E todas, por caminhos diferentes, lhe diziam o mesmo: ela tinha feito o certo.
Uma semana depois, Inês regressou das compras com uma notícia. Tinha visto Pedro no supermercado. Estava junto a um carrinho atulhado de comida congelada, embalagens prontas e coisas que só precisavam de ir ao micro-ondas. Parecia envelhecido. A roupa amarrotada, o rosto abatido, os olhos vermelhos de cansaço.
— Perguntei-lhe como estava — contou Inês. — Respondeu, quase a rosnar, que a mãe agora estava mesmo doente e que já não fazia nada sozinha. Que ele tinha de trabalhar, cozinhar, limpar, tratar de tudo. Contrataram uma senhora por umas horas, mas fica caro. Já vendeu o carro. A pesca acabou. Diz que não tem tempo para respirar.
Ana ouviu-a sem interromper. Dentro dela não nasceu satisfação, nem pena. Apenas uma calma funda, quase desconhecida.
— Também perguntou por ti — acrescentou Inês. — Pediu-me para te dizer que, se voltares, tudo vai ser diferente.
Ana abanou a cabeça devagar.
— Não vai. A única diferença é que agora ele percebe quanto valia aquilo que eu fazia.
Passados mais alguns dias, Ana arrendou um quarto perto da escola. Era pequeno, dez metros quadrados talvez, com cozinha partilhada e uma janela virada para um pátio onde os pombos se juntavam a arrulhar. Não tinha encanto nenhum. Mas era dela.
Sentou-se na cama e ficou a olhar para as paredes nuas. No chão, a mala aberta guardava tudo o que trouxera consigo.
O telemóvel vibrou. Número desconhecido.
“Anna, sou eu, Helena. Perdoa-me. Eu não percebia o que estava a fazer. Volta. Eu vou mudar.”
Ana leu a mensagem uma vez. Apagou-a. Depois pousou o telefone no parapeito da janela.
Lá em baixo, uma velha espalhava migalhas pelo chão. Os pombos desciam em bando, empurravam-se, faziam barulho, disputavam cada pedaço. Havia vida ali. Cheirava a outono, a alcatrão molhado, a comida de outras pessoas vinda da cozinha comum. Não cheirava ao perfume pesado da sogra, nem às suas enxaquecas eternas. Não cheirava a Pedro, sempre incapaz de ver o que estava diante dos olhos.
Ana abriu mais a janela. O ar frio bateu-lhe no rosto. Inspirou devagar, até ao fundo dos pulmões.
Nessa noite, pela primeira vez em sete meses, deitou-se às oito simplesmente porque lhe apeteceu. Não porque o corpo tivesse desistido, nem porque já não aguentasse ficar de pé. Deitou-se porque podia. Ninguém a acordaria para passar camisas a ferro. Ninguém lhe diria que se esforçava pouco. Ninguém confundiria a sua doçura com permissão para a esmagar.
Na manhã seguinte, acordou com a luz do sol no rosto. Era sábado. Não precisava de se levantar. Podia voltar a dormir, sair para caminhar, ficar quieta a olhar para o teto. Qualquer escolha era sua.
Na cozinha, encontrou a vizinha, Cláudia, uma mulher de mais de cinquenta anos, a pôr a chaleira ao lume.
— Quer chá?
— Obrigada.
Beberam em silêncio. Do lado de fora, ouviam-se pombos, carros, alguém a discutir no pátio. Uma manhã vulgar. Estranha ainda. Mas dela.
Ana acabou o chá, passou a chávena por água e olhou para o próprio reflexo no vidro da janela. Estava pálida, sem maquilhagem, com o cabelo despenteado. Uma mulher comum.
Livre.
Viva.
E, sem dar por isso, sorriu.
