Ainda assim, ao entrar no prédio, ficou-lhe no peito uma sensação amarga, pegajosa, como se tivesse atravessado uma poça de lama. João tinha dado início a uma guerra. E, pelo que se via, não tencionava recuar tão cedo.
Passou mais uma semana. Na sexta-feira à noite, o telemóvel tocou. Era a irmã mais nova, Inês, e a voz dela vinha carregada de indignação.
— Tu já viste o que eles andam a publicar nas redes sociais?
Ana ficou gelada. Pegou no telefone, abriu a aplicação e entrou na página de Helena. A sogra tinha publicado uma fotografia: aparecia sentada num banco à porta do prédio, de rosto abatido, como se tivesse sido abandonada à própria sorte. Por baixo, escrevera: «É assim que vivemos. A minha própria nora pôs-me na rua. Ficou-me com o carro, atirou-me as chaves à cara. E eu, que a tratei como se fosse minha filha. Façam o bem e preparem-se para receber o mal.»
A publicação já tinha dezenas de comentários. Mulheres que Ana nem conhecia deixavam mensagens cheias de falsa compaixão: «Força, querida Helena», «Deus vê tudo», «Que vergonha de nora, francamente, Deus me perdoe».
Ana sentiu a vista escurecer. Fechou o telemóvel e pousou-o na mesa, com o ecrã virado para baixo, como se aquele retângulo luminoso pudesse continuar a feri-la mesmo apagado.
Uma hora depois, foi João quem ligou.
— Olá — disse ele.
E calou-se.
Ana também não falou.
— Eu… queria conversar — acabou ele por dizer. — Mas não por telefone. Encontramo-nos. Num sítio neutro.
— Para quê?
— Tu estás a ver o que se está a passar. A minha mãe está doente. Tu envergonhaste-a diante de toda a gente. Ela nem se levanta da cama. Os médicos falam em esgotamento nervoso. Está a preparar uma queixa contra ti e contra o teu pai. Diz que a atacaste e que lhe atiraste as chaves à cara.
Ana sentiu o sangue subir-lhe ao rosto.
— João, tu viste o que aconteceu. Foi ela que me atirou as chaves. Eu nem sequer fui a primeira a tocar nelas. O teu pai estava ali ao lado.
— E que interessa quem atirou primeiro? — berrou ele do outro lado da linha. — Tu tens noção do que fizeste? Viraste-te contra a minha família! Contra a minha mãe! Uma mulher doente! Alguma vez lhe perguntaste como estava a tensão? Alguma vez a trataste como uma pessoa?
Ana fechou os olhos e contou devagar até cinco.
— Quando saíste de casa, disseste que querias o divórcio. Eu aceito. Vamos divorciar-nos.
Do outro lado instalou-se um silêncio pesado. Ana ouvia a respiração dele, curta e irregular, e pareceu-lhe que João caminhava de um lado para o outro.
— Então é isso? Divórcio? — perguntou ele, agora num tom mais baixo.
— É.
— Está bem. Depois não digas que não foste avisada. Foste tu que quiseste. Prepara-te. Eu tenho direitos sobre tudo. A casa é arrendada, mas nós pagávamos a meias. Tenho comprovativos. E o carro também não fica assim. Presente ou não, isso vai ser resolvido em tribunal. E ainda há os créditos. Há dois anos fizemos um crédito pessoal. E, já agora, fui eu que o paguei.
Ana franziu a testa.
— Esse crédito está liquidado. Fui eu que transferi a última prestação.
— Não sei de nada. Os papéis dirão. Prepara-te, Ana. Querias guerra? Então vais tê-la.
Desligou sem esperar resposta.
Ana permaneceu sentada durante alguns minutos, imóvel, com o telefone na mão. Depois procurou o número do pai. José ouviu tudo sem a interromper e, quando ela terminou, disse apenas:
— Amanhã de manhã vamos a uma advogada. Já encontrei uma boa.
Nessa noite, Ana quase não dormiu. Revirou-se na cama, repetindo mentalmente cada palavra de João, cada detalhe daquela conversa, cada ameaça mal disfarçada. Quanto mais pensava, mais nítida se tornava uma certeza: ele e a mãe estavam a preparar-lhe alguma armadilha.
A resposta surgiu dois dias depois.
