“São os meus pais. Não são estranhos” disse ele, sorrindo sem levantar os olhos do ecrã

Histórias
Imposição egoísta e desrespeitosa que sufoca o lar.

Era uma enxurrada de mensagens.

“Tu enlouqueceste?”

“A mãe está a chorar.”

“Quem é que vai cozinhar?”

“Devolve o dinheiro.”

“Ana, isto não tem graça nenhuma.”

Li-as todas. Parei, sobretudo, naquela pergunta: quem é que vai cozinhar. Durante doze dias, eu tinha alimentado seis pessoas. Quarenta e oito horas enfiada na cozinha. Duzentos e vinte euros gastos do meu bolso. E a primeira preocupação deles era saber quem lhes punha comida na mesa.

Desliguei o telemóvel, meti-o no fundo da mala e, pouco depois, anunciaram o embarque.

No avião, fiquei junto à janela. Apertei o cinto. Ao meu lado sentou-se uma mulher de uns cinquenta anos, bronzeada, com ar descansado. Sorriu-me.

— Vai de férias?

— Vou descansar — respondi.

E sorri também. Sorri tanto que até me doeram as maçãs do rosto. Já nem me lembrava da última vez em que tinha sorrido assim.

O avião ganhou velocidade, tremeu por instantes e levantou voo. Lisboa foi ficando pequena lá em baixo: telhados, estradas, filas de trânsito. Algures, no nosso apartamento de duas assoalhadas, a minha sogra devia estar a ler o meu bilhete. João devia estar a esfregar a cana do nariz. Pedro, muito provavelmente, perguntava onde estava o pequeno-almoço.

Eu, entretanto, voava em direção ao mar.

Nos primeiros três dias, dormi. Dormi sem culpa, sem despertador, sem sobressaltos. Doze horas seguidas por noite, porque nos doze dias anteriores mal tinha conseguido dormir cinco. O hotel era sossegado, o quarto era pequeno, a varanda dava para a piscina. Ninguém me acordava às seis e meia. Ninguém exigia sopa, carne ou sobremesa. Ninguém ficava atrás de mim a comentar a forma como eu cortava cebola.

Ao quarto dia, liguei o telemóvel.

Cento e catorze mensagens. Trinta e duas chamadas não atendidas. Dezoito eram do João. Sete da Teresa. Três do Pedro. Quatro da minha mãe, a quem a minha sogra já tinha ligado para se queixar de mim como se eu tivesse incendiado a casa.

Abri primeiro as mensagens do João, por ordem.

No primeiro dia, só havia fúria: “És uma traidora”, “Como foste capaz?”, “A minha mãe está desfeita”.

No segundo, veio a negociação: “Pronto, volta, eu falo com a minha mãe”, “Já chega, não achas?”, “Podemos resolver isto”.

No terceiro, apareceu o pânico: “Ana, eu não sei fazer sopa”, “A mãe está a obrigar-me a cozinhar”, “O Pedro disse que se vai embora se não houver comida decente”.

Li esta última duas vezes. Pedro, o homem que em doze dias não tinha lavado um único prato, ameaçava ir-se embora caso não fosse servido como num restaurante.

Depois abri as mensagens da minha sogra.

A primeira dizia: “Víbora!”

A segunda: “Coitadinho do meu João!”

A terceira: “Toda a gente vai saber que espécie de mulher tu és!”

A quarta era uma mensagem de voz com três minutos. Aguentei trinta segundos. Foi mais do que suficiente.

Respondi apenas ao João:

“Estou de férias. Regresso daqui a vinte e quatro dias. Há um supermercado do outro lado da rua.”

A seguir escrevi à minha mãe:

“Mãe, estou bem. Estou a descansar. Não ligues ao que a Teresa disser. Ela conta a versão que lhe convém.”

Voltei a desligar o telemóvel e fui para a praia.

A água estava morna, salgada, limpa. Deitei-me de costas, deixei o corpo flutuar e fiquei a olhar para o céu. Percebi, ali, que não nadava no mar há sete anos. Durante todo esse tempo, o dinheiro tinha ido para transferências aos pais do João, para obras na casa deles, para prendas de aniversário, de Natal e de sabe-se lá mais quantas ocasiões da família dele. As minhas férias ficavam sempre adiadas.

“Para o ano vamos, Ana. Para o ano, de certeza.”

Pois o ano seguinte tinha finalmente chegado. Sem João. Sem sogra. Sem trinta e quatro pratos empilhados depois do jantar.

Fiquei dentro de água quase duas horas. Quando saí, estendi-me numa espreguiçadeira e pedi um café. O empregado trouxe-o numa chávena pequena, com uma bolacha ao lado. Bebi devagar. Não tinha pressa. Não havia ninguém à espera que eu fosse para a cozinha.

A meio da segunda semana, chegou uma mensagem do João. Curta, seca:

“Eles foram-se embora.”

Não perguntei detalhes. Não quis saber a que horas, nem em que tom, nem com que malas. Li, bloqueei o ecrã e guardei o telemóvel.

No vigésimo dia, ele escreveu de novo:

“Quando voltares, temos de falar.”

Sem pontos de exclamação. Sem insultos. Sem acusações. Apenas aquilo: tínhamos de falar.

Respondi:

“Temos.”

Um mês depois, regressei. Vinha bronzeada, leve, descansada, com quarenta euros ainda no cartão — o que sobrara.

João estava à minha espera no aeroporto. Pegou na mala sem dizer grande coisa. Entrámos no carro e fizemos o caminho para casa em silêncio.

O apartamento estava limpo. Limpo de uma forma quase suspeita, como se tivesse sido arrumado à pressa para eu reparar. Os móveis continuavam no sítio. O ficus, no parapeito da janela, sobrevivera e até parecia regado. O colchão insuflável que tinham posto no escritório já não estava lá.

— Quando é que eles saíram? — perguntei.

— Uma semana depois de tu ires embora.

Uma semana. Foi esse o tempo que aguentaram sem serviço completo. Sem cozinheira, sem empregada, sem compras feitas, sem roupa tratada. Sete dias bastaram para juntarem as coisas e baterem a porta.

— A minha mãe disse que nunca mais punha os pés nesta casa — acrescentou João.

— Entendido.

Ele sentou-se no sofá e levou a mão à cana do nariz, mas baixou-a logo, como se tivesse percebido o gesto a meio.

— Podias ter simplesmente dito — murmurou.

Olhei para ele.

— Eu disse. Disse durante doze dias. Tu é que não ouviste.

— Mas ires-te embora assim foi demais.

— E trazer quatro pessoas para viverem aqui durante um mês, sem me perguntares nada, foi normal?

João não respondeu.

Não fizemos as pazes. Não houve abraço. Não houve aquele “está tudo bem” que se diz só para tapar buracos.

Agora, o João dorme na sala. Falamos pouco e apenas do necessário: quem paga a eletricidade, quem compra leite, que conta vence primeiro. A Teresa telefona-lhe todas as noites. Ouço-a através da parede a contar às amigas que a nora “abandonou o marido e fugiu para uma estância”. Na versão dela, não existem pratos sujos, nem panelas, nem quarenta e oito horas ao fogão.

Eu durmo sozinha no quarto. Em silêncio. Ninguém me acorda às seis e meia. Ninguém fiscaliza a forma como corto cebola.

Digam-me: exagerei por ter ido embora? Ou, se o marido não perguntou antes de decidir por todos, então que aprendesse sozinho a lidar com as consequências?

Casa da Encarnação