E, agora que João resolvera encerrar aquele “projeto” e saltar para outro, aparecia para cobrar o seu suposto valor de liquidação. Queria uma espécie de “paraquedas dourado” como prémio por ter sido marido dela durante dez anos.
Ana talvez tenha ficado quase uma hora sentada naquele banco. A chuva caía cada vez com mais força, mas ela já nem dava por isso. Dentro da sua cabeça, o turbilhão de mágoa, humilhação e raiva começou, pouco a pouco, a ser substituído por uma lucidez fria, quase técnica. Afinal, ela era jurista. E percebeu que não podia aceitar aquela guerra no terreno das emoções, onde João sempre soubera empurrá-la para a culpa com uma facilidade cruel. Tinha de levar a batalha para outro campo: o da lei, dos factos, dos documentos e das provas que não se dobram perante lágrimas nem chantagens.
Assim que chegou a casa, pegou no telefone e ligou ao advogado que tratava do divórcio.
— Carlos, boa tarde. Fala a Ana. Surgiu uma novidade. O meu ex-marido decidiu reclamar metade do apartamento que eu já tinha antes do casamento.
Do outro lado da linha fez-se um breve silêncio.
— Com que fundamento? — perguntou ele, por fim.
— Com o fundamento da “consciência” dele. E também porque, segundo diz, “contava receber a sua parte” — respondeu Ana, e pela primeira vez a ironia apareceu-lhe na voz.
— Estou a ver — suspirou o advogado. — Prepare-se, Ana. Isto vai tornar-se desagradável. Pela via jurídica ele tem poucas hipóteses, por isso vai tentar desgastá-la psicologicamente.
Carlos não se enganou. No dia seguinte, começou o ataque. Primeiro foi o próprio João a telefonar. Mudara de estratégia. Já não gritava, já não exigia. Agora vinha com a voz quebrada de quem queria despertar piedade.
— Ana, ontem passei dos limites. Falei de cabeça quente. Mas tenta compreender-me, estou desesperado. Fiquei sem nada. E tu… tu tens tudo. Não sentes nem um bocadinho de pena? Não somos duas pessoas estranhas uma à outra.
Ana desligou sem lhe responder. Uma hora depois, foi a mãe dele quem ligou.
— Ana, minha querida, como é que consegues fazer uma coisa destas? — choramingou a mulher. — O João contou-me tudo! Vais pô-lo na rua só com uma mala na mão! Ele não é um desconhecido! Pôs a alma naquela casa! Até uma prateleira instalou aí!…
A prateleira. Aquela prateleira transformou-se, de repente, no grande emblema das tais “melhorias inseparáveis” feitas por ele.
Com uma paciência que lhe custou imenso, Ana explicou à ex-sogra que o apartamento era um bem próprio dela e que tinha sido João a abandonar a família.
— Não tens coração — sentenciou a mulher, antes de bater com o telefone.
Depois vieram as investidas nas redes sociais. João começou a publicar textos carregados de indiretas vagas, mas transparentes para todos os conhecidos em comum. “É assustador quando o amor acaba e uma pessoa é posta na rua, como se tudo o que fez de bom tivesse sido apagado.” Ou ainda: “Há quem meça relações em metros quadrados.”
Aquilo não era desabafo. Era perseguição calculada, insistente, organizada. Ele queria destruir a reputação de Ana, pintá-la como um monstro sem gratidão, para que o seu pedido “nobre” — dividir o apartamento — parecesse mais legítimo aos olhos dos outros.
Ana não respondeu uma única vez. Seguindo a orientação do advogado, guardou tudo. Fez capturas de ecrã de cada publicação, arquivou mensagens, registou datas. E preparou-se. Foi buscar todos os documentos financeiros dos dez anos de casamento. Passou uma semana quase sem dormir, a compor o relatório mais minucioso da sua vida. Não era apenas uma folha de cálculo. Era a crónica do casamento deles traduzida em números.
A audiência ficou marcada para dois meses depois. Até lá, Ana viveu como quem resiste dentro de uma fortaleza cercada. Mas não cedeu.
Na sala do tribunal, João sentou-se à frente dela, ao lado do seu advogado. Tinha um ar seguro, quase satisfeito. O representante dele levantou-se e começou a enumerar as pretensões apresentadas na ação.