Ana estava no trabalho quando recebeu uma chamada de um número desconhecido. Atendeu, e uma voz masculina, rouca, falou sem qualquer rodeio:
— Dona Ana? Falo do departamento de cobranças. Tem uma prestação em atraso referente ao contrato de crédito número trezentos e vinte e quatro barra quinze. O valor em dívida é de mil cento e vinte euros, acrescido de juros de mora. Quando pretende regularizar?
Ana deixou-se cair devagar na cadeira.
— Que crédito? Eu não pedi crédito nenhum.
— O contrato está em seu nome. Os dados de identificação são os seus. Data de contratação: abril do ano passado. Não recebemos pagamentos há três meses. Seremos obrigados a avançar com o processo de cobrança.
Houve um ruído abafado na linha. Então Ana ouviu, ao fundo, uma voz feminina dizer:
— Diz-lhe que lhe penhoram a casa.
Logo depois soou uma gargalhada breve, seca, satisfeita. Ana reconhecê-la-ia entre mil. Era Helena.
A chamada caiu com dois sinais curtos. Ana ficou muito tempo com o telefone encostado ao ouvido, embora já não houvesse ninguém do outro lado. Aquele riso triunfante continuava a ecoar-lhe na cabeça.
Ligou ao pai. José chegou uma hora depois, entrou na cozinha e pousou o seu telemóvel antigo em cima da mesa.
— Conta-me tudo, pela ordem certa. Palavra por palavra.
Ana repetiu a conversa. Quando chegou ao momento em que ouvira Helena a rir ao fundo, José cerrou os maxilares com tanta força que as maçãs do rosto lhe ficaram brancas.
— Portanto, fizeram um crédito em teu nome. Sem tu saberes. E agora querem obrigar-te a pagar.
— Pai, eu não pedi crédito nenhum. Juro-te.
— Eu sei que não pediste. Por isso amanhã, logo de manhã, vamos falar com Catarina. A advogada.
Tirou um cartão do bolso interior do casaco e colocou-o diante dela. No pequeno retângulo branco lia-se, em letras pretas: «Catarina Sousa. Direito da Família. Litígios Cíveis.»
— Já falaste com ela?
— Falei há dois dias, quando percebi que João não ia desistir assim. Ela pediu que juntasses todos os documentos que tivesses: cartão de cidadão, certidão de casamento, contrato de doação do carro, extratos bancários. Tudo o que estiver aí em casa.
Ana assentiu. Ficaram os dois sentados na cozinha, com as chávenas de chá entre as mãos, calados. Lá fora, a chuva começou a cair com mais força contra os vidros.
Na manhã seguinte, Ana e José dirigiram-se ao escritório de Catarina Sousa. Ficava no segundo andar de um edifício antigo, de tijolo escurecido pelo tempo, numa rua estreita e movimentada. O corredor cheirava a papel, café e madeira encerada. A advogada recebeu-os à porta: uma mulher alta, de cerca de quarenta anos, fato cinzento impecável, cabelo curto e um olhar atento, daqueles que parecem reparar em tudo antes mesmo de a pessoa começar a falar.
— Entrem, por favor. Sentem-se. O senhor José já me explicou a situação em linhas gerais. O carro foi levado, o marido saiu de casa, a sogra anda a difamá-la nas redes sociais e agora apareceu um crédito que a Ana garante nunca ter feito. Vamos por partes. Quando recebeu a chamada da suposta cobrança?
Ana contou o telefonema com todos os pormenores. Catarina foi tomando notas num bloco, levantando os olhos de vez em quando.
— O número ficou registado?
Ana abriu o histórico de chamadas e ditou os algarismos. Catarina introduziu-os no seu telemóvel e carregou no botão de chamada. Depois de alguns toques, atendeu uma voz masculina.
— Sim?
— Boa tarde. Fala Catarina Sousa, advogada de Ana. Com quem estou a falar?
Do outro lado ouviu-se um restolhar, como se o homem tivesse afastado o aparelho da boca. Quando voltou a falar, a segurança já não era a mesma.
— E a senhora liga por que motivo, exatamente?
— Pelo contrato de crédito número trezentos e vinte e quatro barra quinze. Peço-lhe que indique o nome completo da entidade que representa, a morada da sede e o número de autorização para o exercício da atividade de recuperação de crédito.
