Nessa noite, fiquei sentada durante muito tempo no quarto às escuras, de olhos presos no teto. A memória, sem me pedir licença, começou a puxar-me para trás, para aqueles anos em que eu ainda acreditava que eu e João estávamos do mesmo lado.
Cinco anos antes, João tinha saído do emprego de forma ruidosa. Trabalhava como gestor numa empresa de instalação de janelas e estava convencido de que o seu génio estratégico era criminosamente ignorado. Segundo a versão dele, o diretor sentira-se ameaçado por tanto talento e tratara de afastar um funcionário brilhante. O que aconteceu de facto, nunca cheguei a saber. A partir daí, porém, começou a grande fase da “procura da vocação”.
Na altura, eu tinha um cargo de júnior numa agência de publicidade e, ao mesmo tempo, aceitava qualquer trabalho freelance que me aparecesse. Vivíamos num T1 arrendado, apertado e impessoal, e quase todas as noites eu chegava a casa com o portátil debaixo do braço para terminar projetos, enquanto o meu marido me esperava com ar ofendido e a expectativa de que o jantar surgisse por milagre.
— Já nem passas tempo comigo — queixava-se ele. — Para ti, o trabalho é mais importante do que o nosso casamento.
Eu tentava explicar-lhe que, se eu parasse, não conseguiríamos pagar a renda. Mas João descartava sempre esse argumento com um gesto irritado. Tinha uma teoria pronta para tudo: o mundo era injusto, as pessoas verdadeiramente talentosas deviam ser apoiadas, não obrigadas a lutar pela sobrevivência. E eu, enquanto mulher apaixonada, devia naturalmente tornar-me esse apoio.
Três anos antes, decidi criar o meu próprio negócio: uma agência de promoção para bloggers e criadores digitais. Nos primeiros seis meses, trabalhei dezoito horas por dia. Dormia aos bocados, esquecia-me de comer, vivia entre reuniões, contratos e campanhas entregues no limite. João ficava ressentido. Dizia que eu me tinha “obcecado com dinheiro” e que antes era diferente: mais leve, mais alegre, mais carinhosa. Não percebia — ou fingia não perceber — que essa mulher leve e alegre existira antes de todas as contas, créditos e ameaças de despejo terem caído em cima dos meus ombros.
Mas a recordação mais cruel era outra.
Um dia, voltei para casa mais cedo do que o habitual e apanhei-o ao telefone com a mãe.
— Mãe, a sério, não te preocupes. Ela trabalha que nem uma condenada. Eu nem preciso de me esforçar, ela carrega tudo sozinha. Havias de ver a cara dela quando digo que tive mais uma ideia genial. Acredita mesmo. Que idiota.
Naquele instante, fingi não ter ouvido nada. Fechei a porta com cuidado, saí para o patamar do prédio e fiquei ali meia hora, imóvel, a olhar para a parede. Porque não me fui embora nesse dia? Talvez porque ainda quisesse acreditar que tinha percebido mal. Ou talvez porque tivesse demasiado medo de admitir que, durante anos, eu não tinha sido amada: tinha sido usada.
Agora, sentada no escuro com a gravação da minha sogra guardada no telemóvel, permiti-me finalmente chamar as coisas pelo nome. O meu marido era um oportunista. A minha sogra era cúmplice dele. E eu era o recurso que ambos planeavam continuar a explorar, mesmo depois do divórcio.
Pois bem. Um recurso também se esgota.
Ou explode.
Durante as duas semanas seguintes, encenei com método a história da minha ruína financeira. Em casa começaram a aparecer alimentos baratos, de embalagens berrantes e marca branca. As garrafas de vinho desapareceram e foram substituídas por pacotes de sumo. O meu guarda-roupa reduziu-se a dois pares de calças de ganga e camisolas antigas, peças que eu já não tirava do fundo da gaveta desde os tempos da faculdade. João observava aquelas mudanças com uma inquietação crescente, embora ainda se mantivesse calado.
Quem perdeu a compostura primeiro foi Manuela.
Apareceu num sábado de manhã e entrou na sala sem sequer descalçar os sapatos. Sobre a mesa de centro, deixei propositadamente uma chávena de café solúvel, triste e aguado; segundo a versão oficial, já não me sobrava dinheiro para bom café de grão.
— Ana, eu compreendo tudo, são fases complicadas — começou ela logo à entrada —, mas isso não é desculpa para te abandonares. A casa está um caos, o frigorífico está vazio e o João está com uma cara que mete dó. Andas a deixá-lo passar fome?
— Manuela — respondi, cansada de propósito —, eu estou mesmo com problemas. A senhora sabe disso.
— Sei. E é precisamente por isso que venho oferecer uma ajuda prática. Vou levar, por enquanto, algumas coisas que nós vos demos. Tu, neste momento, nem lhes estás a dar uso como deve ser. Quando a tua vida estabilizar, devolvemos.
Por um segundo, achei que tinha ouvido mal.
— Que coisas?
— Ora, que coisas… O robot de cozinha que oferecemos quando vocês se mudaram. O aspirador. A televisão do quarto. Nós demos tudo de boa vontade, mas, se agora vais poupar em tudo, ao menos que os aparelhos fiquem bem guardados connosco.
