está a contar isto? — perguntou Ana.
Catarina hesitou por breves segundos.
— Porque há um ano ele fez exatamente o mesmo à minha irmã. Ela perdeu dois mil euros e passou meio ano sem conseguir sair de casa.
Ana regressou a casa já ao anoitecer. João estava sentado no sofá, a ver qualquer coisa na televisão, descontraído, habitual, como se nada no mundo tivesse mudado. Ela descalçou-se, pendurou o casaco, entrou na sala e sentou-se no cadeirão em frente dele.
— João, tu sabias do esquema do Pedro?
Ele não respondeu logo. Primeiro baixou o volume. Só depois olhou para ela. E, nesse olhar, Ana leu tudo. Não viu culpa. Nem medo. Viu cansaço e irritação, como a expressão de alguém apanhado numa falta sem importância.
— Ana, tu estás outra vez a inventar coisas.
— Não — disse ela. — Estive com uma pessoa que conhece os pormenores. Documentos, valores, o modo como funcionava. Isto não é imaginação minha.
João levantou-se e começou a andar pela sala.
— O Pedro é um tipo normal. A Maria gosta dele. Tu é que nunca aceitaste a minha família…
— João.
Ela pronunciou o nome dele em voz baixa, mas ele calou-se.
— Não vou discutir. Só quero dizer-te isto de forma clara: vou pedir o divórcio.
A televisão continuava a murmurar qualquer coisa num canto. Lá fora, um carro apitou. A vida prosseguia, indiferente ao que acabara de acontecer naquela sala.
João ficou muito tempo sem falar. Por fim, perguntou:
— Por causa do casamento?
— Não — respondeu Ana. — O casamento foi apenas a última coisa que eu precisava de ver.
O divórcio demorou quatro meses. Não foram meses ruidosos nem escandalosos; foram apenas longos. Advogado, papéis, partilha de bens, assinaturas. João tentou várias vezes conversar, explicar-se, recomeçar o jogo por outro lado. Mas, de cada vez, batia contra aquela parede calma e intransponível que Ana erguera dentro de si desde o dia da cafetaria na Rua Garrett.
Maria acabou por casar com Pedro. Fizeram-no discretamente, num círculo reduzido, sem festa luxuosa e sem dinheiro alheio. Talvez o plano tivesse falhado. Talvez Pedro tivesse decidido não arriscar. Ana soube disso por acaso, através de uma conhecida comum, e quase nada sentiu. Apenas um alívio leve, quase físico.
Em junho, arrendou finalmente o apartamento na Rua do Rio.
A mudança coube inteira num só dia. As suas coisas eram surpreendentemente poucas — ou talvez ela tivesse levado apenas aquilo que lhe pertencia de verdade. Algumas caixas, duas malas, a manta preferida, comprada por ela e João, anos antes, num mercado em Sintra. A manta, levou-a. A recordação do mercado, não. Essa ficou para trás, algures no outro apartamento, juntamente com o sofá e sete anos de vida.
A casa nova recebeu-a com silêncio e cheiro a tinta fresca. Quarto andar, tetos altos, vista para o parque: exatamente como ela tantas vezes a imaginara.
