“Filomena, diga-me lá por que motivo decidiu que sou eu quem deve sustentar o seu filho?” Catarina exige, expulsando a sogra que irrompe com empadas

Histórias
Inaceitável submissão que envergonha e indigna.

E o resultado está aqui, sentado à minha mesa, sem conseguir articular uma única palavra em sua própria defesa. Para mim, chega. Acabem o chá e leve consigo o seu grande provedor. Vai precisar de ajuda para fazer as malas.

A palavra “malas” caiu sobre a mesa como uma gota de ácido, corroendo de imediato a película frágil das fantasias familiares. Ricardo, que até então parecera apenas uma sombra pálida, um figurante agarrado à mãe, endireitou-se de repente. Levantou-se devagar, com gestos estudados, quase teatrais. Empurrou para o lado a fatia de tarte intacta, como se até aquele alimento o comprometesse com o mundo vulgar dos instintos, e fixou Catarina. Não com o olhar de um marido para a mulher, mas com a solenidade de um profeta perante um rebanho perdido e limitado.

— Tu nunca me compreendeste — começou ele, num tom baixo, mas carregado de uma emoção funda e vibrante. — Sempre quiseste encaixar-me no teu esquema pequeno. Trabalho, salário, férias. O ciclo primário da existência biológica. Tu só vês a superfície, Catarina, a embalagem. Eu falo do essencial. Da essência!

Filomena agarrou logo aquela bandeira. Olhou para o filho com orgulho e depois lançou a Catarina um olhar triunfante.

— Estás a ouvir? Ouves como ele fala? Percebeste sequer uma palavra do que ele disse? O teu mundinho é estreito para ele, estreito demais!

Mas Ricardo calou-a com um gesto da mão. A cena era dele.

— Eu não “me despedi”, como tu dizes de forma tão grosseira — prosseguiu, dando um passo em frente, como um conferencista diante da plateia. — Eu abandonei um sistema que tritura a individualidade e transforma a pessoa numa função, numa peça de engrenagem. Eu não procuro um “emprego”. Procuro uma vocação. E isso, minha querida, é muito diferente. Exige tempo, recolhimento, concentração. É um trabalho interior, um trabalho da alma, muito mais duro do que empurrar papéis num escritório das nove às seis.

Falava com prazer, banhando-se no som da própria voz, em frases redondas, sonoras e vazias. Pintava-se como um gigante incompreendido do pensamento, obrigado a explicar as leis do universo a uma criatura bárbara que acabara de aprender a acender uma fogueira.

— E que resultado deu essa tua quinzena de trabalho espiritual, Ricardo? — perguntou Catarina, com uma serenidade gelada que o feriu mais do que qualquer grito. — Descobriste uma nova lei da termodinâmica deitado no sofá? Ou encontraste o zen enquanto vias séries?

— Vês?! Vês?! — Ricardo ergueu o dedo para o teto. — É isso que tu és! Queres medir capital espiritual em unidades materiais! Não fazes ideia do que é o esgotamento quando não é o corpo que cede, mas a alma! Eu dei os meus melhores anos àquela empresa, dei-lhe toda a minha energia, e recebi vazio em troca! E em vez de me ajudares a recuperar, queres atirar-me de novo para a mesma escravatura! Para quê? Para comprares um telemóvel novo? Para umas férias na praia, onde gente como tu passa o tempo a fotografar pratos de comida?!

— Exatamente! — explodiu Filomena, tomada por uma fúria maternal absoluta. — Ele é um homem de voo alto, minha filha! Tu não queres uma águia, queres uma besta de carga que puxe a tua carroça!

Catarina escutou aquele dueto afinadíssimo, aquele hino à autocomiseração e à infantilidade, e sentiu dentro de si começar a ferver qualquer coisa escura, fria, implacável. Olhou para aquele homem de quarenta anos, com os olhos acesos como os de um pregador, depois para a mãe dele, pendurada no filho com devoção quase religiosa — e, nesse instante, a imagem completou-se.

Aquilo já não era uma discussão. Nem sequer era uma briga de família.

Era o choque com um mundo inteiro construído sobre a mentira, o egoísmo e uma incapacidade patológica de assumir responsabilidades. E ela já não estava disposta a fazer parte daquela encenação. Endireitou-se até à sua altura inteira, e a calma que a revestia rompeu-se como uma corda esticada até ao limite.

— Filomena, de onde tirou a ideia de que sou eu que tenho de sustentar o seu filho? Ele é meu marido, é homem, devia ser ele a sustentar-me, não o contrário! Portanto, pegue nessa sua proteção toda e ponha-se já daqui para fora!

A frase, arremessada contra a sogra com uma raiva crua, sem disfarces, fez a cozinha rebentar por dentro. Durante alguns segundos, instalou-se um vazio perfeito, como se até as partículas de pó suspensas na luz do sol tivessem ficado imóveis.

Casa da Encarnação