— Mesmo em caso de divórcio, ele não poderá reclamar esse imóvel.
Ana inspirou fundo, como se só então o ar lhe voltasse aos pulmões.
— E se ele tentar entrar à força?
— Mude a fechadura e apresente queixa, se for necessário. E, já agora, aconselho-a a avançar com o processo de divórcio o quanto antes.
Ela assentiu em silêncio. A decisão, que há dias lhe pesava no peito, tornou-se definitiva.
Assim que regressou a casa, chamou um técnico e mandou substituir a fechadura. Quando ficou sozinha, pegou no telemóvel e ligou a João.
— Estou? — resmungou ele, do outro lado.
— João, vou pedir o divórcio.
Houve uma pausa brusca.
— O quê? Ana, perdeste a cabeça?
— Não. Pensei muito. Na segunda-feira entrego os papéis.
— Espera lá. Vamos conversar com calma, sentamo-nos e resolvemos isto.
— Já não há nada para resolver. Tu escolheste a tua mãe em vez da tua mulher. Tinhas esse direito. Mas eu não aceito continuar a ser a terceira pessoa dentro do meu próprio casamento.
— Ana!
— Adeus, João.
Desligou antes que ele encontrasse novas desculpas. Para sua surpresa, não sentiu desespero. Sentiu leveza.
Na manhã de segunda-feira, quando saiu do prédio, encontrou Maria à espera junto à entrada. Tinha o rosto carregado e os lábios apertados.
— Então, estás satisfeita? — sibilou a sogra. — Destruíste uma família.
— Eu não destruí nada. Aquilo já estava desfeito há muito tempo.
— Por causa do teu egoísmo!
— Não. Por causa da vossa intromissão.
O rosto de Maria tingiu-se de vermelho.
— Mas quem julgas que és? Fui eu que dei à luz o João, fui eu que o criei! Tu apareceste e quiseste ficar com tudo feito.
— E fui-me embora quando percebi que nunca seria bem-vinda.
— Criatura miserável! — cuspiu Maria, cheia de veneno. — Egoísta e estéril!
Ana estremeceu. Aquela palavra atingiu-a como uma bofetada. Como é que a sogra sabia das suas dificuldades? Teria João contado algo tão íntimo à mãe?
— Pensaste que, com o apartamento, ias prender o meu João a ti? — continuou Maria, impiedosa. — Pois fica a saber que ele nunca te amou de verdade. Apenas te foi suportando.
— Chega — disse Ana, cansada. — Vá-se embora.
— Vou, sim! Mas lembra-te do que te digo: vais ficar sozinha. Ninguém te vai querer. Já o meu João ainda há de ser feliz!
Maria virou-lhe as costas e afastou-se a passos rápidos. Ana ficou a vê-la partir e, em vez de dor, sentiu um alívio estranho. Era como se, finalmente, a última porta se tivesse fechado.
O divórcio correu sem grandes demoras. João não tentou reivindicar o apartamento; limitou-se a ir buscar as suas coisas. Nos encontros inevitáveis, quase não trocaram palavras.
Na última vez, já à saída, ele atirou:
— A minha mãe tinha razão. Tu sempre pensaste apenas em ti.
Ana olhou-o sem raiva.
— E tu sempre pensaste apenas na tua mãe.
João não respondeu. Baixou os olhos e foi-se embora.
Passaram seis meses. Ana mandou renovar o apartamento, escolheu cores, móveis e pequenos detalhes ao seu gosto, como se devolvesse vida a cada divisão. No trabalho, ofereceram-lhe uma promoção. Pouco a pouco, tudo começou a assentar no lugar.
Certa tarde, ao sair de uma loja, cruzou-se com Sofia, uma conhecida de ambos.
— Ana! Há séculos que não te via! Como estás?
— Estou bem — respondeu ela, sorrindo. — E tu?
— Também. Olha, ainda há pouco tempo vi o teu João. Estava no supermercado com a mãe. Parecia tão… perdido.
— Nós divorciámo-nos — disse Ana, sem alterar o tom.
— Eu sei. A Maria conta a toda a gente que tu foste horrível. Diz que lhes roubaste o apartamento.
— O apartamento sempre foi meu.
— Eu acredito. Só que… sabes, ouvi dizer que o João chegou a andar a encontrar-se com uma rapariga. Mas a Maria afastou-a logo. Disse que não servia para ele. Agora estão novamente os dois a viver juntos.
Ana encolheu os ombros. Aquilo já não lhe dizia respeito.
— Bem, tenho de ir — apressou-se Sofia. — Gostei muito de te ver!
Ana regressou a casa. Ao abrir a porta, recebeu-a o silêncio tranquilo do seu espaço. Preparou uma chávena do seu chá preferido, pôs uma música suave e sentou-se junto à janela. Havia muito tempo que não sentia uma liberdade tão real.
Lá fora, a neve caía devagar, cobrindo a rua com uma brancura silenciosa. Ana observou os flocos a descerem e pensou no futuro. Pela primeira vez, ele parecia luminoso, cheio de caminhos possíveis. Sem uma sogra tóxica. Sem um marido sem coragem. Apenas ela, a sua casa e a sua vida.
O telemóvel vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de um número desconhecido: “Ana, é o João. Tenho número novo. Podemos encontrar-nos? Preciso de falar contigo.”
Ela leu a mensagem uma vez. Depois leu outra.
Em seguida, apagou-a sem hesitar e bloqueou o número.
O passado ficara onde devia estar: para trás. Ana não tencionava regressar a ele. Agora tinha o seu apartamento, a sua liberdade, os seus planos. E nenhuma sogra, nunca mais, teria poder para destruir isso.
