Mas, naquele instante, eu já não tinha espaço dentro de mim para ternuras.
A partir daí, tudo começou a piorar de forma quase teatral. João passou a chegar a casa com sacos de restaurantes, como se fizesse questão de os exibir. Instalava-se à mesa da sala e comia sozinho, enquanto eu e Pedro ficávamos na cozinha a mastigar uma salada simples, daquelas feitas com o que ainda havia no frigorífico. O cheiro a asas fritas do KFC ou a pizza quente espalhava-se pelo apartamento inteiro. Pedro olhava para o pai com aqueles olhos de fome que cortam uma mãe ao meio, mas João nem sequer fingia lembrar-se de lhe oferecer um pedaço.
— Mãe, porque é que o pai não me dá pizza? — perguntou o meu filho baixinho, ao terceiro dia.
— Porque o pai tem o “dinheiro dele”, Pedro — respondi, passando-lhe a mão pelo cabelo. — E nós temos o nosso. Anda, vou fazer-te panquecas. Comprei farinha.
Foi nesse preciso momento que alguma coisa em mim se apagou de vez. Se um homem consegue sentar-se a devorar comida cara, sozinho, enquanto o próprio filho come panquecas sem nada, então esse homem não é marido. Também não é pai. É apenas um parasita dentro de casa.
A rutura chegou na sexta-feira. Voltei do trabalho e encontrei, na caixa do correio, um recibo. Entrega de uma loja de eletrónica de luxo. Em nome de João. O valor: quatrocentos euros. Um monitor novo para jogos.
Entrei em casa. João estava na sala, ajoelhado junto a uma caixa enorme, a rasgar embalagens com uma excitação infantil. Tinha os olhos a brilhar.
— Olha só para isto! — disse ele, esquecendo-se por momentos de que estávamos em guerra. — Quatro K, uma taxa de atualização brutal. Agora é que vou jogar como deve ser.
— Quatrocentos euros, João? — pousei o recibo em cima da mesa. — Temos a prestação da casa do mês passado em atraso por trinta euros porque tu “não conseguiste dar mais”. O Pedro precisa de aparelho nos dentes, o dentista foi claro. E tu compras um monitor?
— Lá estás tu outra vez! — crispou-se de imediato, como um gato eriçado. — Andei três meses a juntar para isto. Do meu ordenado. Tenho direito!
— Tens — concordei, com uma calma que até a mim me assustou. — E eu tenho o direito de não viver com alguém que rouba o futuro ao próprio filho.
— Rouba? Mas que raio estás tu para aí a dizer?
Não lhe respondi. Fui diretamente ao hall, agarrei no saco de desporto dele, aquele que levava para o ginásio, e comecei a atirar lá para dentro as suas coisas. Uma a uma, sem pressa. Camisas arrancadas dos cabides, T-shirts, meias, calças.
— Ei! Que estás a fazer? — apareceu ele no corredor, de braços no ar, completamente desorientado. — Põe isso no sítio! Enlouqueceste?
— Não, João. Pelo contrário. Acho que acabei de recuperar a lucidez. Tens quinze minutos para levar o resto. Vais para casa da tua mãe. Ela adora-te, dá-te de comer e ainda há de bater palmas ao teu monitor.
— Tu não me podes pôr fora! Eu moro aqui! — tentou avançar na minha direção, como se me fosse empurrar, mas bastou eu encará-lo para ele travar.
— A casa era minha antes do casamento, João. Aqui, juridicamente, não és dono de nada. E essa tua morada não te protege tanto como pensas. Amanhã trato de tudo pelos meios legais. Agora sais. Se não saíres, chamo a polícia e digo que há uma pessoa a recusar abandonar a minha casa.
— Tu… tu ainda te vais arrepender! — rosnou ele, enfiando o saco ao ombro. Depois, claro, meteu também o monitor lá dentro. Prioridades, não é? — Quando não tiveres dinheiro para comprar o equipamento da escola do Pedro, vais vir rastejar até mim!
Fechei a porta atrás dele e rodei a chave. Uma vez. Duas. Clique. Clique.
