Instalou-se então um silêncio verdadeiro, espesso, quase palpável. O gato saiu devagar de debaixo da cama, aproximou-se dela, sentou-se ao lado e ficou a olhar para Ana como se, finalmente, tivesse percebido quem mandava naquela casa.
Ana foi buscar um copo, serviu um pouco de vinho, deixou-se cair no sofá e, de repente, sentiu uma coisa que já não sentia havia anos: aquele lugar era dela. Sem sombras alheias, sem cheiros que não lhe pertenciam, sem o eterno “na nossa família não se faz assim”.
Passou uma semana. Sete dias de paz. Sete noites sem o grito de “Ana, onde estão as minhas meias?” e sete manhãs sem o sussurro vigilante da sogra: “O café faz-te mal, na tua idade…” Um paraíso doméstico. Ainda assim, Ana sabia que a tempestade apenas fingira ter ido embora.
E não se enganou. No domingo, à hora de almoço, a campainha tocou. Longa, pesada, anunciadora de desgraça. Ana espreitou pelo óculo da porta e sorriu. Do outro lado estava João, por fazer a barba, com um ramo de cravos na mão. Cravos. A flor menos adequada para pedir reconciliações.
— Olá — disse ele, sem a encarar. — Podemos falar?
— Claro — respondeu Ana. — Aqui fora.
— Ana, não vamos fazer uma cena.
— João, a cena acabou na sexta-feira passada. O circo desmontou, os artistas foram-se embora e os palhaços também.
Ele avançou meio passo, como quem testava os limites da fronteira.
— Estive a pensar… Talvez os dois tenhamos exagerado.
— Os dois? — Ana ergueu ligeiramente uma sobrancelha. — Eu aguentei sete anos. Tu chamas a isso exagero?
João pousou o ramo na prateleira da entrada, com o ar de quem marcava território.
— A minha mãe está preocupada. Diz que talvez estejas a passar por uma crise…
— A minha crise, João, foi ter ficado sem paciência. E essa já acabou.
Ele assentiu, sem saber o que fazer às mãos.
— Então… talvez eu pudesse voltar?
— Não.
— Porquê?
— Porque a tua mala e a tua mãe reencontraram-se. Não estragues a felicidade delas.
Poucos dias depois, apareceu Maria. Trazia um saco de tangerinas e uma expressão de quem tinha sido chamada para prestar declarações.
— Ana, eu compreendo tudo, claro. O trabalho, o cansaço… Mas somos família.
— Fomos família, Maria, até ao momento em que decidiu que a minha cozinha era a vossa casa de férias.
A sogra começou a dispor as tangerinas com muito cuidado, como se a fruta pudesse servir de pedido de desculpa.
— Eu só queria que o João vivesse bem, com conforto. Ele não é muito desenrascado.
— Quantos anos tem ele mesmo? Faça-me lembrar — perguntou Ana, enquanto tirava canecas do armário.
— Os homens são como crianças. Precisam de uma mulher que…
— Que lhes dê de comer, limpe tudo e ainda lhes pregue sermões? Obrigada, mas já me cansei.
Maria revirou os olhos.
— És demasiado orgulhosa. Assim não se vive, Ana. Na vida é preciso ser mais flexível.
— E a senhora está demasiado convencida de que a vida inteira cabe na sua cozinha. Eu, nessa cozinha, não volto a entrar.
Nessa mesma noite, telefonou-lhe a tia Sofia, parente do marido, carregando na voz todo o sofrimento do mundo.
— Aninha, querida, como foste capaz de fazer isto ao João?
— E o que ele me fez a mim estava tudo bem?
— Ele é homem. Os homens têm as suas fraquezas.
— Eu também tenho as minhas. Por exemplo, não gosto que me usem como tapete da entrada.
Depois de desligar, Ana ficou muito tempo a andar de um lado para o outro pela casa, incapaz de se sentar.
