Esses planos, porém, começaram a mostrar a sua verdadeira forma muito depressa.
Etapa 6. O vazio que não dá alegria
A mudança ficou marcada para o último dia do mês.
Os homens das mudanças levaram as caixas, o sofá, a bicicleta da Inês, as cadeiras da cozinha, a máquina de lavar que Ana e João tinham comprado com o próprio dinheiro. No apartamento antigo ficaram apenas as paredes despidas, um roupeiro velho que nunca fora deles, o fogão e aquele cheiro parado a pó acumulado.
Maria apareceu para receber as chaves.
Entrou, deu dois passos e imobilizou-se no meio do corredor.
— Onde está o frigorífico? — perguntou.
— Era nosso. Levámo-lo.
— E a máquina de lavar?
— Também era nossa.
— E o sofá da sala?
— Fomos nós que o comprámos.
A sogra avançou até à divisão principal. A sala parecia maior, mas de uma maneira triste. No chão viam-se retângulos mais claros, marcas deixadas pelos móveis que ali tinham estado durante anos. Ana olhou em redor e, pela primeira vez, viu aquele apartamento como ele devia ter sido antes de se tornar a casa deles: não um lar, apenas metros quadrados.
— Vocês levaram tudo? — a voz de Maria falhou, entre a indignação e o espanto.
João respondeu com um cansaço seco:
— Mãe, trouxemos aquilo que era nosso.
— E como é que alguém vai viver aqui agora?
Ana encarou-a sem levantar a voz.
— A senhora não queria poder decidir o que fazer com o apartamento?
Maria empalideceu.
— Eu pensei que deixassem pelo menos o essencial.
— Ficou tudo o que lhe pertence.
Beatriz, que tinha vindo com a mãe, espreitou para dentro da cozinha. A expressão dela mudou de imediato.
— Mãe, eu aqui não fico. Isto está vazio.
Maria virou-se para ela de forma brusca.
— E tu imaginavas o quê?
— Bem… achei que eles deixassem a mobília. E que a casa estivesse em condições. Eu preciso de abrir o ateliê, não de me meter em obras.
João soltou uma pequena gargalhada. Não foi uma gargalhada cruel. Foi amarga.
— Afinal, era esta a grande ajuda à família.
Ana pousou as chaves no parapeito da janela.
— Está tudo livre, como pediu.
Etapa 7. Uma porta nova
O apartamento novo recebeu-os com cheiro a tinta fresca e a pó de obra, mas Inês corria de uma divisão para a outra como se tivesse entrado num palácio.
— Este quarto é meu? Mesmo meu?
— É teu — disse João. — Só temos de escolher o papel de parede juntos.
Ana sentou-se numa caixa, no meio da cozinha ainda por montar, e começou a chorar. Não era tristeza. Era o corpo a largar, de uma vez, toda a tensão acumulada. João sentou-se ao lado dela e passou-lhe um braço pelos ombros.
— Estamos em casa — murmurou ele.
— Com um empréstimo para os próximos vinte anos.
— Mas sem ultimatos.
Riram e choraram ao mesmo tempo.
As primeiras semanas foram duras. Dormiam num colchão no chão, comiam apoiados em caixas, passavam meia hora à procura do sal, discutiam se as cortinas deviam ser claras ou escuras. Ainda assim, todas as noites, quando Ana fechava a porta com a sua própria chave, sentia uma paz que há muito não entrava na vida dela.
Maria, no início, não telefonou. Depois ligou a João.
— O apartamento está gelado. É preciso mudar as janelas.
— Nós mudámos as do quarto e as da Inês, mãe. Com o nosso dinheiro. Na cozinha e na outra divisão, na altura, disseste que estava tudo perfeitamente bem.
— Então deviam ter feito tudo até ao fim!
— Não.
Aquele “não”, tão curto, era uma palavra nova para João. Difícil de dizer, mas necessária.
Do outro lado, Maria desligou.
Etapa 8. Um ateliê sem dinheiro dos outros
Dois meses depois, Beatriz acabou mesmo por abrir o ateliê. Não foi no espaço movimentado perto do mercado, como tinha sonhado, mas num cantinho pequeno, anexado a uma lavandaria. O dinheiro veio de Maria: levantou parte das poupanças, vendeu o carro antigo do marido já falecido e ainda pediu emprestado a uma vizinha.
No primeiro mês, Beatriz encheu o grupo da família com fotografias da placa à porta e mensagens de clientes satisfeitas. No segundo, começou a queixar-se da renda. No terceiro, dizia que as pessoas queriam tudo “barato e para ontem”. No quarto, descobriu que os impostos, afinal, eram “absurdamente altos”.
Ana não comentou uma única vez.
Certo dia, João mostrou-lhe uma mensagem da mãe:
“Se vocês tivessem dado aqueles seis mil euros, a Beatriz podia ter começado como deve ser. Assim anda ali a sofrer.”
Ana sorriu de lado, sem humor.
— Ou seja, a culpa continua a ser nossa.
— Claro — respondeu João. — Não financiámos um sonho sem plano de negócio.
Ele escreveu à mãe:
“Desejamos sucesso à Beatriz, mas não vamos voltar a discutir o nosso dinheiro.”
A resposta chegou quase de imediato:
“Tu tornaste-te um estranho.”
João ficou muito tempo a olhar para o ecrã. Depois apagou a mensagem.
— Doeu? — perguntou Ana.
— Doeu. Mas antes doía mais, quando eu tentava ser bom para toda a gente menos para vocês.
Ana segurou-lhe a mão.
