“Abre já, estás a ouvir? Ou chamo os bombeiros e arrombam-me essa fechadura sem dó nem piedade!” gritei, batendo na porta e exigindo que Mariana e o marido saíssem do meu apartamento

Histórias
Arrogância intolerável, invasão cruel e desprezível.

Ele continuou a passar os olhos pelos documentos, com aquele ar burocrático e moroso, até eu pousar sobre a secretária a carta que mudava o jogo.

Na véspera, tinha ligado a Beatriz, uma antiga colega de faculdade que trabalhava no Departamento de Habitação. Encontrámo-nos num café ruidoso junto à estação, diante de dois americanos amargos, e foi ali que ela me deixou consultar a base interna. O que apareceu no ecrã fez-me sorrir pela primeira vez em muitos dias.

João, que nos papéis constava como desempregado, tinha requerido um apoio municipal ao abrigo do programa para jovens famílias: uma compensação destinada ao pagamento de renda. Havia, porém, uma condição essencial para receber o dinheiro — apresentar um contrato válido de utilização de uma casa com, pelo menos, dezoito metros quadrados por pessoa. E aquele génio entregara precisamente o contrato falsificado em meu nome.

Aquilo já não era apenas uma disputa doméstica, nem uma briga feia entre parentes. Passava a ser burla para obtenção de prestações públicas. Dinheiro do Estado. E, quando se mexe no orçamento público, a justiça deixa de ter paciência.

Beatriz confirmou-me ainda o detalhe decisivo: o despacho que autorizava o apoio a João já estava assinado. A primeira tranche, no valor de mil e duzentos euros, seguiria para o cartão dele nessa sexta-feira.

— Então, meus queridos familiares — murmurei, ao sair do edifício do Departamento para o vento húmido e cortante da rua. — Agora jogamos pelas minhas regras.

Na sexta-feira à noite, abri a porta do apartamento com a minha chave. Desta vez, o trinco interior não estava fechado. Esperavam a entrega do jantar.

Atrás de mim vinham três pessoas: o capitão Costa, da PSP, de rosto carregado; uma inspetora da AIMA, de uniforme azul; e uma representante do Departamento de Habitação, que trazia uma pesada pasta de couro encostada ao peito.

Da cozinha chegavam as gargalhadas cristalinas de Mariana e o tinir da loiça. Estavam a festejar. Sobre a mesa via-se uma caixa de pizza aberta e uma garrafa de vinho meio-doce. João ocupava a minha poltrona como se fosse dono da casa, com as pernas estendidas para a cadeira ao lado.

— Oh, a Ana chegou! — exclamou Mariana, num teatro de surpresa, erguendo as mãos. Mas o sorriso endureceu quando reparou nos uniformes. O queijo que pendia da fatia de pizza ficou suspenso, como um fio sujo e ridículo.

— Cidadão João Silva? — perguntou o capitão Costa, avançando para a cozinha e ocupando quase toda a entrada. — Capitão Costa, PSP. Faça o favor de apresentar os seus documentos.

— Qual é o problema? — João tentou levantar-se, embora os joelhos lhe tremessem de forma evidente. — Nós estamos registados aqui. Está tudo dentro da lei…

— Estavam registados — cortou a mulher da AIMA, abrindo a pasta com um gesto seco.

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