Por isso, quando Ana se aproximou dela cambaleante, Catarina já mal se esforçava por manter a delicadeza.
— Catarina! Depois da festa vamos todos para tua casa. Aqui cheira-me a coisa fraquinha, continuamos lá a farra — anunciou Ana, com a voz empastada e a língua a tropeçar nas palavras.
— Não. Hoje lá em casa não se recebe ninguém — cortou Catarina, seca, deixando a cunhada de boca aberta.
A gota de água, porém, veio pouco depois. Ao passar perto da casa de banho, Catarina ouviu Ana a falar alto com algumas familiares, como se estivesse num palco. E o que dizia eram mentiras atrás de mentiras. Garantia que Catarina apenas fingia ser boazinha, mas que, no fundo, era uma mulher insuportável. Que a aniversariante tinha sido mesquinha, que nem sequer lhes oferecera uma cama decente e os enfiara num sofá velho e esburacado. Acrescentou ainda que a casa dela era uma pocilga e que o dinheiro que Catarina ganhava certamente não vinha de maneira limpa.
Ana não parava. Desfiava veneno com uma naturalidade assustadora. Pior: algumas pessoas ouviam-na com ar sério e, de vez em quando, lançavam a Catarina olhares carregados de reprovação.
— Muito bem, Ana. Na minha casa, nunca mais pões os pés… — murmurou Catarina entre dentes.
E, naquele instante, não teve qualquer dúvida de que estava a fazer o que devia. Se era preciso cortar de vez com aquela família atrevida e mal-educada, então que fosse ali, diante de todos.
— Estimados convidados! — chamou o apresentador, erguendo a voz para recuperar a atenção da sala. — Antes de servirmos o prato principal, a aniversariante preparou uma pequena projeção. São alguns dos momentos mais marcantes desta celebração.
A parede iluminou-se. Surgiu um ecrã improvisado, e começou um pequeno vídeo, com música inspiradora e frases sobre a importância da família, dos laços de sangue e do respeito mútuo. No início, apareceram fotografias bonitas da festa: convidados a brindar, crianças a rir, abraços, sorrisos, mesas enfeitadas. Muitos reconheceram-se nas imagens e sorriram, comovidos.
Mas, de repente, as fotografias deram lugar a outras gravações, vindas de um “arquivo” bem diferente.
No ecrã, via-se Ana a enfiar garrafas fechadas dentro da mala. Nesse preciso momento, a voz dela ecoou pela sala:
— Dá cá esse saco! O que é que esta madame cheia de mania ainda comprou de bom? Caviar! Assim sim! Vá, ataquem!
Logo a seguir ouviu-se outra voz:
— Posso abrir aquela garrafa ali?
— Claro, Pedrinho! E traz também aquele presunto, vá!
A sala gelou.
Era uma gravação feita por uma câmara discreta, colocada na cozinha de Catarina.
Nas imagens, Ana, Pedro e Tiago apareciam a devorar os alimentos que tinham sido preparados para a festa. Comiam sem vergonha, abriam embalagens, escolhiam o que queriam levar e, ao mesmo tempo, falavam de Catarina de uma forma tão baixa que vários convidados desviaram o olhar para a mesa deles com evidente reprovação.
O vídeo fora montado com os momentos mais reveladores. No fim, via-se Ana a pegar num pano de cozinha e a limpar os ténis de Tiago com ele, porque o rapaz os tinha sujado ao deixar cair um pedaço de bolo. Depois de lhe esfregar o calçado, recolheu mais algumas embalagens ainda fechadas, guardou tudo e saiu da cozinha como se nada fosse.
A gravação terminou.
Durante alguns segundos, ninguém disse uma palavra.
Então Ana levantou-se, pálida de raiva, começou a enfiar às pressas alguns recipientes dentro de um saco e rosnou:
— Rapazes! Vamos embora deste viveiro de cobras.
A alegria desapareceu de vários rostos. As conversas cessaram. Alguns convidados, constrangidos ou talvez solidários com Ana, levantaram-se e acompanharam-na.
Catarina, no entanto, não deixou que a saída daquele grupo lhe estragasse a noite. Pelo contrário. Sentiu até uma espécie de alívio. A festa continuou, mais leve, mais verdadeira, como se o ar tivesse finalmente ficado limpo.
Os Silva tiraram as suas próprias conclusões sobre Ana e a família dela. Depois daquele episódio, muitos parentes cortaram relações com ela. E os que, mesmo assim, preferiram continuar do seu lado, acabaram por servir a Catarina como uma espécie de filtro. Também com esses ela deixou de conviver.
A amizade com a família Silva acabou por fazer bem a todos. Até Ricardo mudou: deixou de passar tantas horas afundado no sofá diante da televisão, começou a dedicar-se mais ao trabalho e passou a ir ao ginásio com Rafael Silva.
— É mesmo verdade quando dizem que somos moldados pelas pessoas que nos rodeiam — comentava Catarina, sorrindo, ao reparar nas mudanças positivas do marido.
Ricardo não ficou ressentido com ela. Pelo contrário, depois daquele dia, também passou a olhar para Ana com muito menos simpatia. Talvez nunca tivesse tido coragem para a expor daquela maneira. Mas Catarina teve. Não hesitou em pôr a nu aquela família abusada e, com isso, libertou-se finalmente de parentes que só lhe traziam incómodos.
