— … nem contribuir com um cêntimo — rematou ela.
Ana passou por ele sem pedir licença e atirou a mala para o sofá. Já nem lhe sobrava energia para se zangar como devia; por dentro havia apenas um ruído surdo, cansado, a moer sempre no mesmo sítio. Tudo voltava ao ponto de partida: as mesmas conversas, as mesmas culpas atiradas para cima dela, o mesmo “tu compreendes, não compreendes?”. E, sim, Ana compreendia uma coisa com uma clareza dolorosa: aquela casa deixara há muito de lhe parecer casa.
Na manhã seguinte, mal acabara de tirar o café, a porta abriu-se de rompante. Nem campainha, nem aviso.
No limiar apareceu Maria, armada como quem vai conquistar território inimigo, com um saco na mão e a expressão triunfante de quem já decidiu tudo pelos outros.
— Ana, trouxe frango! Assamos aqui. O teu forno é melhor.
Ana ergueu a caneca com calma.
— E na sua casa não dá?
— Lá não temos espaço. Aqui cabe toda a gente à vontade. João, diz-lhe tu!
João surgiu à entrada da cozinha, com a gravata torta e uma cara de quem não dormira o suficiente.
— Ana, a minha mãe disse que…
— João — interrompeu ela, fixando-o de tal maneira que até o gato, prudentemente, desapareceu para debaixo da cama —, não vai haver convidados. Isso já ficou esclarecido.
Maria soltou um suspiro teatral, como se tivesse acabado de ser ferida no coração.
— É sempre a mesma coisa. Eu penso na família, tu só pensas em ti.
— Ao menos alguém pensa — respondeu Ana, em voz baixa, antes de beber um gole de café.
Ao fim da tarde, tudo o que ela queria era silêncio. Apenas isso: entrar, fechar a porta e não ouvir mais ninguém. Mas, no patamar, esperavam-na três senhoras muito arranjadas, com ramos de flores e uma caixa de bolo.
— Viemos ter com a Maria! Hoje há festa! — anunciaram, radiantes.
Ana subiu o último lanço quase sem sentir as pernas. Quando abriu a porta do apartamento, ficou imóvel.
A casa fervilhava. Gargalhadas, cheiro a espumante, travessas de saladas sobre a mesa, Maria estreando um vestido novo, João a encher copos como se aquilo fosse o salão de eventos de um hotel.
— Vocês perderam o juízo?! — gritou Ana.
Maria nem pestanejou.
— Tu chegas sempre tarde. Achámos que podíamos começar por aqui.
Ana tirou o casaco devagar, pousou a mala e endireitou-se. A sua voz saiu baixa, mas cortante.
— Então agora sai toda a gente. A festa acabou.
— Que raio estás a fazer? — rosnou João entre dentes.
— A deitar o lixo fora — disse Ana, atirando-lhe o casaco para os braços. — E começamos por ti.
Maria empalideceu.
— Ana, isso é uma grosseria!
— Não. Isto chama-se pôr ordem. Cada pessoa tem a sua casa. A vossa não é esta.
As convidadas gelaram, trocaram olhares aflitos e começaram a recolher malas, flores, pratos e casacos com uma pressa desajeitada. Cinco minutos depois, a porta fechou-se atrás da última delas.
João ficou no corredor, pálido, sem saber onde pôr as mãos.
— Tu enlouqueceste — murmurou.
— Não, João. Só recuperei aquilo que era meu.
Ana foi buscar a mala de viagem dele e colocou-a aos seus pés.
— Arruma as tuas coisas. Hoje.
E, pela primeira vez em muito tempo, o ar dentro daquela casa pareceu tornar-se respirável.
João permaneceu no centro da sala, olhando em redor como se ainda esperasse acordar de um pesadelo absurdo. Mas a mala já estava aberta, e as roupas — aquelas peças que durante anos tinham ocupado espaço no armário e guardavam, discretamente, o cheiro de uma vida antiga — começaram a ser dobradas e colocadas lá dentro uma a uma. Ana arrumava sem pressa. Não levantava a voz, não acusava, não explicava. Tinha no rosto a mesma expressão de quem deita fora um iogurte estragado: desagradável, sim, mas inevitável.
Uma hora depois, tudo se calou. A mala desapareceu com o dono, a porta fechou-se, e o apartamento ficou, por fim, entregue a si mesmo.
