Tinha o telemóvel na mão e fingia percorrer as notícias, embora, na verdade, estivesse apenas escondido atrás do ecrã para não ter de encarar o próprio desconforto. Esperava que Ana acabasse por ceder, compreendendo finalmente a inutilidade da sua resistência, ou que começasse a enfiar roupa em sacos e fechasse aquela história com uma porta batida. Para qualquer uma dessas hipóteses, João julgava-se preparado.
Mas não estava preparado para o que aconteceu a seguir.
Ana surgiu à porta do quarto. Já vinha vestida: calças de ganga sóbrias, camisola de caxemira, o cabelo preso com cuidado. Não trazia malas na mão. Arrastava-as. Duas malas grandes, de rodinhas, em pele, impecavelmente fechadas, que deslizavam pelo soalho flutuante com um rumor baixo e seco.
— Ora, ora… afinal alguém decidiu mesmo ir-se embora — disse Maria, com a boca torcida num sorriso venenoso, antes de beber um gole de café. — O teu paizinho não conseguiu convencer-te a ficar?
João levantou os olhos do telemóvel. No rosto dele passou uma expressão estranha, feita ao mesmo tempo de alívio e de culpa. Era isto, então. O momento final. A cena derradeira. Daqui a pouco viriam as acusações, as lágrimas, talvez os gritos, e depois tudo encontraria o seu lugar. Ele já se tinha preparado para suportar as censuras.
Ana parou as malas junto à porta de entrada. Depois olhou para os dois com uma calma quase clínica, como se os observasse pela primeira vez.
— Isto não é meu — disse, num tom baixo. A voz saía-lhe lisa, sem tremor, sem dramatismo, sem uma única ponta de teatro. — São as tuas coisas, João.
João pestanejou. Devagar, pousou o telemóvel sobre a mesa. O sorriso desapareceu do rosto de Maria. Os dois olharam para as malas, depois para Ana, incapazes de encaixar aquelas palavras na realidade que tinham imaginado.
— Como? — perguntou ele, atordoado, convencido de que não ouvira bem.
— Dei-te uma semana para escolheres — continuou Ana, com a mesma serenidade fria. — Ontem, ao jantar, escolheste. Ficaste do lado da tua irmã. Tens esse direito. Achas que ela precisa de proteção, que a situação dela tem de ser compreendida, que é preciso tomar conta dela. Muito bem. Já não vou discutir isso contigo. Toma conta dela.
Fez uma pequena pausa, deixando que cada frase se instalasse no silêncio espesso daquela manhã ainda sonolenta.
— Só que, a partir de agora, farão isso juntos. E noutro sítio. Eu não posso pôr a Maria na rua. Não me cabe a mim, ela é tua família. Mas tu és meu marido. E, se não consegues viver sem a tua irmã, então vais viver com ela.
Aproximou-se da porta e abriu-a. O ar fresco da escada entrou no apartamento, cortando o cheiro a café e a triunfo mal digerido.
— Tu… estás a expulsar-me? — conseguiu João dizer por fim.
Não havia raiva na voz dele. Apenas uma incredulidade embaraçada, quase infantil. Ainda não conseguia acreditar. Afinal, ele era o homem da casa. O marido. Aquele que decidia.
— Não deixei nada essencial para trás — respondeu Ana. — Tens aí as camisas do trabalho, o portátil, os carregadores, a roupa do ginásio. Tudo aquilo de que vais precisar nos primeiros tempos. Os meus pais deram para a entrada deste apartamento mais dinheiro do que tu ganhaste em três anos do nosso casamento. Portanto, eu fico.
Olhou-o diretamente nos olhos. No olhar dela não havia ódio, nem rancor ruidoso, nem sequer mágoa exposta. Havia apenas uma constatação fria, definitiva, como uma assinatura no fim de um documento.
— Tu decidiste quem querias sustentar. Podes começar agora.
Maria permanecia imóvel, a chávena suspensa entre os dedos. O pequeno reino em que se via como princesa protegida pelo irmão mais velho desmoronou-se num só instante. Olhou para João, depois para as malas, depois de novo para Ana. E, desta vez, o que lhe tomou o rosto não foi cinismo nem desafio. Foi medo. Medo verdadeiro, cru, impossível de disfarçar. Não tinha conquistado o apartamento. Não tinha ganho uma casa. Tinha acabado de ganhar um irmão sem teto, que, dali em diante, muito provavelmente iria instalar-se exatamente onde ela estivesse.
— Maria, ajuda o teu irmão — disse Ana, em voz baixa.
Não os empurrou. Não levantou o tom. Não fez uma cena, não bateu com portas, não despejou insultos acumulados. Limitou-se a ficar ali, junto à porta aberta, segurando-a com uma cortesia impecável, como uma funcionária de hotel que acompanha hóspedes indesejados até à saída.
E essa delicadeza distante era mais assustadora do que qualquer explosão de fúria.
Ana não os estava a castigar. Não precisava.
Estava simplesmente a apagá-los da sua vida, com a mesma facilidade com que se fecha um livro aborrecido depois de lido até à última página.
