“Da tua conta-poupança” disse João com ar condescendente, deixando Ana em choque junto ao lava-loiça

Histórias
Exigência mesquinha destruiu a confiança que parecia inquebrável.

O estrondo foi tão seco que, no aparador, os copos de cristal soltaram um tilintar aflito.

Ana ficou sozinha. Desligou o bico do fogão, sentou-se devagar no banco da cozinha e escondeu o rosto entre as mãos. Não chorou. Nem sequer lhe vieram lágrimas. O que sentia era outra coisa: um cansaço enorme, pesado como chumbo, e um vazio espesso, difícil de respirar. Uma prova. Ele tinha acabado de lhe impor uma prova de lealdade — com o preço de oito mil euros.

Permaneceu assim perto de uma hora. A tarde foi escurecendo aos poucos, derramando pela cozinha uma luz baça, acinzentada. Quando se levantou, não acendeu nenhuma lâmpada. Limitou-se a percorrer a casa em silêncio.

No hall continuavam alinhados os sapatos de couro caríssimos que João comprara no mês anterior, com a desculpa de que no emprego exigiam apresentação impecável. Na casa de banho, a prateleira estava cheia dos seus aftershaves e loções de marca, pagos com o cartão de Ana numa ida conjunta ao supermercado. No quarto, em cima da mesa de cabeceira, jazia uma fatura da oficina, também ela pesada: tinha mudado os pneus do carro.

Ana aproximou-se da janela e encostou a testa ao vidro frio. Lá em baixo, na avenida, os carros passavam apressados, os candeeiros já iluminavam os passeios, as pessoas seguiam para casa, para as suas famílias. E ela, afinal, não tinha família nenhuma. Tinha apenas um homem instalado debaixo da sua asa, confortável, aquecido, protegido — até ao momento em que precisou de lhe abrir o mealheiro e despejá-lo.

A noite arrastou-se sem sono. Ana ficou deitada na cama vazia, a ouvir o tique-taque do relógio da sala. João não voltou. Nem ao serão, nem de madrugada. Provavelmente fora para casa do filho, ou então para junto de algum amigo, lamentar-se da mulher fria, egoísta e interesseira que o destino lhe dera.

De manhã, a decisão surgiu sem esforço. Límpida, dura, incontestável. Não veio acompanhada de gritos, nem de vontade de vingança, nem de qualquer impulso teatral. Era apenas a constatação de um facto: a doença avançara demasiado, já não havia tratamento possível; restava cortar.

Preparou um café forte. Depois foi buscar ao alto dos armários duas malas grandes de plástico rígido e um saco de desporto espaçoso. Abriu tudo sobre a cama do quarto e começou, com uma calma quase cirúrgica, a arrumar os pertences de João.

Dobrou as camisas uma a uma, apertando antes os botões para que as golas não se deformassem. Enrolou as gravatas em pequenos cilindros perfeitos. No fundo das malas pôs as camisolas mais grossas, as calças de ganga, as peças pesadas. Para o saco seguiram os ténis, os sapatos e os chinelos de casa. Da prateleira da casa de banho desapareceram frascos, lâminas, cremes, loções. Até o creme para engraxar sapatos e as escovas suplentes, guardados no armário do corredor, ela recolheu sem se esquecer.

Não faria cenas. Não levantaria a voz. Não suplicaria explicações. As malas à porta seriam resposta bastante. Quando acabou, levou a bagagem para o corredor e colocou-a junto à entrada. Ao lado, deixou as chaves da casa, aquelas que ele, por hábito, abandonava na mesinha do espelho sempre que saía furioso, certo de que poderia regressar quando lhe apetecesse.

Perto do meio-dia, a chave girou na fechadura. João entrou no hall. Trazia consigo um cheiro a tabaco velho e a álcool da noite anterior. Pelos vistos, afogara as mágoas com companhia. Descalçou-se, ergueu a cabeça e ficou suspenso. À sua frente erguia-se uma barricada de malas.

Primeiro veio a incompreensão. Depois, o espanto. Por fim, instalou-se-lhe nos lábios um sorriso condescendente. Atirou as chaves para a consola e cruzou os braços sobre o peito.

— Mas que teatrinho é este, Aninha? — perguntou, com uma paciência falsa. — Resolveste brincar às meninas ofendidas? Estás a transformar uma discussão numa tragédia. Acalma-te, desfaz as malas. Ontem excedi-me, admito. Estava de cabeça quente. Vamos falar como pessoas adultas. Encontrei outra maneira de resolver o problema do Pedro.

Ana apareceu à porta da cozinha. Vestia umas calças simples de estar em casa e um casaco de malha largo, confortável. O rosto, porém, estava sereno de uma forma quase desconcertante.

— Já não temos nada para conversar, João — disse ela, num tom plano, firme, sem tremor. — Juntei tudo o que é teu. Confirma. Se me tiver esquecido de alguma coisa, avisa-me e eu mando por estafeta.

O sorriso desapareceu-lhe da cara. Só então percebeu que aquilo não era uma encenação.

— Tu perdeste o juízo? — avançou um passo, mas a mala maior bloqueou-lhe o caminho. — Por causa disto?

Casa da Encarnação