“Chamaste-me ovelha burra à frente dos teus amigos?” perguntou Ana sem levantar a voz, deixando a sala em silêncio tenso

Histórias
Uma humilhação mesquinha, profundamente injusta e insuportável.

Sabia, acima de tudo, que não se enfrenta no impulso alguém habituado a viver à custa dos outros enquanto posa de dono da casa. Com João, uma reação emocional seria precisamente aquilo de que ele precisava para inverter a história.

Ainda na primavera, Ana marcara uma consulta com uma advogada. Não fora para ensaiar ameaças bonitas nem para se sentir mais forte por vaidade, mas para perceber, sem ilusões, o que a lei lhe garantia e o que não passava de lenda familiar. Filhos não tinham. O apartamento era dela. Bens comuns que justificassem uma guerra quase já não existiam: João vendera antes os seus aparelhos, ferramentas e objetos mais caros, sempre com a mesma desculpa das “dificuldades passageiras”. O carro tinha sido comprado por Ana antes do casamento e estava em seu nome. Se ele se recusasse a aceitar o divórcio de forma civilizada, avançar-se-ia pelo tribunal. Ana estava preparada para isso.

— Tu és doente — rosnou ele, entre dentes.

— Estás a tentar insultar-me outra vez porque não tens mais nada para dizer.

João deu um passo na direção dela. Ana não recuou. Limitou-se a pegar no telemóvel que estava sobre a mesa e a pousá-lo ao seu lado, com o ecrã virado para cima.

— João, não faças disparates. Neste prédio ouve-se tudo. Os vizinhos estão em casa. E, se começares a partir móveis ou a agarrar-me pelos braços, eu não vou discutir contigo sem testemunhas.

Ele estacou. O olhar dele saltou pela sala: a pasta, o telefone, a porta fechada, o silêncio que ficara depois da saída dos convidados. Pela primeira vez, a cena não obedecia ao guião de sempre, aquele em que ele esmagava e Ana acabava por remendar tudo.

— Traíste-me — disse ele.

Ana nem pestanejou.

— Não. Apenas deixei de te sustentar, tanto na vida prática como na cabeça.

— Sou teu marido.

— Ainda és. Dono, não.

João voltou a sentar-se no cadeirão. Desta vez não se atirou para trás com arrogância; caiu ali com peso, fixando-a com um rancor duro.

— E achas que agora vou pegar numa mala e sair?

— Acho que primeiro vais tentar fazer-me sentir pena. Depois vais ameaçar-me. A seguir vais dizer que falamos amanhã. E, se eu aceitar, de manhã vais comportar-te como se nada tivesse acontecido. Portanto, não. Vais sair hoje.

Ele olhou para ela com um espanto verdadeiro. Não por aquelas palavras serem completamente novas, mas porque finalmente percebeu que Ana já tivera aquela conversa antes. Sem ele. Na cabeça dela. Frase por frase.

— Eu não saio — afirmou.

Ana assentiu, como se tivesse antecipado exatamente aquela resposta.

— Nesse caso, ligo para a polícia e digo que há uma pessoa dentro da minha casa que se recusa a ir embora, está agressiva e eu receio que a situação escale.

— Não tens coragem.

Ela tocou no ecrã.

João levantou-se de um salto.

— Espera!

— Decide-te depressa.

O rosto dele contraiu-se. Queria conservar a pose de vencedor, mas o espaço de manobra tinha encolhido. Fazer uma cena violenta com a possibilidade de a polícia aparecer não lhe convinha. Ir-se embora por vontade própria era admitir derrota. João ficou suspenso entre a insolência habitual e um medo que, de repente, lhe aparecera nos olhos.

— Ao menos deixa-me juntar as minhas coisas — atirou.

— Junta.

Ana acompanhou-o até ao quarto, mas não entrou. Ficou no limiar da porta. João abriu o roupeiro com brusquidão e começou a enfiar t-shirts num saco de desporto. Por duas vezes deixou cair peças no chão de propósito, esperando que ela reagisse. Ana manteve-se calada. Então ele puxou uma gaveta da cómoda.

— Onde estão os meus documentos?

— Na pasta azul, na segunda prateleira. Não lhes toquei.

Ele encontrou-a e atirou-a para dentro do saco. Depois voltou-se para ela.

— Vais dar-me dinheiro?

Ana olhou-o de tal modo que ele próprio pareceu ouvir o ridículo da pergunta, depois de tudo o que acabara de dizer.

— Não.

— Então pões-me na rua sem um cêntimo?

— És um homem adulto que, à frente dos amigos, chamou à mulher uma ovelha burra. Prova a ti mesmo que não dependes dela.

Os lábios dele tremeram por um segundo, mas conteve-se. Tirou da mesa de cabeceira um carregador, a máquina de barbear, algumas meias e o passaporte. Depois estendeu a mão para a caixa dos relógios.

— Isto é meu.

— Fui eu que te ofereci esses relógios. Leva-os. Não me fazem falta.

Ele esperava claramente uma discussão. Queria agarrar-se a qualquer coisa, por mínima que fosse, para reabrir a guerra. Mas Ana não pretendia perder tempo a lutar por objetos sem importância. O plano dela era simples: tirá-lo de casa o mais depressa possível, não se afogar em escaramuças miúdas.

Ao fim de vinte minutos, o saco estava cheio. João foi para o hall, calçou-se e parou diante da porta.

— As chaves — disse Ana.

Ele soltou uma gargalhada curta.

— Sonha.

Ana voltou a pegar no telemóvel.

— João.

— Toma lá as tuas chaves. Engasga-te com elas.

Arrancou o molho do bolso e atirou-o para cima da consola da entrada. Ana não se apressou a recolhê-lo. Primeiro verificou tudo: a chave da fechadura de cima, a de baixo, a da caixa do correio. Estavam todas ali.

— Amanhã chamo um serralheiro e mudo as fechaduras — informou. — Não porque precise da tua autorização. Mas porque não sei se fizeste cópias.

— Agora tratas-me como ladrão?

— Trato-te como alguém que humilhou a própria mulher em público e, minutos depois, lhe pediu dinheiro para ir embora. A confiança acabou.

João abriu a porta com violência.

— Ainda vais rastejar até mim. Quero ver quanto tempo aguentas sem mim.

Ana encarou-o sem levantar a voz.

— João, nos últimos anos estivemos precisamente a comprovar o contrário.

Ele saiu disparado para o patamar. A porta fechou-se atrás dele. Ana rodou a chave na fechadura, apoiou a palma da mão na superfície fria e ficou ali durante alguns segundos. Não tremia, não chorava, não corria de um lado para o outro. Só então o corpo começou a alcançar aquilo que a cabeça já fizera: os dedos ficaram pesados, os ombros pareceram encher-se de chumbo e um sabor seco, metálico, espalhou-se-lhe pela boca. Foi até à cozinha, encheu um copo de água e bebeu devagar, em pequenos goles.

Depois abriu mais a janela. O ar de verão entrou no apartamento, trazendo o ruído dos carros, o cheiro do alcatrão aquecido e, ao longe, o ladrar de um cão.

Ana olhou em redor da sala. Sobre a mesa continuavam os pratos, os copos, os legumes cortados, as uvas intactas, os guardanapos. Uma hora antes, aquilo era o cenário de uma noite em família. Agora parecia o lugar exato onde, por fim, uma longa mentira tinha terminado.

Não começou logo a arrumar. Antes disso, tirou fotografias à mesa e à pasta com documentos.

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