Seguiu-se uma pausa longa. O homem murmurou algo incompreensível e desligou.
Catarina pousou o telemóvel na mesa e encarou Ana com serenidade.
— Isto não era uma empresa de cobranças. Era alguém a fazer de conta. Muito provavelmente um conhecido da sua sogra, a quem pediram que lhe ligasse para a intimidar. Uma entidade legítima identifica-se, informa a empresa em nome da qual atua e comunica as regras do contacto.
Ana soltou o ar que nem se tinha apercebido de estar a prender. Mas Catarina ergueu um dedo, travando-lhe o alívio.
— No entanto, isso não significa que o crédito não exista. João e Helena podem ter usado uma cópia do seu documento de identificação para contratar empréstimos online ou produtos de crédito rápido. Infelizmente, acontece mais vezes do que se imagina. Vamos verificar.
A advogada puxou o teclado para junto de si e começou a escrever. Alguns minutos depois, virou o monitor na direção de Ana.
— Com a sua autorização escrita, consultei os seus registos de responsabilidades de crédito. Veja isto. Há, de facto, incumprimentos associados ao seu nome. E não é apenas um.
Ana inclinou-se para o ecrã. O chão pareceu desaparecer-lhe debaixo dos pés.
Na lista surgiam três linhas. A primeira correspondia a um crédito pessoal de mil cento e vinte euros, contratado em abril do ano anterior. A segunda era um crédito rápido de quatrocentos euros, feito em julho. A terceira dizia respeito a um cartão de crédito com limite de quinhentos euros, ativado em setembro.
— Eu não pedi nada disto — murmurou Ana, quase sem voz.
José aproximou-se, os olhos fixos no ecrã.
— Foi tudo obra do João?
— Ainda não vamos tirar conclusões antes de termos provas — disse Catarina, levantando a mão. — Primeiro apuram-se os factos. Mas reparem nas datas: os três contratos foram feitos quando a Ana já estava casada. E, olhando para os valores, não parecem despesas normais da vida familiar. Ana, pense bem: no último ano, reparou em alguma compra mais cara feita pelo João ou pela mãe dele?
Ana ficou em silêncio, a vasculhar a memória. De repente, foi como se uma descarga elétrica lhe atravessasse o corpo.
— Em abril, ele e a mãe foram passar uns dias ao Algarve. Disseram que a Helena tinha juntado dinheiro da reforma. Em julho, João comprou um portátil novo e garantiu que tinha recebido um prémio no trabalho. Em setembro, apareceu uma máquina de lavar nova em casa da Helena. Ela até se gabou disso às vizinhas.
Catarina anotou cada palavra. Depois encostou-se à cadeira, com expressão grave.
— Aí está um possível motivo. Dinheiro para férias, tecnologia e eletrodomésticos. E as dívidas ficavam em seu nome. Diga-me outra coisa: lembra-se de onde estava o seu cartão de cidadão em abril do ano passado?
Ana fechou os olhos, tentando reconstruir aquele período. João pedira-lhe o documento, dizendo que precisava de fazer uma cópia para qualquer papelada do trabalho. Ela nem perguntara muito; confiara nele e entregara-lho.
— Esteve com o João. Ele disse que a empresa precisava de uma cópia do documento da esposa para tratar de um seguro.
Catarina assentiu, como se aquela resposta confirmasse uma hipótese já esperada.
— Esquema clássico. É muito provável que as assinaturas tenham sido falsificadas. Uma perícia caligráfica consegue apurar isso. E, se se confirmar, os atos praticados por João e por Helena podem enquadrar-se no crime de burla, previsto no Código Penal.
O gabinete mergulhou num silêncio denso. Foi José quem falou primeiro.
— O que é preciso fazer para avançar?
— Uma participação criminal. Depois, uma ação para pedir a declaração de invalidade desses contratos de crédito. Em paralelo, podemos reclamar indemnização por danos morais e o reembolso de todas as despesas que este processo lhe causar. Mas antes de começarmos, Ana, tenho de lhe fazer uma pergunta muito direta: está preparada para ir até ao fim? Porque, a partir do momento em que João e Helena souberem da participação, não haverá retorno. Vão defender-se. E é provável que tentem atacá-la com ainda mais força.
Ana ergueu lentamente os olhos para Catarina.
