— Conta lá, e eu ainda te corto uma fatia daquele salmão de que gostas, para comeres enquanto vês o jogo.
Ricardo coçou a nuca, pouco à vontade.
— O tio Fernando deixou escapar que a Ana lhes telefonou. Pelos vistos, andou a dizer coisas sobre nós… Que nós não fazemos questão nenhuma de receber a família e que convidamos as pessoas só por obrigação, para ficar bem.
— Estou a ver… — respondeu Catarina, pensativa.
— Estás a ver o quê? Então sempre cortas o salmão?
— Claro que sim, querido. Mas sabes… acho que fui pouco delicada com a tua irmã. Fico mesmo envergonhada. Convida-os, por favor, para virem cá a casa esta semana. Sentamo-nos todos, conversamos, e eu peço desculpa.
Ricardo pareceu aliviado.
— Está bem. Claro que convido. A família deve dar-se bem.
— Exatamente. Obrigada, querido.
Na verdade, Catarina teve uma vontade enorme de esfregar a cara do marido naquele chiqueiro todo, depois agarrar no telefone, ligar à Ana e dizer-lhe tudo o que lhe atravessava a garganta. Mas, de repente, percebeu que aquilo não se resolvia aos gritos. Havia uma forma melhor.
Sem discussões nem cenas, arrumou a casa, repôs o que faltava e ainda comprou mais produtos caros, bebidas finas e algumas iguarias. No sábado seria o seu aniversário, e ela tinha convidado um grupo restrito de pessoas para um café-restaurante situado no próprio prédio. Só que, por causa das intrigas da Ana, a família de Ricardo começara a recusar o convite. E Catarina queria muito, mesmo muito, aproximar-se dos Silva.
No dia seguinte, quando voltou do trabalho, mal abriu a porta do apartamento, deparou-se com o caos.
Tiago corria de um lado para o outro, naturalmente, calçado, deixando marcas pelo chão.
— Olá, amiga! Chamaste-nos e aqui estamos! — anunciou Ana, surgindo no corredor como se a casa fosse dela.
Vestia o roupão preferido de Catarina e trazia uma toalha enrolada na cabeça.
— Lá em casa cortaram a água. Então pensámos: porque não aproveitar o vosso jacuzzi?
— Que vos faça bom proveito — disse Catarina, com um sorriso esticado, obrigando-se a manter a voz serena.
Durante o resto da noite, coube-lhe servir aqueles “convidados” inesperados. Pediu desculpa pelo seu comportamento anterior, convidou Ana, Pedro e Tiago para a festa de aniversário e pediu-lhes que transmitissem também o convite aos Silva e ao tio Fernando. Pelo meio, como quem não queria a coisa, falou das bebidas caras que comprara, dos petiscos especiais, das sobremesas encomendadas e de tudo o mais que seria servido.
Foi deitar-se cedo. Como de costume, saiu para o escritório logo pela manhã. Já sentada confortavelmente na cadeira, com uma chávena de café ao lado, abriu no telemóvel uma aplicação específica e sorriu com satisfação. Metade do plano estava cumprida. Agora só faltava esperar pelo dia da festa.
Apesar de Ana ter tecido a sua teia de mexericos, todos os familiares apareceram no aniversário. Havia música ao vivo, agradável e discreta, comida bem preparada e um ambiente leve, sem formalidades excessivas. O animador profissional conseguiu pôr quase toda a gente bem-disposta. Quase toda, porque Ana não parava quieta. Queria brincadeiras de mau gosto, concursos com garrafas e lápis, e tentou várias vezes arrancar o microfone ao apresentador.
Junto ao bar de cocktails, Rafael Silva aproximou-se de Catarina.
— Obrigado por esta noite tão agradável. Sabe, na administração há sempre assuntos urgentes, e a Ana ainda tentou convencer-nos a não vir. Depois percebemos que, afinal, a Catarina fazia mesmo questão da nossa presença… Não me arrependo nada de ter adiado o que tinha para fazer. Fico contente por nos conhecermos melhor e faço questão de a receber também lá em casa.
— Muito obrigada. O prazer é meu. Venha para a mesa, por favor. O prato quente será servido dentro de instantes.
Enquanto isso, Ana e Pedro discutiam aos berros com o DJ, exigindo que ele organizasse karaoke “naquele buraco”. Muitos convidados, incluindo parentes de Ricardo, lançavam-lhes olhares de reprovação, mas ninguém se apressava a pô-los no lugar. Para piorar, Ana já tinha bebido tanto que acabou por empurrar um empregado e derrubar uma mesa cheia de copos.
Quando chegou a altura de felicitar a aniversariante, apareceu quase em roupa interior, tentando improvisar uma espécie de dança do ventre.
— Eu vou animar isto, já que a aniversariante teve pena de gastar dinheiro em animação! — gritou, abanando o corpo de forma grotesca.
Catarina sentiu o estômago embrulhar. Os restantes convidados suportavam a cena em silêncio, provavelmente apenas por se tratar de família.
Mas, para Catarina, aquele comportamento até vinha a calhar. Ela não conseguia perdoar à cunhada as intrigas que espalhara nem aquela maneira vergonhosa de se portar.
