“A minha mãe já tem idade. Aguenta mais um bocadinho, ela não vai ficar cá para sempre” disse João, enquanto Ana descobria uma câmara escondida na cozinha

Histórias
Vigilância traiçoeira e repugnante, confiança destruída.

Dormia mal. Revirava-se na cama durante a noite, levantava-se para beber água e ficava longos minutos parado junto à janela, a olhar para a escuridão como se procurasse ali alguma resposta.

— Será que há outra mulher? — pensou Ana.

E, de repente, uma tristeza pesada caiu-lhe em cima.

Numa manhã, ao procurar frascos no armário da cozinha, Ana reparou que a pasta tinha desaparecido. Afastou todas as embalagens, espreitou as prateleiras ao lado, tirou latas, voltou a pôr tudo no sítio. Nada. E ela lembrava-se perfeitamente: fora João quem a guardara ali, à sua frente.

À noite, quando o encontrou no sofá, mais uma vez mergulhado no telemóvel, decidiu perguntar sem rodeios:

— A pasta com os documentos da casa desapareceu — disse, com a inquietação a apertar-lhe a voz. — Mudaste-a para outro sítio?

João nem sequer ergueu a cabeça.

— Talvez tenha mudado… Depois procuro.

Ana virou-se para a janela. Lá fora, o dia já se apagava. Dentro dela, porém, a certeza tornava-se cada vez mais nítida: os papéis tinham sido levados por Maria. E João, ou não via, ou preferia não ver.

Sentia como se o chão, debaixo dos seus pés, estivesse a ceder devagar, sem ruído, e não houvesse nada a que se pudesse agarrar.

Então tomou uma decisão. Esperou que Maria saísse para casa da vizinha, onde costumava ver a novela, sentou-se diante de João e falou de uma vez:

— João, há uma câmara na cozinha, escondida atrás da caixa do pão. Desaparece dinheiro da minha carteira. As minhas botas sumiram. Agora também desapareceram os documentos da casa. João, eu não aguento mais isto!

Preparou-se para o pior. Imaginou-o a defender a mãe, como fizera com a história dos comprimidos. Imaginou-se a levantar, a pegar nas suas coisas e a sair dali sem olhar para trás.

Mas João pousou o telemóvel sobre a mesa. Pela primeira vez em semanas, encarou-a diretamente. Depois virou o ecrã na direção dela.

— Eu sei da câmara — disse, baixo. — A minha mãe contou-me. Disse que era para “tomar conta de ti”. Nessa noite abri a aplicação e vi que havia dois dispositivos ligados, não um. O segundo era a cozinha. Tenho visto as gravações há três semanas.

Ana ficou sem reação. Ainda tentava compreender aquelas palavras quando ele já deslizava o dedo pelo ecrã, recuando nas imagens. No visor pequeno, a cozinha apareceu. Ali estava Maria, a abrir a carteira de Ana em cima da mesa, a tirar notas e a enfiá-las no bolso. Noutra gravação, captada pela segunda câmara, via-se Maria a levar as botas da nora para a rua.

Depois surgiam as imagens da procura dos documentos: prateleira por prateleira, frasco atrás de frasco, até a pasta desaparecer.

Casa da Encarnação