Mas não houve hesitação.
Terminada a reunião, Catarina mandou imprimir a ata. Assinei-a. Rui assinou. Miguel também deixou a sua assinatura. Tiago anexou o relatório técnico.
Poucos minutos depois, no monitor do computador de trabalho de Pedro, que ainda estava no gabinete dele, surgiu a mensagem fria e automática do sistema: «Conta desativada pelo administrador.»
Ele viu-a com os próprios olhos.
Eu fiquei à entrada do gabinete. Não o apressei. Não levantei a voz.
Sobre a secretária dele havia três porta-cartões, uma caneta cara, um pisa-papéis com o logótipo da empresa e uma pilha de apresentações onde, por iniciativa própria, ele tinha alterado o cargo para «sócio operacional». Durante muito tempo, eu fingira não reparar. Havia sempre demasiados projetos, demasiadas urgências, demasiada vontade de evitar conflitos.
Naquele momento, cada uma dessas pequenas coisas transformava-se numa peça de prova.
— Estás a destruir a nossa família por causa de um portátil — disse Pedro.
— Não. O portátil só me permitiu ver o desenho completo.
— Que desenho?
— A pressão em casa. A pressão dentro da empresa. As conversas com funcionários pelas minhas costas. A tentativa de aceder a documentos restritos. E o espetáculo de hoje com a Maria.
Ele bateu com a palma da mão na mesa. Não foi um golpe forte; foi mais para fazer ruído.
— Ela é uma mulher de idade!
— É uma adulta plenamente responsável que entrou no escritório usando o teu cartão de acesso.
— Queres mesmo levá-la a tribunal?
— Quero proteger a empresa.
— A empresa também sou eu!
— Já não.
Foi nesse instante que ele compreendeu.
Não quando o portátil ficou em pedaços no chão. Não quando Bruno se colocou junto à porta. Não quando a jurista leu a cláusula do contrato.
Ele percebeu tudo naquelas duas palavras.
Já não.
O telemóvel dele começou a vibrar. Uma vez. Depois outra. E outra. Pedro olhou para o ecrã e desviou a cara com brusquidão. Ainda assim, acabou por abrir a notificação.
Era um e-mail da secretaria corporativa.
«Notificação de cessação de participação no programa de opções.»
Logo a seguir, chegou uma mensagem da segurança.
«Acessos bloqueados.»
Depois, uma comunicação dos recursos humanos.
«Despacho de suspensão de funções durante o período de investigação interna.»
Pedro deixou-se cair devagar na cadeira. Sem cena dramática. Apenas porque, de repente, continuar de pé parecia difícil.
— Ana — disse ele, agora com outro tom. — Vamos falar em casa.
— Vamos falar através dos advogados.
— Estás a falar a sério?
— Sim.
— Sou teu marido.
— Por enquanto. O pedido de divórcio será tratado separadamente.
Ele tentou sorrir, mas o rosto não acompanhou a intenção.
— Então já decidiste tudo.
— Tu decidiste esta manhã, quando disseste: “A mãe partiu o teu portátil idiota.” Só não percebeste que aquilo que se partiu não foi o portátil.
Pedro não respondeu.
No corredor, Maria discutia com Bruno. As frases chegavam até mim aos pedaços.
— Sou mãe do adjunto!
— Vamos acompanhá-la até à saída.
— Sou uma senhora de idade!
— Vamos acompanhá-la até à saída.
Saí para o corredor.
Assim que me viu, ela endireitou-se, como se ainda estivesse à espera de impor alguma autoridade.
— Então? Já acabaste de brincar? O Pedro agora vai pôr-te no teu lugar.
— O Pedro deixou de ser adjunto da direção.
O rosto dela ficou imóvel.
— Como?
— Foi suspenso. O pacote de opções foi cancelado. Os acessos foram encerrados. Quanto ao equipamento danificado, será preparada uma reclamação formal.
— Por causa de uma porcaria de máquina?
— Por causa de atos. A máquina apenas ajudou a registá-los.
Maria apertou a alça da mala com tanta força que os nós dos dedos lhe empalideceram.
— Tu não tens coragem de fazer isto à família.
— Dentro de uma empresa não há família. Há cargos, património, permissões de acesso e responsabilidade.
— E quem és tu sem o meu filho?
Olhei para a placa na parede: CedroSoft, Lda. Debaixo dela, uma pequena chapa metálica indicava: «Diretora-geral — Ana Silva».
Não estava ali por vaidade. Nem por decoração. Era apenas um facto.
— A diretora-geral — respondi.
Bruno abriu a porta que dava para o átrio dos elevadores, indicando a saída a Maria. Ela ainda parecia pronta para disparar mais alguma coisa, mas Pedro apareceu à porta do gabinete com uma caixa nas mãos.
Dentro dela estavam os seus objetos pessoais: dois livros sobre gestão, um carregador, uns auscultadores, uma base de madeira para o telemóvel. Por cima de tudo, via-se o porta-cartões com a inscrição «sócio operacional», aquele que ele mandara fazer sem consultar ninguém.
Maria olhou para a caixa. Depois olhou para o filho.
— Pedro?
Ele nem sequer a encarou.
— Vamos, mãe.
Já no átrio dos elevadores, voltou-se para mim.
— Ainda te vais arrepender.
— Todas as reclamações por escrito — respondi.
As portas fecharam-se.
Regressei à sala de reuniões. Àquela mesma sala. Os destroços já tinham sido retirados da mesa. Um técnico da segurança colocara ali um portátil provisório, retirado da reserva. Miguel tinha aberto no ecrã o painel de recuperação do projeto.
— O código está intacto — informou. — Os repositórios estão limpos. As chaves foram emitidas de novo. Os materiais relativos à patente foram restaurados a partir do arquivo seguro. Perdemos só a carcaça do equipamento e duas horas de trabalho.
— Não perdemos só a carcaça — disse eu.
Ele percebeu. E teve a delicadeza de não pedir explicações.
Ao fim da tarde chegou o advogado externo. Era um homem calmo, com uma pasta estreita debaixo do braço e o hábito de fazer perguntas curtas. Examinou a gravação, os registos de acesso, a ata do conselho de direção, o acordo de opções e o auto relativo aos danos no equipamento.
— Em relação ao pacote de opções, a posição é sólida — concluiu. — Quanto ao prejuízo material, também. Na parte laboral, convém avançar com cautela: suspensão, investigação, pedido de esclarecimentos, despacho. Sem acrescentar nada que não seja necessário.
— Não haverá palavras a mais.
— Ótimo. E a parte familiar?
Puxei outra pasta para cima da mesa. Dentro estavam as cópias dos documentos do apartamento, extratos bancários das minhas contas pessoais e a minuta do pedido de divórcio.
— Segue por outra via — expliquei. — Sem ligação à empresa.
O advogado assentiu.
— É a forma correta.
À noite, Pedro enviou-me a primeira mensagem.
«Temos de nos acalmar.»
Não respondi.
Um minuto depois, chegou a segunda.
«A mãe está muito abalada.»
Também não respondi.
Depois veio a terceira.
«Não podes apagar vinte anos assim.»
Fiquei alguns segundos a olhar para o ecrã. Em seguida, silenciei as notificações até de manhã. O número ainda não; para isso era cedo. As notificações, sim.
