— Ana! Onde está a comida?! — guinchou Helena, perdendo por completo a compostura. — Eu deixei-te a lista!
Pedro entrou logo atrás dela. Bastou-lhe olhar para a mesa para o rosto se lhe tingir de vermelho.
— Ana, enlouqueceste de vez? — explodiu ele. — As pessoas vieram para o nosso aniversário de casamento e não há nada para servir!
A voz dele ecoava pela casa inteira. Os convidados baixaram os olhos para os pratos vazios, fingiram consultar os telemóveis, voltaram-se para as janelas. Qualquer lugar servia, desde que não tivessem de assistir diretamente àquela cena.
— Mas o que é que te deu?! Estás boa da cabeça?!
Ana deixou que o silêncio se instalasse por mais alguns segundos. Depois pousou o copo sobre a mesa, com calma.
— Este é o meu presente.
A sala ficou imóvel, como se alguém tivesse fechado uma cortina pesada.
— Em honra do nosso aniversário, anuncio o divórcio — disse ela, retirando a aliança do dedo. Colocou-a sobre a toalha branca. O metal fez um som seco, pequeno, definitivo. — Vou-me embora. Hoje. Agora.
Pedro abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Fechou-a. Tentou outra vez.
— Tu… diante de toda a gente? Fizeste este teatro à frente dos convidados?
— Não fiz teatro nenhum. Mostrei a verdade — respondeu Ana, pegando na mala que já deixara preparada. — Durante sete meses fui a vossa criada. Cozinhei, lavei, limpei, organizei tudo. Desde as cinco da manhã até perto da meia-noite. E tu nunca perguntaste como eu estava. Nem uma vez me ajudaste. Limitaste-te a aproveitar. Eu dava jeito aos dois. Era só isso.
Margarida, uma das amigas de Helena, abafou um riso nervoso contra a mão. Teresa inclinou a cabeça num aceno quase impercetível.
— Ana, querida, espera lá, vamos conversar com calma — apressou-se Helena, avançando para ela com as mãos de unhas impecáveis estendidas. — Estás exausta, eu compreendo. Contratamos uma senhora para ajudar, não é, Pedro?
— Agora é tarde — disse Ana, caminhando para a porta.
Pedro precipitou-se e agarrou-a pelo braço.
— Ficas aí! Não podes simplesmente pegar nas tuas coisas e sair!
— Posso — Ana soltou-se sem levantar a voz. — Repara.
Abriu a porta. Antes de a fechar, ainda ouviu Pedro, em pânico, ao telefone:
— Estou? É do restaurante? Preciso de uma entrega urgente para oito pessoas! Já! Pago o que for preciso, mas depressa!
Ana fechou a porta atrás de si e saiu para o patamar. Tirou o telemóvel da mala e escreveu a Inês: “Posso ir para tua casa?”
A resposta chegou quase de imediato: “Vem, parva. Já devias ter vindo há muito tempo.”
Ana ficou uma semana em casa de Inês. Dormia numa cama dobrável, ia trabalhar, regressava e passava longos minutos apenas a olhar pela janela. Inês não a pressionava com perguntas.
Pedro telefonou durante três dias. Primeiro aos gritos, exigindo que ela voltasse, chamando-lhe ingrata. Depois mudou o tom: pediu desculpa, prometeu mudar, jurou que tudo seria diferente. Ana ouvia em silêncio e desligava. No quarto dia, chegou uma mensagem: “A mãe ficou de cama. Está mesmo mal. Estás satisfeita?”
Ana bloqueou o número.
Em compensação, escreveu-lhe Teresa, a convidada daquela noite: “Ana, desculpe incomodar. Fez muito bem. Vivi trinta anos com uma sogra igual. Nunca tive coragem de sair. A menina foi corajosa.”
Depois veio uma mensagem de Margarida. Mais tarde, outra pessoa. Todas aquelas mensagens pareciam convergir para a mesma conclusão.
