— E eu quero que ela tenha um marido — cortou Maria, sem lhe dar espaço para terminar. — Quero que os meus netos cresçam com o pai dentro de casa. Tu não fazes ideia, João, do que é ficar sozinha. Eu criei-te assim.
— Isso não tem nada a ver! — João ergueu a voz, irritado. — Tu…
— Eu, não. Tu é que estás a ficar igual ao teu pai — atirou ela, dura. — A diferença é que ele bebia, e tu trais. Mas, no fundo, é a mesma cobardia: fugir às responsabilidades. Achas que para ti é pesado? E para ela, é leve? Três crianças pequenas, a casa às costas, sem apoio nenhum. Já tentaste ajudar? Dar-lhe dinheiro para o que faz falta, em vez de o gastares com uma cara bonita?
João calou-se. Baixou a cabeça, como se cada palavra lhe tivesse caído em cima.
— Estou cansado — murmurou. — Só isso. Estou mesmo cansado.
— Não gostas de ver a tua mulher esgotada? Pois claro, a culpa deve ser dela — continuou Maria, sem suavizar o tom. — Não devia ter tido três filhos teus, não era? Logo tu, que lhe juravas amor eterno. Se a vida dela tivesse sido outra, talvez agora estivesse numa praia qualquer, deitada ao sol, em vez de andar de robe velho, cabelo preso à pressa, a lavar crianças, cozinhar e limpar enquanto tu te divertes com essa…
João deixou-se cair num degrau e tapou o rosto com as mãos.
— Eu não sei o que hei de fazer.
Maria, pelo contrário, sabia muito bem o que podia acontecer dali para a frente. Via tudo com uma clareza dolorosa: Ana pediria o divórcio, pegaria nos filhos e talvez fosse para casa dos pais, noutra cidade. João acabaria por voltar para debaixo da asa dela enquanto resolvessem a questão da casa. E depois? Iria continuar a trazer mulheres daquelas? Interesseiras, vazias, prontas a sugar-lhe o pouco juízo que ainda restava?
— Eu sei — disse ela, finalmente. — Vais ficar com a tua mulher até os teus filhos crescerem. Não gostas? Aguenta. Foste tu que escolheste esta vida. Antes do casamento, perguntei-te dezenas de vezes se tinhas a certeza, se estavas preparado. Agora sê homem. Ajuda a Ana. Ocupa-te dos teus filhos. E se a culpa foi minha por não te ter educado como devia, então ainda vou a tempo de corrigir isso. Este fim de semana vens cá com as crianças. Levo-os ao jardim zoológico. A Ana fica em casa a descansar.
— Estás a falar a sério? — João levantou o rosto, incrédulo. — Eles são pequenos!
— E depois? Também és pai, não és? Ou só ela é que tem essa função? E mais: hoje mesmo entregas o cartão à tua mulher.
— Mãe, não! — protestou ele, endireitando-se. — Não mandes em mim. Eu já não sou nenhum miúdo.
— Não és? — Maria estreitou os olhos. — A Ana nem umas cuecas novas consegue comprar sem fazer contas, e tu andas a pagar casa a outra? Pois vais aprender. Ficas sem dinheiro na mão, e logo desaparecem essas admiradoras de maridos alheios. E se pensas que podes ignorar-me, conheces-me mal. Faço com que todos saibam o que andas a fazer. E, se for preciso, ajudo-te a perder o emprego. Vergonha não me falta para te dar.
Ficaram sentados nas escadas mais meia hora. Maria falou quase sem parar; João ouviu em silêncio, cada vez mais encolhido dentro de si. Já perto do fim, perguntou, com uma tristeza de rapaz castigado:
— Mãe… vais mesmo vigiar-me para eu não voltar a trair?
— Vou — respondeu ela, sem hesitar. — Não quero ver os meus netos crescerem numa família partida. Isso chega-te como explicação?
Um ano depois, Maria estava sentada à mesa da cozinha do filho. Na sala, as crianças corriam felizes com os brinquedos que ela lhes trouxera. Ana embalava o mais novo ao colo, e João descascava batatas junto ao lava-loiça.
— Então, contem-me lá: quais são os planos para a passagem de ano?
— Ficamos em casa — respondeu o filho, com naturalidade. — O Ano Novo é para passar em família.
Falaram da ceia, dos miúdos, das compras que ainda faltavam. Depois a conversa desviou-se para uma loja nova que abrira ali perto, a poucas ruas do prédio. Assuntos simples, domésticos, quase banais. Daqueles que, vistos de fora, parecem sem graça, mas que seguram uma casa por dentro.
Maria sorriu em silêncio. Sabia que João já não procurava aquela rapariga. Passara a chegar mais cedo, a brincar com os filhos, a dividir tarefas. Ana, com apoio e com o cartão de volta, parecia outra mulher: mais leve, mais cuidada, mais viva. De vez em quando até contratava uma ama por algumas horas, só para respirar.
A paz regressara àquela família. E Maria, ao vê-los ali, compreendeu que tinha feito bem em meter-se antes que fosse tarde demais.
