Ricardo permanecia de boca entreaberta, como se lhe tivessem arrancado, de um só golpe, a postura solene de profeta. Toda aquela pose inspirada, cuidadosamente construída, murchara num instante, deixando-o reduzido à figura desajeitada de um rapaz apanhado em falta. Filomena, por sua vez, ficou rubra; o ar saía-lhe do peito aos solavancos, preso entre a indignação e o espanto. Quis responder, gritar, esmagá-la com alguma frase definitiva. Mas Catarina não lhe deu espaço.
Já não estava a discutir. Já não queria convencer ninguém. Dentro dela, qualquer coisa se partira sem possibilidade de conserto. Como se tivesse ardido o último fio que ainda alimentava a paciência, a esperança e aquela educação cansada que a mantivera calada durante tempo demais.
Sem dizer uma palavra, virou costas e saiu da cozinha.
Os passos dela soaram firmes, medidos, estranhamente tranquilos. Não havia pressa, nem tremor, nem cena histérica. Ricardo e Filomena trocaram um olhar breve. Nele havia confusão, mas também o começo de um pressentimento desagradável.
Pouco depois, Catarina voltou.
Trazia pelo braço uma mala grande, de rodinhas, azul-escura — a mesma que tinham levado, anos antes, na lua de mel. Sem uma sílaba, pousou-a diante da porta com um baque abafado, mesmo entre a mesa e os dois vultos paralisados.
Depois, sem lhes conceder sequer um olhar, abriu os fechos com dois estalidos secos e levantou a tampa de uma só vez. O interior vazio da mala ficou escancarado diante deles, como uma cova aberta. O símbolo era tão claro que dispensava explicações.
— Catarina… o que é que estás a fazer? — conseguiu enfim balbuciar Ricardo, recuperando uma voz fraca.
Ela não respondeu. Nem pareceu ouvi-lo.
Dirigiu-se ao armário alto encostado à parede, onde estavam pendurados os casacos dele. A primeira peça a voar para dentro da mala foi o caro casaco de caxemira que ela lhe comprara no último aniversário.
— Isto é para a tua busca pessoal no mundo real — declarou, num tom baixo, liso, quase metálico, sem sequer olhar para a roupa. — Ajuda bastante a concentrar em pensamentos elevados quando, pelo menos, não se está a morrer de frio.
Em seguida, abriu uma gaveta da cómoda e retirou uma pilha de camisas acabadas de passar a ferro. Foram caindo uma após outra, atiradas sem cuidado, amarfanhadas por cima do casaco.
— E isto fica para as entrevistas de emprego. Para o cargo de génio, messias ou guia espiritual. É verdade que, para essas funções, raramente exigem código de vestuário, mas nunca se sabe. Sempre dá um ar mais sério.
Ricardo observava aquele ritual com um medo crescente.
Aquilo não era uma simples mala a ser feita.
Era uma execução pública.
Uma demolição metódica da imagem que ele construíra de si mesmo, da lenda pessoal com que se envolvera. Cada objeto, cada peça que antes pertencera à vida dos dois, Catarina arrancava do território da intimidade e reduzia à sua utilidade mais crua. Nada de memórias. Nada de ternura. Apenas função.
— Chega! Catarina, para já com isso! — tentou agarrar-lhe o braço.
Ela puxou-o para trás num gesto brusco, como se o contacto dele a tivesse sujado.
Depois aproximou-se da prateleira onde se alinhavam os livros de Ricardo: desenvolvimento pessoal, filosofia, procura de propósito, iluminação interior. Com um único movimento, varreu-os para os braços e despejou-os dentro da mala, por cima das camisas.
— Aqui tens também alimento para a alma. Pelo caminho vais precisar de bastante. Muito mais do que de alimento para o corpo. Porque, como acabámos de descobrir, o físico deve ser garantido por outra pessoa.
Filomena, finalmente arrancada ao choque, avançou para ela quase a correr.
— Tu perdeste o juízo?! Isso são as coisas dele!
— Eram. Agora são a vossa bagagem — respondeu Catarina, sem se voltar. Pegou no portátil de Ricardo e encaixou-o, com uma calma quase cuidadosa, no compartimento próprio. — Ferramenta indispensável para encontrar a vocação. Ou para ver séries. Depende do grau de iluminação.
Por fim, vieram os sapatos. Caíram dentro da mala com pancadas surdas, pesadas, como se fossem pedras. Catarina fechou a tampa com força, prendeu os fechos e puxou a pega telescópica. Depois empurrou a mala com decisão, fazendo-a rolar até parar mesmo diante dos pés de Filomena, a escassos centímetros dela.
Endireitou-se então.
Durante alguns segundos, mediu os dois com um olhar longo, denso, definitivo. Já não havia dor naquele rosto. Nem arrependimento. Apenas um vazio frio, queimado por dentro, como cinza depois do incêndio. Fixou os olhos diretamente nos da sogra.
— A senhora disse que o seu filho é talentoso. Pois muito bem. Leve o talento consigo. Eu já estou farta dele. Trate da devolução junto do fabricante.
Dito isto, virou-se e saiu da cozinha sem olhar para trás.
O “génio” ficou ali, ao lado da mãe, separado dela por aquela mala que se erguia entre ambos como uma lápide colocada sobre os restos da vida familiar que acabara de ruir. E, dentro da casa, desceu um silêncio tão espesso, tão surdo, que nada do que um dia tinham partilhado voltaria a quebrá-lo.
