“Se não querem comportar-se como família, no fim do mês deixam a casa livre” — disse Maria, decretando um ultimato que silenciou a mesa e forçou Ana a levantar-se com a filha

Histórias
Essa chantagem é desesperadamente cruel e injusta.

Nessa mesma noite, Inês apareceu na sala com uma folha nas mãos.

Tinha desenhado a casa nova: paredes tortas, janelas enormes, três figuras lá dentro e, por baixo, em letras ainda inseguras, escreveu:

“Daqui ninguém nos manda embora.”

Ana leu a frase uma vez. Depois leu outra. Não disse nada. Guardou o desenho dentro da pasta onde estavam os documentos do apartamento.

Etapa 9. A casa vazia à procura de inquilinos

Maria tentou pôr o antigo apartamento para arrendar.

Só que, sem mobília, com obras feitas pela metade e uma cozinha já cansada pelo tempo, as visitas não corriam como ela esperava. As pessoas entravam, olhavam em volta, perguntavam duas ou três coisas e iam-se embora sem prometer resposta.

Um rapaz novo, mais direto do que os outros, disse-lhe à saída:

— Por este valor, pelo menos um frigorífico devia estar incluído.

Maria sentiu-se ofendida. Pouco depois ligou a João.

— Podiam ter deixado o frigorífico lá até as coisas melhorarem. Para vocês já era velho.

— Mãe, nós estamos a usá-lo.

— Compravam outro.

— Com que dinheiro?

— Ora, se têm crédito à habitação, é porque o banco confia em vocês.

João fechou os olhos por um instante, como se precisasse de reunir paciência antes de responder.

— Mãe, agora não posso falar. Estou ocupado.

Enquanto isso, Ana colava autocolantes nas prateleiras novas com Inês. Ouvia a conversa ao longe, mas já não sentia aquela raiva antiga a subir-lhe ao peito. Antes, telefonemas assim estragavam-lhe a noite inteira. Agora pareciam apenas barulho vindo do apartamento ao lado.

Uma semana depois, Maria apareceu à porta deles sem avisar.

Desta vez, porém, ninguém a deixou entrar de imediato. João abriu apenas com a corrente posta.

— Mãe, devia ter telefonado antes.

Ela ficou paralisada, como se não tivesse entendido a frase.

— Eu sou tua mãe.

— E, mesmo assim, devia ter ligado.

Maria espreitou por cima do ombro dele. Viu o hall claro, o papel de parede novo, as botinhas de Inês junto à parede. Mais atrás, Ana mantinha-se em silêncio, tranquila, sem se esconder nem se justificar.

— Eu só queria ver como vocês se instalaram.

— Agora não dá jeito.

O rosto de Maria perdeu a cor.

— Vais deixar-me aqui à porta?

João respondeu sem levantar a voz, mas sem recuar:

— Estamos a aprender a viver na nossa casa, com as nossas regras.

Depois fechou a porta.

Ana aproximou-se devagar e pousou-lhe a mão no ombro.

— Conseguiste.

— Por pouco.

— Mas conseguiste.

Etapa 10. Quem ficou no apartamento vazio

Quando chegou a primavera, o antigo apartamento continuava quase deserto. Maria passava lá algumas noites, sobretudo quando vinha à cidade tratar de assuntos, mas acabava sempre por regressar depressa à casa de campo. Beatriz recusou de vez a ideia de morar ali.

— Fica longe do atelier e é deprimente — disse ela, sem rodeios.

Maria ficou, enfim, com aquilo por que tanto tinha lutado: um apartamento sem inquilinos, sem móveis, sem o riso da neta na cozinha, sem as despesas pagas pontualmente por João e Ana, sem o filho disponível para atender todas as chamadas à primeira.

Um dia, contra o hábito, ligou a Ana.

— A Inês tem saudades? — perguntou de repente.

Ana olhou para a filha, sentada à secretária nova, concentrada nos trabalhos da escola.

— Está a habituar-se.

— Eu gostava de ver a minha neta.

— Fale com o João. Combinem com antecedência.

Do outro lado, houve um silêncio curto.

— Ana… naquele dia exaltei-me.

Não era um pedido de desculpa. Ainda não. Mas também já não era uma ordem.

— Sim, Maria. Exaltou-se.

A sogra ficou calada durante alguns segundos.

— Eu pensei que vocês se assustassem.

Ana fechou os olhos. Finalmente. Ali estava a verdade, sem enfeites.

— Nós assustámo-nos. Só não da maneira que a senhora esperava.

Quando a chamada terminou, Ana foi até à varanda. Lá em baixo, o pátio fervilhava com vozes, passos e portas a bater. No quarto, Inês ria-se de qualquer coisa. Na cozinha, João remexia gavetas e perguntava onde tinham guardado o abre-latas.

A vida deles não se transformara num conto fácil. A prestação do crédito pesava todos os meses. As obras continuavam a consumir dinheiro. A relação com a mãe de João permanecia frágil, cautelosa, fria em muitos momentos. Mas, agora, as dificuldades eram deles. Não vinham embrulhadas nas condições de outra pessoa.

Ao fim da tarde, João fez chá e sentou-se ao lado de Ana.

— A minha mãe admitiu alguma coisa?

— Quase. Disse que achava que nós íamos ter medo.

Ele sorriu, triste.

— E tivemos medo. Tanto que comprámos uma casa.

— O melhor susto da nossa vida.

João riu-se, desta vez com leveza.

Ana olhou para as chaves pousadas na taça junto à entrada. Ninguém podia voltar a dizer-lhes: “No fim do mês saem.” Ninguém podia transformar as economias deles numa taxa familiar obrigatória. Ninguém podia chamar amor a uma ajuda que vinha acompanhada de ultimatos.

E, no antigo apartamento, ficou apenas Maria.

Com divisões vazias.

Com o espaço onde antes havia um frigorífico.

E com a descoberta tardia de que, às vezes, ao expulsar alguém da própria casa, acaba-se por expulsar também o calor da própria vida.

Casa da Encarnação