Por dentro, Ana sentia tudo em ebulição. Porque haveria ela de se justificar por querer defender a própria casa e a paz que ainda lhe restava?
Na sexta-feira, João apareceu outra vez. Não trazia flores, não esboçava sorriso; limitou-se a surgir à porta com o ar de quem fora chamado a cumprir uma obrigação.
— Pensei em tudo — disse ele. — Estou disposto a chegar a um meio-termo.
— Meio-termo quer dizer que só vens em dias combinados e sem a tua mãe?
— Bem… a minha mãe podia vir também, mas com aviso.
Ana soltou uma gargalhada curta, sem alegria.
— Um acordo convosco vale tanto como uma dieta prometida em dezembro: fala-se muito, cumpre-se pouco.
João aproximou-se um passo.
— Ana, eu sou teu marido.
— Foste.
— Ainda não estamos divorciados.
— Isso resolve-se.
Ele apertou os lábios.
— Vais mesmo destruir a família só porque a minha mãe entrou aqui algumas vezes sem tocar à campainha?
— João, “algumas vezes” é alguém comer por engano as tuas bolachas. Quando uma pessoa se instala durante anos na tua vida, manda na tua cozinha, decide os teus fins de semana e age como se a casa lhe pertencesse, isso já não é distração. É ocupação.
Quando ele se foi embora, Ana ficou sentada no silêncio. O medo continuava ali, mas já não era medo do futuro. Era medo de perceber quantos anos tinha vivido a pedir licença para existir, apavorada com a possibilidade de magoar alguém. E, nessa tentativa de não ferir ninguém, tinha acabado por se apagar a si própria.
Na manhã seguinte, acordou com uma certeza limpa: bastava. Tinha acabado.
A sala do tribunal cheirava a papel, linóleo antigo e cansaço acumulado. A juíza, uma mulher de olhar atento e rosto exausto, abriu o processo e fez a primeira pergunta:
— Dona Ana, mantém o pedido de divórcio e a questão da partilha de bens?
— Mantenho. O apartamento foi comprado antes do casamento. Tenho comigo todos os documentos.
Maria endireitou-se imediatamente na cadeira.
— Mas o meu filho vivia lá!
— Vivia — confirmou Ana, serena. — Só que viver num sítio e ser dono dele são coisas diferentes.
João não se conteve:
— Mas nós éramos uma família. Tu prometeste…
— Prometi respeitar-te a ti, João. Não prometi entregar a minha vida à tua mãe. Não confundas as coisas.
A juíza bateu levemente com a caneta na mesa.
— Peço que se mantenham nos factos e deixem as emoções de lado.
Mas Maria, aproveitando a pequena pausa, voltou à carga:
— Se formos humanos, Ana, tu sabes bem que esse apartamento veio do teu pai. Vendias, ajudavas-nos a acabar a casa…
Ana fitou-a com calma. Estava cansada, sim, mas a voz saiu firme:
— Se formos humanos, dona Maria, também sabemos que não fica bem tratar a herança dos outros como se fosse nossa.
Depois disso, abateu-se sobre a sala um silêncio tão denso que se ouvia alguém folhear documentos ao fundo.
A decisão não demorou: divórcio concedido, sem partilha do apartamento. A casa continuava a pertencer a Ana. Ponto final.
Encontraram-se novamente no corredor. João olhava para o chão, como se as respostas estivessem escondidas nos mosaicos.
— Então é assim?
— É, João. É assim. — Ana abriu a mala, tirou um molho de chaves e estendeu-lho. — Já não precisas disto.
Maria, naturalmente, não conseguiu ficar calada:
— Ainda te vais arrepender, Ana!
— Talvez — respondeu ela, com um sorriso tranquilo. — Mas não será dentro da minha própria casa.
Nessa noite, voltou a servir-se de um copo de vinho. O gato deitou-se ao lado dela, satisfeito, como fazia sempre que a casa regressava ao seu devido lugar.
— Então? — murmurou Ana, olhando para ele. — Parece que, a partir de agora, vamos viver sem visitas indesejadas.
E, naquela frase, pela primeira vez, não havia solidão. Havia o início de alguma coisa verdadeira. Nova. Serena. Sua.
