Manuel percorreu as divisões devagar, passou a mão pelas paredes, abriu e fechou a porta da casa de banho.
— Está torto. Eu teria feito de outra maneira.
Nem uma palavra sobre o facto de eu ter tratado de tudo. Nem uma pergunta sobre quanto tinha custado. Apenas aquilo: estava torto.
Fiquei calada. Não devia ter ficado, mas fiquei. Ricardo estava ao meu lado, a esfregar a nuca, e eu engoli a resposta.
O ponto de viragem chegou em 2021. Há cinco anos.
Era o aniversário da Inês. Fazia três anos. Organizei uma festinha em casa: balões, bolo, três meninas do infantário. Convidámos Manuel e Sofia, a filha dele, minha cunhada.
Sofia é dois anos mais nova do que Ricardo; agora tem quarenta. Trabalha na empresa do pai, na contabilidade. Nunca casou. Mora a duas portas dele. Para ela, tudo o que Manuel diz tem força de lei.
Vieram juntos. Manuel ofereceu à Inês um coelho de peluche enorme, quase com meio metro. Sofia trouxe um livro para colorir. Sentaram-se à mesa.
Brindámos à aniversariante. Depois, Manuel virou-se para Ricardo — à frente de Sofia, à minha frente e à frente das crianças de três anos, embora elas já tivessem fugido para o quarto.
— Ricardinho, tu é que carregas tudo às costas. Andas nas obras de manhã à noite, enquanto a tua mulher passa o dia a beber chazinhos no trabalho.
Afastei o prato.
— Manuel, eu trabalho há onze anos. Turno completo. Todos os dias úteis.
Ele olhou para mim por cima dos óculos.
— E então? Técnica de laboratório é trabalho? Lavar tubinhos?
Sofia soltou uma risadinha pelo nariz. Ricardo baixou os olhos para o prato.
— Eu não lavo tubinhos. Faço controlo de qualidade da produção. Relatórios, análises, registos. Oito horas por dia.
— Oito horas — repetiu o meu sogro. — O Ricardo passa doze horas em obra. Na lama, ao frio.
— O Ricardo recebe salário por isso — respondi. — Tal como eu.
Manuel bateu com o anel na mesa. Duas pancadas secas.
— Salário. Pago por mim. Sou eu que lhe pago. E a ti, quem te paga? A fábrica? A fábrica dá-te uns trocos, mas vives num apartamento meu.
— No apartamento do Ricardo — corrigi. — Que o senhor lhe ofereceu há catorze anos.
— Exatamente. Ofereci. Eu. E tu apanhaste tudo pronto.
Quis falar da obra. Dos 8.000 euros. De ter sido eu a escolher os azulejos da casa de banho, eu a contratar a equipa, eu a ir lá todas as noites depois do turno para conferir o serviço, e depois ainda chegar a casa, dar de comer a duas crianças e deitá-las.
Mas Ricardo levantou a cabeça e disse baixinho:
— Chega. Os dois.
Como se a culpa fosse de ambos. Como se eu também tivesse dito alguma coisa fora do lugar.
Manuel acabou o chá e foi-se embora vinte minutos depois. No hall, abraçou Ricardo, deu-lhe umas palmadas no ombro. Para mim, nem olhou.
Sofia demorou-se um pouco mais. Ouvi-a sussurrar ao pai, já nas escadas:
— Estás a ver? Ainda te responde. Uma malcriada.
Eu fiquei no corredor, com o coelho de peluche nas mãos. A Inês já o tinha atirado para debaixo do cabide.
Nessa noite, disse a Ricardo:
— Tens de falar com o teu pai. Isto não pode continuar.
Ricardo estava estendido no sofá, a passar o dedo pelo telemóvel.
— Catarina, eu falo com ele. Mas tu percebes, não percebes? Ele deu-nos a casa. Deu-me trabalho. O que queres que eu lhe diga?
— Que eu não sou uma parasita.
— Ele não pensa isso. Fala por falar. Não ligues.
E eu não liguei.
Durante cinco anos, fiz de conta que não ligava. Em cada festa, a mesma cassete. No Ano Novo: “Ricardinho, tu é que pões pão na mesa.” No Dia da Mulher: “Catarina, quando é que aprendes a cozinhar?” No aniversário do Miguel: “Um rapaz precisa de ver um homem a trabalhar, não a mãe metida numa fábrica a olhar para tubos.” Três ou quatro vezes por ano. No mínimo.
E eu calava-me porque Ricardo me pedia. Porque os miúdos adoravam o avô: ele dava presentes, levava-os a passear de carro, chamava “campeão” ao Miguel e “coelhinha” à Inês. E porque o apartamento estava em nome do Ricardo. Doação. Se nos separássemos, eu saía dali sem nada. Eu sabia disso. E esse conhecimento prendia-me.
Mas, depois de cada jantar daqueles, chegava a casa e fechava-me na casa de banho durante uns vinte minutos. Sentava-me simplesmente na borda da banheira. Olhava para os azulejos que eu própria tinha escolhido e fazia contas de cabeça. Onze anos de trabalho. Quinhentos e quarenta turnos mensais. Milhares de relatórios. 8.000 euros metidos na renovação. 180 euros todos os meses em atividades, aulas, equipamento de judo para o Miguel, desenho para a Inês. Tudo saído do meu ordenado.
E, no fim, eu era a que “vivia à custa deles”.
O aniversário redondo de Manuel ficou marcado para abril de 2026. Ia fazer sessenta e cinco anos. Queria celebrar em casa. Cinquenta e cinco convidados.
— Montamos as mesas no apartamento — anunciou ele a Ricardo. — A Sofia ajuda. E a Catarina que cozinhe.
Ricardo transmitiu-me a ideia. Imaginei logo a cena: cinquenta e cinco pessoas enfiadas num T3, comida para todos, três dias presa à cozinha. Taças enormes de saladas, panelões de comida quente, loiça sem fim, limpeza antes e depois.
— Ricardo, isto é para restaurante. Cinquenta e cinco pessoas em casa é impossível.
— Catarina, o meu pai quer em casa.
— O teu pai quer é que eu passe três dias ao fogão. De borla.
Ricardo suspirou e levou a mão à nuca.
Telefonei para cinco restaurantes. Encontrei um adequado: uma sala de banquetes para sessenta pessoas, menu a 76 euros por cabeça. Total: 4.180 euros. Com decoração e música, mais 320. Ao todo, 4.500 euros.
Fui ter com Manuel levando as contas. Mostrei-lhe o menu, a sala, as fotografias.
— Bonito — disse ele. — Caro.
— Um aniversário destes só acontece uma vez na vida.
