“o meu ordenado é dinheiro meu” — disse João, desencadeando uma disputa enquanto Ana esfregava a mancha no azulejo, sufocando a raiva

Histórias
O egoísmo constante é cruel e revoltante.

Só então consegui respirar.

A primeira coisa que fiz foi ligar a um serralheiro. Uma hora depois, a porta já tinha fechaduras novas. O som seco do metal a encaixar deu-me mais calma do que qualquer comprimido.

Depois sentei-me na cozinha. A casa estava estranhamente sossegada. Até os vizinhos de cima, por milagre, tinham parado de furar paredes. Pela janela entrava uma lua pálida, quase sem força.

Peguei na calculadora. Vamos lá: setecentos euros. Trezentos e cinquenta para a prestação da casa. Sobram trezentos e cinquenta. A pensão de alimentos… o João trabalha com contrato, portanto, pelo tribunal, hei de conseguir tirar-lhe uns cento e cinquenta, talvez duzentos euros. No total, quinhentos e cinquenta. Para mim e para o Pedro.

E querem saber uma coisa? Era mais do que me ficava quando eu alimentava aquele brutamontes. Já não tenho de comprar quilos e quilos de carne todas as semanas. Já não preciso de pagar a conta do telemóvel dele, nem a internet que ele dizia ser “essencial”. Já não sou obrigada a ouvir as lamentações dele sobre como a vida era difícil enquanto eu pagava tudo.

— Mãe… — o Pedro apareceu à porta do quarto, a esfregar os olhos com os punhos. — O pai foi-se embora?

— Foi, meu amor. O pai foi para casa da avó. E não volta a viver aqui.

Ele ficou calado por uns segundos.

— Então… agora vamos ser pobres?

Apertei-o contra mim.

— Vamos ser livres, querido. E isso vale muito mais. Além disso, amanhã há dinheiro para pizza, prometo.

Abrasei o meu filho com força. Estava tão magrinho, tão pequeno nos meus braços, que uma raiva funda me atravessou por dentro. Raiva do João. Raiva de mim também. Como é que eu aguentei aquilo tantos anos? Como é que permiti que ele tirasse do prato do meu filho para encher o dele?

No dia seguinte, iria procurar um advogado. Divórcio e pensão de alimentos, tudo de uma vez. Depois, banco. Talvez conseguisse renegociar o crédito da casa, alongar o prazo, baixar um pouco a prestação mensal. Ia ser duro? Claro que ia. Para ser sincera, nem sei como vou pagar o inglês do Pedro no próximo mês.

Mas vou dar a volta. As mulheres são feitas de uma matéria teimosa. Parecemos ervas daninhas: pisam-nos, arrancam-nos, cobrem-nos de cimento, e mesmo assim encontramos uma fenda por onde nascer.

Fui ao quarto. Do lado dele da cama ainda pairava o cheiro daquele perfume barato que usava em excesso. Arranquei os lençóis, enrolei tudo numa bola e enfiei na máquina no programa mais longo. Que saísse dali tudo: o cheiro, as lembranças, a humilhação colada à pele.

No roupeiro, de repente, havia espaço a mais. Pendurei os meus vestidos, aqueles que antes ficavam esmagados num canto, quase envergonhados de existir. Eram bonitos, coloridos. Amanhã vou vestir um deles. Sem motivo nenhum. Só porque sim. Só por mim.

O João já tinha ligado umas vinte vezes. A Carolina mandou uma mensagem: “Ana, estás a cometer um grande erro. O homem é o chefe da família. Pensa no teu filho!”

Pensei, Carolina. Foi precisamente nele que pensei. O seu menino querido já não vai comer à custa do meu filho.

Apaguei a luz e deitei-me. Pela primeira vez em muito tempo, não senti aquele nó habitual preso na garganta. A casa cheirava a roupa lavada e ao meu ambientador de lavanda preferido.

Amanhã começaria outra vida. Difícil, contada ao cêntimo, cheia de contas, cortes e escolhas. Mas seria a minha vida. Sem o “dinheiro pessoal” de um homem estranho a ocupar a minha cama.

Fechei os olhos. Ao longe, uma sirene passou, depois o ruído de um carro perdeu-se na rua. A cidade adormecia. E eu adormeci com ela, sabendo que, de manhã, acordaria dona do meu destino. E do meu frigorífico.

E vocês, aceitariam sustentar um marido com o vosso salário?

Casa da Encarnação