O choque cedeu lugar a uma raiva compacta, voraz, daquelas que precisam de encontrar imediatamente por onde rebentar. E, naquele momento, o único alvo ao alcance de Helena era a própria filha.
— Cala-te, parasita! — rosnou, avançando para o cadeirão. — Passas os dias aí sentada, sem mexer uma palha! Isto é tudo por tua causa! Se servisses para alguma coisa, se ao menos lavasses um prato de vez em quando, eu não tinha de pedir favores a essa… a essa arrivista! Transformaste a minha casa numa pocilga, e ainda sou eu que tenho de andar a limpar atrás de ti?
— Eu não te pedi para lhe telefonares nem para me humilhares! — explodiu Inês, saltando de pé. — Essas jogadas são tuas, mãe! Tu é que gostas de nos pôr uns contra os outros, de ficar a ver o Miguel dividido entre nós! Só que desta vez não calculaste que ele também se ia fartar! Agora é a minha roupa que ele ameaça pôr no lixo, não a tua!
Ficaram frente a frente, duas mulheres que, durante anos, tinham funcionado como uma só muralha contra o mundo exterior — e, acima de tudo, contra Catarina. Mas, depois de a inimiga comum ter atacado e recuado, a aliança entre ambas estalou. Pelas fissuras, veio ao de cima todo o desprezo acumulado, antigo, pegajoso, que uma escondia da outra sob a capa da cumplicidade.
A discussão foi cortada por um toque de campainha seco, insistente, quase agressivo. Soou tão alto que parecia que alguém esmagava o botão com a palma da mão inteira. As duas calaram-se de imediato e trocaram um olhar. O mesmo medo passou-lhes pelos olhos. Helena endireitou-se, respirou fundo e foi abrir, tentando compor no rosto uma expressão de sofrimento digno.
Miguel estava à porta.
Não vinha furioso no sentido habitual da palavra. Não gritava, não tinha o rosto deformado pela cólera, não fazia gestos bruscos. Pelo contrário: estava de uma calma absoluta. E isso era muito mais assustador do que qualquer acesso de raiva. O olhar frio e escuro percorreu o corredor, deteve-se por um instante na cómoda coberta de pó, passou pela irmã, imóvel no meio da sala, e por fim pousou na mãe. Não a cumprimentou. Não disse uma única palavra.
Entrou sem pedir licença e atravessou-as em silêncio, dirigindo-se para o interior da casa com uma determinação pesada.
— Miguel, meu filho, tu percebeste tudo mal! Foi aquela Catarina que… — começou Helena, atrás dele, mas ele nem sequer voltou a cabeça.
Foi direito ao quarto de Inês — o santuário da pequena princesa, o aposento intocado da menina que vivia à custa dele. Não perdeu tempo a observar a desordem. Aproximou-se do roupeiro, abriu as portas de par em par com um puxão e tirou de uma prateleira vários sacos pretos grandes, daqueles do lixo, comprados por Inês e nunca usados para nada. Com movimentos exatos, quase profissionais, começou a arrancar roupa dos cabides: vestidos, calças de ganga caras, blusas novas. Tudo ia parar aos sacos, sem hesitação.
— Miguel, que estás tu a fazer?! — guinchou Inês, correndo para ele. Agarrou-lhe o braço, tentando travá-lo. — Isso é meu! Perdeste o juízo?
Miguel olhou para ela como se não tivesse diante de si a própria irmã, mas apenas um inseto barulhento a importuná-lo. Sacudiu-lhe a mão com um único gesto e continuou. O segundo saco encheu-se de caixas de sapatos — pares novos, alguns ainda por estrear. O terceiro recebeu malas, estojos, frascos de cosmética, pequenas vaidades compradas com dinheiro que nunca lhe custara a ganhar.
— Meu querido, para com isso! Que te deu? Ela é tua irmã! A coitadinha tem o coração fraco! — lamentava Helena, agitando as mãos no ar com dramatismo, embora continuasse presa à soleira, sem coragem para se aproximar.
Quando o terceiro saco ficou cheio, Miguel fechou-o com um nó firme e deixou-o cair no chão com um baque surdo. Só então se endireitou e olhou para as duas.
— Achavam mesmo que isto ia durar para sempre? — perguntou, num tom baixo; ainda assim, a voz dele pareceu ocupar o quarto inteiro. — Pensavam que eu ia continuar a pagar este circo? A preguiça da Inês, as tuas manipulações, mãe, as vossas encenações todas?
Deu um passo na direção da irmã. Inês recuou instintivamente.
— Portanto, Inês, ouve bem. Até amanhã arranjas trabalho. Qualquer trabalho. Nem que seja a fazer limpezas. E começas a ajudar a mãe a sério, não apenas a fazer de conta. Se não, estes sacos vão contigo para um quarto alugado. Um quarto que vais pagar tu. De mim, não recebes mais dinheiro. Nem mais um cêntimo.
Depois virou-se para Helena.
— E tu, mãe… está na altura de te habituares à ideia. Acabou-se o rapaz dos recados. Acabou-se a fonte de dinheiro grátis.
Não esperou resposta. Simplesmente deu meia-volta, atravessou o apartamento e saiu. A porta da entrada fechou-se atrás dele com um clique discreto, quase educado.
No quarto, ficaram duas mulheres, três sacos negros e um roupeiro devastado. Aqueles volumes no chão pareciam pequenos túmulos, e dentro deles jazia enterrada a vida cómoda que ambas tinham tomado por garantida.
Passaram três dias.
Três dias de um silêncio estranho, espesso, quase ensurdecedor. O telemóvel de Miguel não tocou. Não houve chamadas chorosas da mãe, nem mensagens passivo-agressivas da irmã a pedir “só mais uma ajudinha”. No apartamento de Catarina e Miguel instalou-se uma paz frágil, tão nítida que quase se podia tocar.
Jantavam juntos, falavam do dia, viam um filme à noite. Viviam a própria vida — e aquela normalidade simples sabia-lhes, pela primeira vez em muito tempo, a algo precioso e quase irreal.
