“Por sua causa, eu e o João estamos prestes a divorciar-nos” — Ana explode na porta e deixa Maria em choque

Histórias
A invasão bem-intencionada revelou consequências terríveis e injustas.

Não lhe apeteceu ficar a remoer hipóteses. Se havia uma mentira para apanhar, mais valia apanhá-la pelo colarinho.

Esperou pela hora a que João costumava sair do trabalho e, sem pressas, dirigiu-se ao endereço escrito no papel. Entrou no prédio atrás de uma mulher que a examinou de lado, desconfiada, e subiu até ao quarto andar. Porta quarenta e três. Tocou à campainha. Depois, sem paciência para delicadezas, afastou-se um passo e começou a bater com o pé na porta, com força.

— Abre! Eu sei que estás aí dentro!

Sabia, pois claro. O carro do filho estava estacionado cá em baixo.

A porta abriu-se e apareceu João. Trazia no rosto uma mistura miserável de espanto e pânico.

— Mãe? Tu… como é que…

Maria não respondeu. Limitou-se a encará-lo. Por trás dele, surgiu a rapariga. Nova, novíssima, vinte e dois anos, se tanto. Lábios carnudos, cintura estreita, cabelo comprido a cair-lhe quase até à cintura. Vestia um robe curto, tão curto que mal lhe tapava as ancas. Uma visão de revista, pensou Maria com amargura.

A rapariga esboçou um sorriso envergonhado e até corou.

— Boa tarde… procura alguém?

João ficou vermelho até às orelhas e conseguiu apenas murmurar:

— É a minha mãe.

O sorriso da rapariga apagou-se no mesmo instante.

— Ah.

Maria não desperdiçou nem mais um segundo. Agarrou João pela gola da camisa, fê-lo rodar e empurrou-o para o patamar com uma violência que o deixou sem reação. Ele nem tentou resistir, tão atordoado estava.

— Mãe, vamos falar…

— Cala-te!

Apanhou os sapatos dele do chão e atirou-lhos contra as costas. Só então se virou para a rapariga, que agora a fitava com verdadeiro terror.

— E tu ouve-me bem, minha linda. Ele tem mulher. E tem três filhos. O mais velho tem sete anos, o mais novo ainda nem meio ano fez. Sabias disso?

A rapariga recuou, encostando-se à parede.

— Eu… ele disse que se ia divorciar…

— O João diz muita coisa. E tu, quando te meteste na cama com ele, pensaste com quê, exatamente? Com a cabeça não foi, de certeza.

— Mãe, chega! — gritou João do patamar, enquanto tentava enfiar os sapatos à pressa.

— Tu fechas a boca! — Maria nem sequer olhou para ele. Aproximou-se mais da rapariga, quase colando-se-lhe à frente. — Fica avisada, menina. Mesmo que ele largue a mulher hoje e decida ficar contigo, isso não muda nada. Para mim, tu não existes. Não te reconheço, não te recebo, não vou a casamento nenhum, não quero ver filhos teus e nem à minha porta te deixo chegar. E se voltares a aproximar-te dele, eu faço-te a vida num inferno. Entendeste?

A rapariga começou a chorar. As lágrimas corriam-lhe pela cara e os soluços saíam-lhe pequenos, abafados, como os de uma criança assustada. Maria, porém, não sentiu pena nenhuma.

— Se voltares a ligar-lhe, ou se ele puser os pés aqui outra vez, depois não digas que não foste avisada. Onde é que te queres meter? Um homem com três filhos! Não tens problemas suficientes? Pois eu arranjo-te alguns.

Virou-lhe as costas, agarrou João pelo ombro e praticamente o arrastou escadas abaixo. Maria respirava com dificuldade, tomada por uma fúria que parecia ocupar-lhe o peito inteiro. Ao chegarem ao segundo andar, sentou-se no parapeito da janela do patamar para recuperar o fôlego. João ficou à sua frente, de cabeça baixa, como um miúdo apanhado a fazer asneira.

— Escuta-me com muita atenção — disse ela, num tom baixo, mais perigoso do que um grito. — Se voltas aqui, não te queixes das consequências. Vais endireitar a tua vida com a tua mulher. Não vais andar atrás de saias como se fosses solteiro. Percebeste?

— Mãe, eu não consigo continuar assim — respondeu João, quase num sussurro, desviando o olhar. — Eu já não amo a Ana há muito tempo. Entre nós não há paixão, não há nada. Vivemos como dois vizinhos. Ela só cozinha, trata dos miúdos, limpa a casa… e eu também tenho direito a querer alguma coisa.

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