“A minha mãe já tem idade. Aguenta mais um bocadinho, ela não vai ficar cá para sempre” disse João, enquanto Ana descobria uma câmara escondida na cozinha

Histórias
Vigilância traiçoeira e repugnante, confiança destruída.

Ana continuou a olhar para o ecrã, incapaz de encaixar tudo de imediato. Maria tinha acabado por cair na armadilha que preparara para a própria nora. Mas como era possível? Não se apercebera de que as câmaras também a estavam a gravar?

Como se lhe tivesse lido o pensamento, João murmurou:

— Ela não sabe desligar a gravação. Ainda bem.

Ana ergueu os olhos para ele. A voz saiu-lhe baixa, quase sem força.

— E tu… porque é que não disseste nada?

João passou a mão pelo rosto, cansado, e baixou a cabeça por instantes.

— Porque precisava de juntar provas. Não queria que voltasse a acontecer como aconteceu com os comprimidos, em que tudo ficou em palavras contra palavras.

Depois avançou a gravação para o dia seguinte. No vídeo, Maria aparecia a tirar a pasta de trás dos frascos, a sentar-se à mesa da cozinha e a folhear os papéis com atenção. Em seguida, pegava no telemóvel e fotografava página por página, sem pressa, como se estivesse a tratar de um assunto perfeitamente normal.

Logo depois, via-se Maria a fazer uma chamada. Falava com entusiasmo, mexia muito as mãos, apontava qualquer coisa num pedaço de papel rasgado e guardava-o no bolso.

— Depois desta gravação, telefonei ao Pedro — explicou João. — Ao princípio, fez-se de desentendido. Disse que não sabia de nada. Mas acabou por se descair. A minha mãe prometeu-lhe que me afastava de ti, que a casa passava primeiro para o nome dela e que, mais tarde, ela lha dava. Foi ele quem lhe comprou as duas câmaras, para ela conseguir arranjar alguma coisa contra ti.

Ana sentiu um arrepio subir-lhe pela nuca. Parecia-lhe que até os cabelos se lhe eriçavam.

— Os documentos ela já tinha metido na mala — continuou João. — Mas sem a minha assinatura não consegue fazer nada com eles. Por isso deixei tudo como estava. Que pense que o plano dela continua a correr bem.

Nessa mesma noite, João sentou-se em frente da mãe e pôs as gravações a passar, uma atrás da outra, desde a primeira até à última. Maria ficou imóvel diante do ecrã, sem dizer uma palavra.

— O plano até era bom — disse ele, com um sorriso amargo. — Se soubesses mexer melhor na tecnologia, talvez tivesse sido perfeito. O problema é que não conseguiste desligar as câmaras. E elas gravaram tudo.

Maria levantou os olhos para o filho, mas desviou-os quase de imediato.

— Vais para casa do Pedro — disse João, num tom seco. — Mas, antes disso, devolves-me os documentos da casa.

Sem protestar, Maria levantou-se e foi buscar a pasta que tinha escondido. Entregou-a em silêncio.

— Falta mais uma coisa — acrescentou João. — Pede desculpa à Ana.

— Ora essa! Era só o que faltava — resmungou ela, com desprezo.

Na manhã seguinte, foi-se embora para casa de Pedro. A pasta voltou para o armário.

Ana retirou as duas câmaras e atirou-as para o caixote do lixo. João não tentou impedi-la. Desde então, já passaram vários meses, e ele não voltou a falar nem com a mãe nem com o irmão.

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