Fiquei encostada ao aro da porta, sem mexer um dedo, enquanto a minha sogra enchia com eficiência os sacos que tinha trazido. Levou o meu robot de cozinha, comprado por mim, embora na caixa houvesse na altura um cartão assinado pela “família do João”. Depois arrancou da parede a televisão do quarto, que eu ainda estava a pagar em prestações, e colocou no corredor o aspirador.
Não a impedi. Limitei-me a endireitar o alfinete de peito preso à blusa e a fixar cada gesto, cada palavra, cada inflexão da voz dela.
— Vês? — disse Manuela no fim, lançando um olhar satisfeito aos cantos agora vazios. — E tu aí tão preocupada. Quando a família ajuda, tudo se torna mais simples. Telefona se precisares de alguma coisa.
Foi-se embora e deixou-me no meio da sala, com a sensação física de que a casa tinha sido saqueada.
João aguentou mais três dias do que a mãe.
Entrou na cozinha no momento em que eu, obedecendo ao plano, falava ao telefone com um suposto credor e pedia, num tom quase desesperado, mais uma semana de prazo.
— Ana, chega — atirou ele, deixando cair uma folha sobre a mesa. — Isto é o teu contrato com o banco por causa da casa. Fui à agência e descobri que há três meses de atraso. Três meses, Ana! Tens noção de que nos podem pôr na rua?
— Nos? — repeti, erguendo os olhos para ele.
— Sim, nos! Ainda estamos casados, caso te tenhas esquecido. As tuas dívidas também são minhas! Porque é que me fizeste isto? Foi de propósito, não foi? Como pedi o divórcio, decidiste arrastar-me contigo para um buraco?
— João, acalma-te…
— Cala-te tu e acalma-te tu! — gritou ele, agarrando-me pelo ombro. — Estragaste-me a vida inteira, ouviste? Por tua causa, nunca me realizei! Por tua causa, fiquei em casa como um criado, enquanto tu andavas feita importante nas tuas apresentações! Tu deves-me! Deves-me cada minuto de humilhação, cada olhar de lado, cada pergunta sobre “então e o teu marido trabalha em quê?”.
Os dedos dele apertaram-se com mais força. Senti a dor atravessar-me o braço e tentei libertar-me, mas João puxou-me para si com brusquidão.
— Se não tens dinheiro, vai ganhá-lo. Vende qualquer coisa. Vende um rim, se for preciso. Estou-me a lixar. Mas resolve as dívidas. Percebeste?
— Estás a falar a sério? — sussurrei.
— Completamente a sério. Sempre foste um homem de saia, portanto resolve isto como um homem. Eu já fiz a minha parte. Aguentei dez anos desta prisão.
Consegui soltar-me e recuei até encostar as costas à parede. Ele respirava pesado, com o rosto transtornado, mas não avançou outra vez. Talvez tivesse concluído que já me assustara o suficiente.
— Amanhã vou para casa da minha mãe. Fico lá uma semana. Até eu voltar, arranja uma solução. Caso contrário, avanço mesmo para tribunal com a partilha, e aí vais descobrir o que são problemas a sério.
Quando a porta da entrada bateu, deixei-me escorregar devagar pela parede até me sentar no chão. O ombro latejava; na pele, começavam a surgir marcas vermelhas onde os dedos dele se tinham cravado. E, no entanto, havia dentro de mim uma calma estranha, quase fria. A câmara escondida no alfinete tinha gravado tudo: as palavras, os movimentos, o aperto, a ameaça. O gravador pousado na prateleira da cozinha também.
Liguei a Catarina.
— Ele caiu. Tenho ameaças, agressão, pressão para eu vender um órgão. E também tenho a Manuela a levar os eletrodomésticos.
— Excelente — disse Catarina, soltando o ar devagar. — Prepara-te para o tribunal. Isto vai ser bonito.
Nas semanas seguintes, praticamente vivi fechada no escritório. A agência continuou a funcionar normalmente, e só um círculo muito reduzido sabia que crise nenhuma existia. Para o resto da equipa, eu era apenas uma diretora concentrada, a resolver assuntos correntes e a pedir que não me interrompessem com ninharias.
Foi num desses dias que alguém bateu à porta do meu gabinete.
Do outro lado estava Pedro Costa, dono de uma startup tecnológica com quem eu já me cruzara duas ou três vezes em conferências. Alto, de cabelo sempre desalinhado, usava uns óculos que perdia constantemente e depois encontrava nos sítios mais absurdos.
— Ana? Olá. Ouvi dizer que estás a atravessar uma fase complicada — disse ele, sem rodeios.
— Os boatos viajam depressa — respondi, com um sorriso breve. — Mas não te preocupes. Isso não vai afetar o meu trabalho.
— Não vim por causa disso. Vim propor-te uma parceria. Temos um projeto novo, uma plataforma para microinfluenciadores, e precisamos de alguém com experiência real em promoção. Tu encaixas perfeitamente.
Olhei para ele com desconfiança.
— Sabes que estou a passar por um divórcio e que tenho uma montanha de problemas em cima?
— Sei.
