e deixou cair sobre a mesa o despacho.
— A inscrição temporária foi cancelada, na sequência da confirmação de apresentação de documentação falsificada. A perícia concluiu que a assinatura do proprietário não foi feita por ele.
João perdeu a cor do rosto.
— E há mais — acrescentou a funcionária, retirando outro conjunto de folhas da pasta. — Senhor João Silva, foi instaurado contra si um processo-crime por fraude na obtenção de apoios públicos. O contrato entregue para atribuição do subsídio foi considerado falso.
— Ana! — Mariana soltou um grito agudo, quase teatral, levando as mãos à barriga enquanto escorregava para o chão. — Ana, por amor de Deus! Vão prender o João! Somos família, como é que consegues fazer isto? Eu estou grávida!
Fiquei a olhar para aquelas lágrimas fabricadas, sem sentir a menor comoção.
— Quando eu tinha dezoito anos, venderam a casa da minha avó pelas minhas costas — respondi, encarando-a sem desviar os olhos. — Agora tentaram ficar com o meu apartamento. Peguem nas malas e saiam da minha casa.
Para não acabar com uma pena de prisão efetiva por burla relacionada com prestações e apoios, João acabou por admitir tudo e aceitou colaborar com a investigação. O tribunal aplicou-lhe uma multa pesada e determinou que devolvesse ao Estado todas as quantias que tinha recebido indevidamente.
Ele não tinha poupanças. Para saldar a dívida e ainda pagar ao advogado, viu-se obrigado a vender por quase nada a parte que lhe cabia no apartamento dos pais.
Hoje, João, Mariana e o filho recém-nascido vivem apertados num apartamento social minúsculo, antigo e mal isolado, na periferia da cidade, pertencente à mãe dele. O dinheiro nunca chega. João trabalha agora como carregador num armazém de materiais de construção e, ao fim do dia, afoga-se em vinho barato. Mariana passa os dias a discutir com a sogra por causa da loiça suja, do chão por lavar e de tudo o que houver para discutir. Os vizinhos chamam a polícia com frequência, assustados com os berros, as portas batidas e as panelas que voam pela cozinha.
Sei de tudo isto porque a minha mãe, de vez em quando, me telefona a chorar. Diz que fui cruel. Acusa-me de ter destruído a vida da minha irmã e de ter deixado o meu sobrinho sem um teto decente.
Eu escuto em silêncio durante alguns segundos.
Depois desligo.
Pelas janelas do meu apartamento entra uma luz suave, dourada, que se espalha pelas paredes e aquece a sala inteira. No tapete fofo, junto aos meus pés, Rafael, o meu labrador, dorme estendido, respirando devagar, com o focinho húmido encostado às patas.
Defendi o que era meu. Não tirei nada a ninguém, não vivi à custa de ninguém, mas também não estou disposta a entregar a minha casa a quem tentou roubá-la.
A minha consciência está tranquila.
