“São os meus pais. Não são estranhos” disse ele, sorrindo sem levantar os olhos do ecrã

Histórias
Imposição egoísta e desrespeitosa que sufoca o lar.

Nesse intervalo, gastei duzentos e vinte euros em compras de supermercado. E estou a falar apenas de comida. Não inclui água, luz, gás, nem as horas em que deixei de aceitar trabalhos para estar agarrada aos tachos. Se continuarmos neste ritmo, no fim do mês a conta chega facilmente aos setecentos euros. Talvez queiram contribuir?

Fez-se um silêncio tão espesso que até o pingar da torneira parecia um relógio.

— Mas tu… — Teresa ficou vermelha até ao pescoço. — Estás a pedir dinheiro à família?

— Estou a sugerir que as despesas sejam divididas. Eu e o João não ganhamos o suficiente para alimentar seis pessoas durante um mês inteiro.

— João, estás a ouvir isto? — a sogra virou-se para o filho, indignada. — A tua mulher está a extorquir-nos!

João ergueu a mão, como se quisesse apagar o incêndio com um gesto.

— Ana, por favor… Era preciso falares assim? À frente de toda a gente?

— E quando é que eu devia falar? A sós, tu finges que não ouves.

Pedro afastou o prato, ofendido.

— Essa agora, Ana. Viemos de visita. Desde quando é que se cobra aos convidados?

— Visita dura três dias — respondi. — Um mês já se chama morar cá.

Maria levantou finalmente os olhos. Olhou para mim em silêncio. E, por um segundo, pareceu-me ver neles qualquer coisa parecida com pena.

O jantar acabou sem mais uma palavra. Fui eu que lavei a loiça sozinha: trinta e quatro peças, contei uma por uma. Ninguém se ofereceu para ajudar. Ninguém tirou a carteira.

Nessa noite, João nem apareceu no quarto. Dormiu no carro. Eu vi-o da janela.

Ao décimo segundo dia, acordei às seis e meia com a voz da minha sogra a atravessar a casa.

— Aninha! A sopa tem de ir já para o lume! Eu estou habituada a almoçar ao meio-dia!

Seis e meia da manhã. Sábado. O meu único dia livre, aquele em que não havia relatórios urgentes nem prazos a morder-me os calcanhares.

Fiquei deitada, a olhar para o teto. Do outro lado da parede, Pedro tossia. Maria remexia sacos. Manuel ligou a televisão no volume máximo, porque ouvia mal.

João apareceu à porta do quarto vindo do corredor. Trazia consigo aquele cheiro fechado do carro. Portanto, tinha dormido lá outra vez.

— Ana, levanta-te lá. A minha mãe está à espera.

Sentei-me na cama e fiquei a olhar para ele. Para aqueles ombros largos que se encolheram imediatamente quando a voz de Teresa voltou a soar da cozinha.

— João — perguntei, num tom baixo. — Tu perguntaste-me alguma coisa antes de os convidares?

— Ana, outra vez isso…

— Não é “outra vez”. Tu meteste quatro pessoas na nossa casa durante um mês. Não me avisaste. Não me perguntaste. Nem quiseste saber se eu tinha trabalho, compromissos, planos. Limitaste-te a dizer: “Eles chegam no sábado.” E pronto.

Ele esfregou a cana do nariz. O gesto de sempre. Há sete anos que eu via aquele mesmo movimento.

— São da família, Ana. O que é que eu havia de fazer? Dizer que não?

— A mim também não disseste que não. Simplesmente não perguntaste.

— Então queres o quê? Que eu os ponha na rua?

Não respondi. Levantei-me, fui para a cozinha e pus a sopa de beterraba ao lume. Quatro horas de trabalho: beterraba, couve, refogado, caldo. Teresa sentou-se ao meu lado num banco e ficou a vigiar cada colher de sal.

— Pões pouco. Sopa sem sal não sabe a nada.

Juntei mais meia colher.

— Ainda é pouco.

Acrescentei outra.

— Agora sim. Mas a beterraba voltaste a preparar mal.

Doze dias. Quatro horas de cozinha por dia. Quarenta e oito horas. Uma semana inteira de trabalho, mais um dia por cima. E ainda faltavam dezoito.

Depois do almoço, Teresa chamou João para a varanda. Eu estava a lavar a loiça e, pela janela aberta, ouvi tudo.

— Ela não é mulher para ti, Joãozinho. É fria. É avarenta. Mede a família em dinheiro. Tu mereces coisa melhor.

Fechei a torneira. O prato escorregava-me nas mãos por causa da espuma. Coloquei-o no escorredor com uma precisão absurda, muito direito, muito devagar.

Depois sequei as mãos no pano, fui para o quarto, abri o portátil e comecei a procurar viagens de última hora.

Turquia, Antália, partida dali a dois dias. Vinte e oito dias, hotel de três estrelas, tudo incluído. Quatrocentos e quarenta euros. No cartão havia quatrocentos e oitenta.

Carreguei em “reservar”. As minhas mãos não tremiam. Pela primeira vez em doze dias.

Na manhã do décimo quarto dia, levantei-me antes de todos. Cinco da manhã. Ainda era noite. A casa estava quieta.

Fiz a mala. Vestidos leves, fato de banho, sandálias, protetor solar, carregador, passaporte. Uma mala pequena, de cabine; tinha-a comprado de propósito três anos antes, para nunca precisar de despachar bagagem.

Deixei um bilhete em cima da mesa da cozinha. Escrevi à mão, com letras grandes, para não haver dúvidas.

“Sejam bem-vindos! A vossa anfitriã hospitaleira foi de férias. Durante um mês. No congelador há frango e rissóis. A sopa de beterraba demora quatro horas; a receita é do conhecimento da Teresa. Bom descanso!”

Ao lado, pousei as chaves suplentes. E saí.

O táxi já esperava à porta do prédio. O motorista colocou a mala na bagageira.

— Para o Aeroporto de Lisboa?

— Para o Aeroporto de Lisboa.

Sentei-me no banco de trás, apertei o cinto e olhei para as janelas do nosso apartamento. Tudo às escuras. Dormiam todos.

O carro arrancou. Encostei a cabeça ao banco e soltei o ar. Era como se alguém me tivesse aberto a caixa do peito por dentro; só nesse momento percebi que, durante doze dias, tinha respirado pela metade. Os ombros desceram. O zumbido no pescoço desapareceu.

O telemóvel tocou às sete e quarenta e duas. Eu já estava sentada junto à porta de embarque. Era o João.

Recusei a chamada. Ele ligou outra vez. Recusei de novo.

Chegou uma mensagem: “Onde é que tu estás?!”

Respondi: “No aeroporto. Vou de férias. Durante um mês. Tal como a tua família: sem aviso prévio. Lê o bilhete.”

Durante vinte e três segundos, não aconteceu nada. Depois, o telemóvel começou a vibrar sem pausa.

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