“Ficaste surda, foi?! Estou a dizer-te: casamento! Aqui em casa! Daqui a um mês!” exclamou João, enquanto Ana baixava a tampa do portátil

Histórias
A decisão familiar soa injusta, sufocante e cruel.

Tinha sido assim que a desenhara na cabeça tantas vezes. Ana encostou as caixas à parede, abriu a janela de par em par e ficou ali, imóvel, durante muito tempo. Lá em baixo, no parque, pessoas passeavam cães, crianças avançavam em círculos nas bicicletas, e aquela vida vulgar, discreta, sem pose, seguia o seu curso com uma serenidade quase feita à medida dela.

Depois, desencaixotou a máquina de café. Foi o primeiro objeto a que deu lugar na casa. Preparou uma chávena, sentou-se no peitoril da janela e envolveu-se na manta.

Havia silêncio. Havia paz. Uma paz tão boa que chegava a parecer pouco real.

Ana trabalhava como editora numa pequena casa editorial. Sempre gostara do ofício com uma dedicação séria, antiga, mas nos últimos anos fora empurrando esse amor para as margens, como se lhe parecesse indecente ocupar demasiado espaço com coisas suas. Agora, porém, o espaço existia. E, quase sem dar por isso, começou a ser preenchido por aquilo que lhe pertencia.

Retomou então um projeto que vinha a adiar havia dois anos: a revisão do manuscrito de um jovem autor de Coimbra. Era um texto vivo, inquieto, ainda irregular em várias passagens, mas atravessado por qualquer coisa verdadeira, uma pulsação difícil de fingir. Ana trabalhava nele à noite, com a janela aberta e o café ao lado, e, pela primeira vez em muito tempo, deixava de olhar para o relógio.

Em agosto, ela e Joana, uma colega da editora, meteram-se no carro numa sexta-feira ao fim da tarde e foram passar o fim de semana a Óbidos. Sem plano especial, sem motivo, sem obrigação. Houve igrejas brancas, muros antigos, cercas de madeira, morangos comprados no mercado e um gato absurdo na hospedaria, que escolhia sempre as malas dos hóspedes para dormir. Ana riu-se ali com uma leveza que já nem sabia se ainda lhe pertencia. Talvez não se risse assim há anos.

— Estás diferente — comentou Joana ao jantar, observando-a com uma surpresa afetuosa.

— Diferente como?

Joana encolheu os ombros, à procura da palavra certa.

— Mais tu. Não sei explicar. Antes estavas sempre um bocadinho… em posição de defesa. Como se estivesses de guarda.

Ana ficou a pensar naquilo. Sim, provavelmente era verdade. Quando se passa tempo demais à espera da próxima investida da família de outra pessoa, o corpo aprende a manter-se alerta. A tensão instala-se como hábito. E depois, para sair, sai devagar.

No outono, cruzou-se por acaso com João. Foi no supermercado, junto às caixas. Ele parecia bem, talvez um pouco mais magro. Segurava um pacote de massa numa mão e um frasco de polpa de tomate na outra. Cumprimentaram-se. Trocaram meia dúzia de frases durante três minutos: o tempo, a qualidade do peixe daquele supermercado, banalidades seguras. Depois despediram-se com educação, sem farpas, sem ressentimento.

Enquanto caminhava para o carro, Ana percebeu que era mesmo aquilo. Sete anos, um divórcio, um encontro ao pé da caixa registadora e três minutos de conversa. Não sentiu dor. Também não sentiu raiva. Apenas uma despedida baixa, quase silenciosa, de alguém que um dia amara, mas que ficara a viver noutro tempo.

Em casa, pôs água ao lume, tirou legumes do frigorífico e ligou música. A noite descia atrás dos vidros; os candeeiros da rua acendiam-se um após outro, e o apartamento ia-se enchendo de uma claridade quente.

Ana cortava pimentos, mexia a panela, espreitava a janela de vez em quando. Pensava no manuscrito, no fim de semana em Óbidos, e na aula de cerâmica em que queria inscrever-se na semana seguinte. Queria aquilo havia tanto tempo. Tinha adiado sempre.

Agora já não adiava.

A vida, afinal, estava ali mesmo ao lado. Fora preciso apenas abrir-lhe a porta.

O contrato do apartamento acabou por ser prolongado. Desta vez, por um ano inteiro, sem hesitações, com um gesto simples no ecrã. Como, no fundo, deveria ter acontecido desde o primeiro dia.

Catarina — a mulher da cafetaria da Rua Garrett — tornou-se, de forma inesperada, alguém próximo. No início trocavam mensagens raras. Depois, começaram a escrever-se com mais frequência. Até que, um dia, foram juntas a uma exposição de cerâmica contemporânea e passaram três horas a conversar, esquecendo quase por completo as peças expostas. Era estranho o modo como a vida por vezes aproxima duas pessoas: através da maldade de outros, de feridas sofridas em separado, e de repente ali está alguém, ao lado, sem esforço.

Mais tarde soube-se que Pedro acabara por chamar a atenção dos investigadores. Não por causa do caso de Maria — nesse, os fios tinham sido escondidos com cuidado —, mas por outro assunto, mais antigo. Ana ficou a sabê-lo por Catarina, em novembro, durante um chá. Não sentiu triunfo. Apenas uma calma simples, quase neutra: pois bem.

Maria telefonou uma única vez. Ficou calada durante uns dez segundos e depois disse:

— Tinhas razão.

Nada mais.

Ana respondeu sem dureza, mas também sem se alongar:

— Eu sei. Cuida de ti.

Desligou e permaneceu sentada durante muito tempo, a olhar pela janela.

Não queria esmagá-la. Não precisava.

Dezembro chegou de mansinho, com ar frio, entardeceres prematuros e cheiro a tangerinas em todas as lojas. Ana decorou o apartamento sozinha e sem pressa: uma grinalda luminosa na janela, um ramo de pinheiro numa jarra, a caneca preferida com renas, guardada desde os tempos de estudante.

Passou a passagem de ano com Joana e Catarina. As três à mesa, com bom vinho, brindes disparatados e uma varanda de onde se viam, ao longe, os foguetes dos outros a rebentar sobre a cidade.

Quando o relógio marcou a meia-noite, Ana ficou junto à janela a observar as luzes. Pensou que, um ano antes, àquela mesma hora, estava sentada num sofá, dentro de uma vida que agora lhe parecia alheia. E nem imaginava que sabia existir assim: leve, sem medo, por si própria.

Agora sabia.

Ergueu o copo. Do outro lado do vidro, mais um fogo de artifício se abriu no céu — breve, luminoso, perfeito.

Então é isto, pensou.

E isto era apenas o começo.

Casa da Encarnação